O mercado espera líderes, não apenas técnicos, em ESG
A questão já não é se a sustentabilidade será central, mas quem está preparado para liderar a partir desse prisma

(Crédito: Shutterstock)
Recentemente, após um encontro com colegas com quem cursei o MBA em Gestão de Negócios Sustentáveis da UFF, há quase 20 anos, ficou ainda mais evidente o quanto as minhas expectativas sobre carreira e sustentabilidade se transformaram.
Em 2007, ESG sequer era uma sigla amplamente difundida. Falávamos de meio ambiente, responsabilidade social e ética como temas relevantes, mas raramente integrados à estratégia central do negócio. Hoje, o cenário é outro. O ESG amadureceu, ganhou métricas, governança, pressão do mercado financeiro e expectativas claras da sociedade.
O que permaneceu ao longo dessas duas décadas foi o tripé fundamental: equilíbrio entre desempenho econômico, impacto social e responsabilidade ambiental. O que mudou foi a profundidade. Saímos de uma lógica de redução de danos (focada em compliance, licenciamento e mitigação de riscos) para uma abordagem de criação de valor, em que sustentabilidade influencia diretamente inovação, acesso a capital, reputação, eficiência operacional e resiliência das organizações, incluindo temas estruturantes como a transição energética, hoje central nas estratégias corporativas e na agenda climática global.
Essa transformação alterou de forma definitiva o perfil profissional demandado. A formação estritamente técnica já não responde aos desafios atuais. O mercado exige habilidades híbridas: visão sistêmica, capacidade analítica, leitura de riscos socioambientais, compreensão de negócios, governança e, sobretudo, ética aplicada à tomada de decisão. Apostar em sustentabilidade deixou de ser custo, é investimento. Os dados confirmam essa virada: a ONU estima que a economia verde deve gerar mais de 20 milhões de empregos até 2030.
O relatório Green Quadrant: Sustainability Consulting 2026, da Verdantix, avaliou 15 consultorias internacionais. Os itens avaliados foram a capacidade real de entrega das consultorias e o seu preparo para os desafios futuros da gestão em ESG. Um dos principais insights é que o diferencial competitivo está na capacidade de implementação efetiva, com resultados mensuráveis. Na prática, isso reforça uma mudança importante no mercado: organizações passam a valorizar menos o discurso e mais a execução, pressionando líderes a traduzirem compromissos em operações, métricas e impacto concreto.
Esse movimento já é visível em grandes organizações globais. Há mais de 25 anos, o Grupo L’Oréal atua de forma proativa para construir uma indústria de beleza mais sustentável, inclusiva e responsável. O programa L’Oréal for the Future, lançado em 2020, consolida essa trajetória ao assumir que desempenho econômico e responsabilidade ambiental e social são indissociáveis.
Estruturado em quatro pilares — transição climática, proteção da natureza, circularidade e apoio às comunidades —, o programa estabelece metas claras até 2030, incluindo redução absoluta de emissões em toda a cadeia de valor, uso de energia renovável, diminuição do plástico virgem, gestão hídrica responsável e fortalecimento da resiliência comunitária, com mulheres no centro dessa transformação.
Nada disso acontece por discurso. A maturidade do ESG trouxe também novos desafios. A construção de narrativas sustentáveis sem lastro em práticas reais, conhecida como greenwashing, tornou-se um risco concreto, assim como a necessidade de padronização global de métricas que permitam comparabilidade e credibilidade. Ao mesmo tempo, a tecnologia passou a desempenhar um papel decisivo. Soluções baseadas em inteligência artificial, blockchain e Internet das Coisas vêm sendo incorporadas para monitorar cadeias de suprimentos, rastrear impactos ambientais e mensurar pegadas de carbono.
Nesse contexto, a sustentabilidade deixa de ser um esforço isolado e passa a exigir crescimento compartilhado. A convergência de mercados e a formação de redes de profissionais, fornecedores, parceiros e clientes alinhados aos mesmos valores tornam-se parte da estratégia. Essa articulação facilita a troca de ferramentas, dados e soluções inovadoras, acelerando a adoção de práticas responsáveis.
Reencontrar pessoas que fizeram parte da minha formação reforçou algo que a prática profissional confirma todos os dias: carreiras não são lineares, e o aprendizado é uma exigência permanente. ESG não é um capítulo adicional de trajetórias como a minha ou a de qualquer liderança contemporânea. É a base sobre a qual decisões, estratégias e modelos de negócio já estão sendo construídos. A pergunta já não é se a sustentabilidade será central, e sim quem estará preparado para liderar a partir desse prisma.
Onde se formar para esse novo jogo
A profissionalização em ESG passa, inevitavelmente, pela educação estruturada. Alguns programas se destacam por formar líderes, e não apenas técnicos:
Formação Executiva e Pós-Graduação
– LATEC UFF – Gestão de Negócios Sustentáveis
Formação sistêmica, multidisciplinar e orientada ao bem comum.
– USP/Esalq – ESG e Negócios Sustentáveis
Integração do ESG à estratégia empresarial e à análise de riscos.
– FGV – ESG e Sustentabilidade Corporativa
Ênfase em políticas ambientais, responsabilidade social e liderança.
– PUC-Rio – Gestão Estratégica da Sustentabilidade
Interseção entre negócios, tecnologia e mudanças climáticas.
– Insper – Programa Avançado em Sustentabilidade e ESG
Gestão de riscos ambientais e sociais com visão de longo prazo.