Women to Watch

Meninas e meninos são criados de forma desigual no Brasil

Estudo do Lab Humanidades, da AlmapBBDO, revela que adolescentes ainda crescem sob regras diferentes

i 7 de abril de 2026 - 12h24

(Crédito: Shutterstock)

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“A liberdade distribui confiança. O controle distribui medo.” A frase, que abre o capítulo sobre meninas e meninos do novo estudo Adorlescência, do Lab Humanidades, da AlmapBBDO, em parceria com a Netflix Ads no Brasil, sintetiza um diagnóstico contundente sobre a juventude brasileira hoje: apesar dos avanços sociais, adolescentes ainda são criados sob lógicas desiguais de gênero.

Segundo o estudo, 74% dos adolescentes acreditam que meninas recebem menos liberdade do que meninos, percepção que sobe para 82% entre as próprias meninas. Na prática, isso se traduz em trajetórias distintas desde cedo: enquanto eles são incentivados à experimentação, elas costumam ser educadas sob vigilância e contenção.

“Mesmo com transformações nas normas sociais, os meninos ainda são induzidos a trajetória de descoberta e experimentação mais precoce, enquanto as meninas continuam sendo socializadas sob uma lógica de maior proteção, controle e adiamento das experiências afetivas e sexuais”, aponta o diagnóstico do estudo, que analisa diferentes aspectos comportamentais dos jovens brasileiros.

O resultado, para além de comportamental, parece também trazer elementos emocionais e sociais. De acordo com os dados, meninos crescem com mais autonomia para agir, mas frequentemente com menos repertório emocional. Já as meninas desenvolvem maior consciência emocional e social, contudo, têm mais carga de medo, autocontrole e responsabilidade.

“Estamos vendo o aumento da misoginia no Brasil e isso começa em casa. É preciso haver uma reflexão de gênero nos lares”, avalia Rita Almeida, líder do Lab Humanidades e executiva à frente do estudo, que ouviu mais de 2.800 pessoas no país, entre adolescentes, pais e adultos de diferentes regiões, classes sociais e níveis de escolaridade.

Pedagogia invisível que molda a autoestima

Segundo a pesquisa, essa diferença de criação entre gêneros não se limita à sexualidade ou à adolescência, pois passa a atravessar todas as dimensões da vida. Ela aparece, por exemplo, na relação com o corpo, na construção da autoestima, na forma de ocupar espaços, na maneira de lidar com risco e erro e no jeito de se expressar.

É o que os pesquisadores chamam de “pedagogia do risco desigual”. Enquanto para meninos, o risco é parte da experiência, para meninas, é ameaça.

Pressão, ansiedade e redes sociais

O cenário se agrava quando cruzado com outro dado central da pesquisa: a saúde mental dos adolescentes, balizada muitas vezes pelas redes sociais. 61% deles afirmam que a pressão para ter sucesso os deixa ansiosos. Entre as meninas, esse número sobe para 68%. Quando perguntados se já passaram por crise de ansiedade ou pânico, 58% deles responderam que sim.

A diferença de socialização entre meninos e meninas amplifica esse quadro. Elas, mais expostas à comparação, validação externa e controle social, sobretudo no ambiente digital, tendem a internalizar mais pressão.

Já os meninos, por outro lado, lidam com uma expectativa de autonomia e desempenho que muitas vezes não vem acompanhada de suporte emocional. O resultado é uma geração tensionada, por fora e por dentro, e pouco escutada.

Papel da família

Apesar das transformações sociais, a pesquisa aponta que a família ainda é um dos principais agentes de reprodução dessas diferenças. Mesmo sem intenção explícita, expectativas distintas continuam sendo transmitidas entre o que se espera de um menino e de uma menina.

Entre mães e pais, 20% acham adequado que a filha menina tenha o primeiro beijo aos 14 anos, enquanto 40% têm a mesma expectativa para o filho menino.

Quanto à primeira relação sexual, 26% entendem que a idade mínima para o filho menino iniciar a experiência deve ser entre os 15 e 17 anos, contra 9% para a filha menina.