Opinião WW

O que o tempo revela

Por que a presença verdadeira exige tempo e uma escolha que nem sempre é confortável

Maria Laura Nicotero

CEO da Nico.ag e presidente da plataforma Women To Watch 14 de maio de 2026 - 14h13

(Crédito: Shutterstock)

(Crédito: Shutterstock)

Existe uma mudança que não passa necessariamente pelas ferramentas, nem pelos formatos, nem pela tecnologia, mas pela forma como o tempo começa a ser distribuído entre as pessoas. Ela é menos visível do que outras transformações, mas talvez seja mais profunda. Por muito tempo, as horas trabalhadas foram compreendidas como um débito a ser pago. Estar disponível era premissa, a agenda cheia funcionava como evidência de relevância, e a capacidade de responder rápido, de circular entre diferentes frentes, era lida como competência.

Sinto que isso começa a mudar. O tempo vem deixando de ser algo que se deve e passando a ser algo que se concede. E essa diferença, que parece sutil, altera a lógica inteira. Porque conceder tempo implica escolha, implica critério, implica reconhecer valor em algo ou alguém antes de decidir permanecer ali.

Isso se torna mais evidente num ambiente em que é possível estar em muitos lugares ao mesmo tempo sem, de fato, estar em nenhum. Multiplicar o número de reuniões e ferramentas não é sinônimo de estar disponível. Pelo contrário: a overdose de estímulos costuma funcionar como um disfarce perfeito para a ausência. Nesse contexto, Presença começa a significar outra coisa.

Não é apenas estar disponível, não é apenas responder. É uma disposição mais rara, que envolve algum nível de exposição. É estar aberto para ser afetado pelo que está acontecendo ali, seja uma conversa, um projeto, uma pessoa. É conseguir escutar sem antecipar a resposta, deixar o outro terminar uma ideia dentro da própria cabeça antes de reagir. É admitir, ainda que de forma sutil, que aquilo pode modificar o que você pensava antes.

Isso tem um custo. É mais lento, não escala com facilidade e exige interromper a lógica da performance contínua. Talvez por isso seja menos frequente do que parece. E talvez por isso, quando acontece de fato, seja percebido com tanta clareza.

No trabalho, esse deslocamento aparece de maneira bastante concreta. Projetos que se sustentam não são necessariamente os mais rápidos, nem os mais organizados, mas aqueles que permanecem vivos ao longo do processo. Aqueles em que ainda existe conversa, dúvida, ajuste, interesse real. Em que o briefing não se encerra na entrega formal e continua sendo discutido fora da sala, no intervalo, no caminho. Há uma diferença clara entre executar algo e estar implicado naquilo.

O mesmo vale para a construção de times. Existe uma expectativa de que liderança seja capacidade de direção, de tomada de decisão, de organização. Tudo isso continua sendo necessário. Mas, ao mesmo tempo, fica cada vez mais evidente que nada disso se sustenta sem presença. Sem a capacidade de estar de fato com as pessoas, de perceber o que não está sendo dito, de sustentar uma conversa que não tem solução imediata. E isso não é simples.

A presença verdadeira exige tempo, no sentido mais direto da palavra, e uma escolha que nem sempre é confortável. Escolher estar implica, inevitavelmente, escolher não estar em outro lugar. Talvez por isso exista um certo afastamento desse tipo de envolvimento. Não por falta de consciência, mas porque ele exige uma qualidade de atenção que não combina com a lógica de aceleração constante.

Ao mesmo tempo, é justamente essa qualidade de presença que passa a ter mais valor. Existe um reconhecimento quase imediato quando alguém está de fato presente. Não é algo que precisa ser explicado. É percebido. E, de alguma forma, cria um tipo de vínculo diferente, mais consistente, mais difícil de substituir. Isso aparece também na forma como a agenda vai sendo reorganizada ao longo do tempo, e posso falar por mim, pela minha própria agenda.

Com alguma maturidade, começa a surgir um cuidado maior com onde se escolhe estar. Não apenas no sentido de eficiência, mas de sentido. Estar menos disponível, mas mais inteiro. Reduzir a quantidade de interações que não se sustentam para preservar aquelas que, de fato, importam.

Essa escolha nem sempre é confortável, e muitas vezes exige explicitar limites que antes ficavam implícitos. Mas ela comunica algo importante: que o tempo dedicado a alguém ou a alguma coisa não é automático, e, justamente por isso, carrega (mais) valor. O tempo deixa de ser apenas aquilo que organiza a agenda e passa a ser uma forma de expressão. Ele mostra, de maneira bastante direta, o que é prioridade, o que permanece e o que já não faz mais sentido sustentar.

O que é relevante o suficiente para merecer presença.