Gloria Steinem já sabia tudo
Uma das primeiras vozes feministas a falar sobre o envelhecimento feminino já pregava que a idade é nossa forma de transgressão

Gloria Steinem, uma das primeiras vozes feministas a falar sobre o envelhecimento feminino no começo dos anos 1970 (Crédito: Reprodução/Pinterest)
Mulheres grisalhas não são mais novidade no meu feed do Instagram.
Como também não são produtos que prometem o fim dos fogachos e pozinhos que entregam um pouco mais de disposição para a mulher menopausada que acorda se arrastando.
Claro que meu algoritmo está totalmente treinado, afinal são quase oito anos postando, todos os dias, algum tema conectado ao envelhecimento feminino.
Quando comecei meu perfil, o Cool50s, qualquer campanha relacionada à maturidade invariavelmente envolvia um casal onde o homem usava um suéter amarrado ao pescoço e a mulher — grisalha também — se enroscava em seus braços com um sorriso idílico.
Passado algum tempo, claramente evoluímos. Não somos mais vistas como mulheres que só consomem fitoterápicos e afins, mas que têm um poder de compra inquestionável como qualquer pesquisa de mercado atualizada sabe.
Dito isso, fiquei surpresa quando me deparei com uma marca bacanérrima de bijoux expondo seus anéis-desejo em mãos maduras e braceletes divinos em braços reais que viveram histórias, e adorei. Achei super moderno e transgressor. Me conectei com a marca, de quem já sou fã, e me deu uma vontade louca de perguntar pra idealizadora da campanha como foi o feedback: “Suas clientes gostaram? Como foram as vendas? Alguma cliente, não grisalha e não tão madura, reclamou por não se sentir representada?”
Mas por enquanto são poucas as marcas que chegam a esse grau de ousadia. Algumas até arriscam colocar uma mulher de 70 anos de lingerie — confesso que não vi mais essa campanha —, mas eu acharia lindo ver o povo ousando de verdade e colocando uma mulher 60+ dirigindo um carrinho elétrico ou uma pickup gigante.
O que falta coragem para fazer na publicidade, o feminismo já entendeu faz tempo.
Gloria Steinem, uma das primeiras vozes feministas a falar sobre o envelhecimento feminino no começo dos anos 1970, já pregava que a idade é nossa forma de transgressão, e que as mulheres são o único grupo que se torna mais radical com a idade. Gloria entendeu tudo ao contextualizar a mulher madura como dona da sua vida e das suas escolhas, uma vez que estamos livres para finalmente romper alguns padrões e, quem sabe, também os estéticos. Somos transgressoras justamente por estarmos aqui, fazendo barulho, ao contrário do que se esperava de nós há bem pouco tempo atrás.
Então, por que não explorar essa nossa veia radical e nos representar em campanhas inovadoras? Temos dinheiro, poder de escolha, critério, e tenho certeza que tem uma mulherada por aí louca pra comprar qualquer coisa que converse com elas. Mas um recado: nem toda campanha tem que ter uma mulher que assumiu seus brancos — mesmo eu tendo assumido, adoro uma diversidade. Vamos ser criativos e colocar as morenas, ruivas, loiras, porque como na nossa juventude, também somos diversas. Só queremos um pouco mais de bossa e modernidade quando somos representadas.
Como já falava Gloria Steinem: “Toda mulher tem dentro de si uma Harley-Davidson roxa.”