Meninas e meninos são criados de forma desigual no Brasil
Estudo do Lab Humanidades, da AlmapBBDO, revela que adolescentes ainda crescem sob regras diferentes

(Crédito: Shutterstock)
“A liberdade distribui confiança. O controle distribui medo.” A frase, que abre o capítulo sobre meninas e meninos do novo estudo Adorlescência, do Lab Humanidades, laboratório de pesquisas de comportamento social da AlmapBBDO, sintetiza um dos diagnósticos mais contundentes sobre a juventude brasileira hoje: apesar dos avanços sociais, meninos e meninas ainda são criados sob lógicas desiguais.
Segundo o estudo, 74% dos adolescentes acreditam que meninas recebem menos liberdade do que meninos, percepção que sobe para 82% entre as próprias meninas.
Na prática, isso se traduz em trajetórias distintas desde cedo: meninos são incentivados à experimentação, enquanto meninas costumam ser educadas sob vigilância e contenção.
“Mesmo com transformações nas normas sociais, os meninos ainda são induzidos a trajetória de descoberta e experimentação mais precoce, enquanto as meninas continuam sendo socializadas sob uma lógica de maior proteção, controle e adiamento das experiências afetivas e sexuais”, aponta o diagnóstico do estudo.
O resultado, para além de comportamental, parece ser subjetivo. De acordo com os dados, meninos crescem com mais autonomia para agir, mas frequentemente com menos repertório emocional. Já as meninas desenvolvem maior consciência emocional e social, mas têm mais carga de medo, autocontrole e responsabilidade.
Realizado entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, o estudo ouviu mais de 2.800 pessoas no Brasil, entre adolescentes, pais e adultos de diferentes regiões, classes sociais e níveis de escolaridade. A pesquisa combinou três etapas complementares: qualitativa, quantitativa e uma fase de checagem de fatos.
Pedagogia invisível que molda a autoestima
Segundo a pesquisa, essa diferença de criação entre gêneros não se limita à sexualidade ou à adolescência, pois atravessa todas as dimensões da vida. Ela aparece, por exemplo, na relação com o corpo, na construção da autoestima, na forma de ocupar espaços, na relação com risco e erro e na maneira de se expressar durante a vida.
É o que os pesquisadores chamam de uma “pedagogia do risco desigual”. Enquanto para meninos, o risco é parte da experiência, para meninas, é ameaça.
Pressão e ansiedade
O cenário se agrava quando cruzado com outro dado central da pesquisa: a saúde mental dos adolescentes. 61% deles afirmam que a pressão para ter sucesso os deixa ansiosos. Entre as meninas, esse número sobe para 68%. Quando perguntados se já passaram por crise de ansiedade ou pânico, 58% deles responderam que sim.
A diferença de socialização entre meninos e meninas amplifica esse quadro. Elas, mais expostas à comparação, validação externa e controle social, sobretudo nas redes sociais, tendem a internalizar mais pressão.
Meninos, por outro lado, lidam com uma expectativa de autonomia e desempenho que muitas vezes não vem acompanhada de suporte emocional. O resultado é uma geração tensionada, por fora e por dentro.
Papel da cultura e da família
Apesar das transformações sociais, a pesquisa aponta que a família ainda é um dos principais agentes de reprodução dessas diferenças. Mesmo sem intenção explícita, expectativas distintas continuam sendo transmitidas entre o que se espera de um menino e de uma menina
Entre os pais, 20% acham adequado que a filha menina tenha o primeiro beijo aos 14 anos, enquanto 40% têm a mesma expectativa para o filho menino.
Quanto à primeira relação sexual, 26% entendem que a idade mínima para o filho menino iniciar a experiência fica entre os 15 e 17 anos, contra 9% para a filha menina.