Silêncio também é comunicação — e custa caro
Na economia criativa, o vácuo de posicionamento é preenchido pela interpretação das comunidades, os fandoms

(Crédito: Shutterstock)
No mercado de comunicação, aprendemos cedo que o vácuo não existe. Onde há silêncio, há interpretação. No cenário atual, a máxima de que “quem cala consente” nunca foi tão literal, ou tão deficitária para as planilhas de marketing. Em um ecossistema dominado pela creator economy, a falta de posicionamento estratégico não é apenas uma escolha cautelosa, é um erro de gestão que ignora a força motriz do consumo moderno: as comunidades e seus fandoms.
Oceanos azuis de produtos e serviços serão cada vez mais raros com as facilidades trazidas pela IA, que amplia a criação e a escala de ambos. A concorrência está cada vez mais acirrada e, no entanto, o consumidor de 2026 não compra apenas produtos, mas adere a sistemas de valores. Quando uma marca silencia diante de temas latentes, ela não está se preservando, está comunicando desinteresse, desconexão e, em última instância, obsolescência.
A grande virada de chave para líderes e CMOs está em entender que a economia dos criadores não se trata apenas de “alcance”, mas de advocacia. E é aqui que entram os fandoms. Diferente de uma audiência passiva, o fandom é uma estrutura organizada de proteção e ataque em torno de uma narrativa.
O poder dos Fandoms
Em minha primeira vez no SXSW, este ano, assisti algumas palestras que mostraram como os fandoms podem e devem ser percebidos como infraestrutura financeira, para marcas e criadores também. Quando uma marca se associa a um criador de conteúdo, ela entra no radar desta comunidade, que já está conectada a alguns valores em comum. Se essa marca se omite em momentos críticos ou falha em sustentar os valores que o próprio criador defende, ela rapidamente perde o apoio da base, pois essa massa crítica de fãs atua como sentinela ética.
Para o fandom, o silêncio da marca é lido como uma traição ao propósito do ídolo. E a fatura chega rápido, em forma de boicote e erosão de reputação.
Não se posicionar custa caro porque fragmenta a confiança. Em nossa experiência na Creators LLC, observamos que as campanhas com maior ROI não são as que tentam agradar a todos, mas as que têm a coragem de ser específicas. O posicionamento atrai o fã e repele o detrator. Tentar ficar no meio do caminho resulta em uma comunicação morna que não gera o advocacy necessário para furar as bolhas algorítmicas.
O silêncio institucional cria um vácuo que os fandoms preencherão, e eles raramente o fazem com benevolência se sentirem que a marca está apenas “surfando a onda” sem profundidade. A falta de posicionamento é, hoje, um passivo financeiro. Marcas que não sabem quem são, ou o que defendem, perdem a relevância para comunidades que têm o poder de erguer ou destruir um negócio em questão de horas.
Liderar no mercado de comunicação hoje exige entender que a neutralidade morreu. Se o silêncio também é comunicação, que ele seja usado como pausa estratégica, e não como escudo para o medo de se posicionar.
O posicionamento autêntico, aquele que se traduz em ações, e não apenas em posts de oportunidade, é a única moeda capaz de comprar a lealdade de um fandom e garantir a longevidade em uma economia onde a atenção é cara, mas a confiança é inestimável.