Se a IA já faz o trabalho técnico, qual é o seu diferencial?
Quando até o CEO delega para uma IA, o que sobra de insubstituível em cada um de nós?

(Crédito: Shutterstock)
Em janeiro deste ano, Mark Zuckerberg anunciou que havia criado uma IA para fazer o trabalho por ele e queria que todos os funcionários fizessem o mesmo. A declaração causou desconforto, gerou debate e, para muitos, despertou a dúvida: se até o CEO terceiriza para a IA, o que sobra para mim?
A provocação do Zuckerberg não foi um acidente de comunicação. Foi um sinal, e eu, como CEO de uma empresa que prepara pessoas para o mercado de tecnologia, me sinto obrigada a respondê-lo, não com otimismo, mas com honestidade sobre o que está acontecendo e o que precisamos fazer a partir de agora. A IA não veio para roubar empregos, veio para expor quem nunca foi além da execução técnica.
Nos últimos anos, construímos um mercado de trabalho que supervalorizou habilidades técnicas mensuráveis, frameworks, linguagens, certificações. Fazia sentido, eram escassas, fáceis de avaliar, e o mercado pagava bem por elas. O problema é que muita gente confundiu dominar a ferramenta com ter um diferencial. E ferramenta, por definição, é substituível. Enquanto a IA consegue escrever código funcional, criar campanhas, produzir relatórios e até conduzir análises de dados, tudo isso em segundos, o que estávamos vendendo como diferencial vira commodity. Não amanhã. Já.
O cargo de CEO sempre foi, em sua essência, o cargo que a IA não consegue ocupar, não porque seja tecnicamente complexo, mas porque exige julgamento em situações onde não há resposta certa. Exige assumir riscos. Exige construir confiança com as pessoas que têm motivações diferentes, histórias que os dados não capturam. Exige, acima de tudo, saber perguntar por que aquela pergunta importa. Exige humanidade.
Esses não são atributos de liderança sênior. São habilidades humanas fundamentais que, por muito tempo, grande parte do mercado deixou de cultivar porque acreditava que o técnico seria suficiente. Agora que a execução pode ser delegada, a pergunta que cada profissional precisa responder, com honestidade, é: o que eu tenho que genuinamente não pode ser replicado?
O diferencial do futuro não é o que você sabe fazer. É o que você decide fazer e por quê.
Mesmo que o domínio técnico ainda seja necessário, a resposta do mercado atual não está em aprender mais ferramentas ou, quem sabe, a LLM do momento. Está em desenvolver o que as ferramentas não têm: perspectiva. A capacidade de ler contextos problemáticos e tomar posição. De entender o que a empresa precisa versus o que ela está pedindo. De construir narrativas que movem pessoas. De discordar de forma produtiva. De cuidar, de verdade, dos resultados de quem depende de você.
Para as mulheres, esse momento é ao mesmo tempo desafiador e extraordinariamente oportuno. Historicamente, fomos avaliadas com mais rigor nos quesitos técnicos e reconhecidas com menos frequência nas habilidades relacionais e de liderança, exatamente as que agora passam a ser o ativo mais escasso do mercado.
Inteligência emocional, capacidade de mediar conflitos, empatia estrutural, escuta ativa, resiliência, essas competências que muitas de nós desenvolvemos por necessidade, trabalhando em ambientes que nunca foram desenhados para nos incluir, são agora o que o mercado vai pagar mais caro.
A IA nivelou o campo técnico. O que sobra é o que sempre foi humano. E, nesse campo, as mulheres têm vantagem acumulada desde que parem de subestimá-las. As habilidades que o mercado negligenciou por décadas são as que a IA não consegue igualar. E muitas de nós as temos de sobra.
A pergunta que dá título a este artigo não tem uma resposta técnica. Mas uma que fala sobre uma escolha mais fundamental: você vai se posicionar como operador de ferramentas ou como a pessoa que decide quais ferramentas usar, por qual razão, a serviço de qual visão?
Zuckerberg delegou a execução. Mas quem determina a direção, os valores e o propósito por trás daquela execução ainda é humano. Ainda vai ser por muito tempo. E esse humano, cada vez mais, vai precisar ser alguém que desenvolveu muito mais do que um currículo técnico impecável. Seu diferencial não está no que você entrega. Está no que você vê que os outros ainda não viram e na coragem de agir a partir disso.