Opinião WW

As vantagens competitivas das mulheres na menopausa

Existe um erro silencioso no mercado corporativo: estamos desperdiçando uma das fases mais sofisticadas da liderança feminina

Paula Puppi

Executiva sênior e conselheira 20 de maio de 2026 - 8h48

 

Existe um erro silencioso acontecendo no mercado corporativo: estamos tentando fazer mulheres maduras performarem como mulheres de 30 anos. E, no processo, desperdiçando justamente uma das fases mais sofisticadas da liderança feminina.

A menopausa ainda costuma ser tratada apenas como um tema médico. Mas, para muitas executivas, ela representa também uma reorganização profunda de identidade, energia, relações e prioridades. E isso está acontecendo com a primeira geração de mulheres da história que atravessa essa fase ainda ocupando posições reais de poder econômico e intelectual.

Sim, existem sintomas difíceis. Fogachos, insônia, fadiga, alterações hormonais e emocionais. Mas o debate normalmente fica preso apenas ao que diminui, ignorando o que amadurece.

A neurociência começa a apontar algo interessante: enquanto algumas capacidades cognitivas podem oscilar temporariamente, outras se sofisticam. Muitas mulheres passam a desenvolver uma visão mais sistêmica, leitura humana mais refinada e uma serenidade muito maior para lidar com problemas. Depois de atravessar maternidade, doença, perdas, separações, filhos, pais envelhecendo e crises reais da vida, uma crise corporativa já não parece tão dramática assim.

Também existe uma capacidade mais profunda de reconhecer talentos e entender onde cada pessoa funciona melhor. Não apenas olhando performance, mas entendendo comportamento humano por múltiplas perspectivas: como mãe, filha, esposa, líder, amiga e cuidadora. Essa vivência amplia enormemente a capacidade de montar times, orientar pessoas e construir relações de confiança.

Em uma era de excesso de estímulo, ansiedade coletiva e multitarefa permanente, mulheres maduras frequentemente começam a trocar velocidade por profundidade. Menos dezenas de abas abertas ao mesmo tempo. Mais repertório, foco e reflexão. Menos “scroll infinito”. Mais livro.

A liderança do futuro talvez não precise de mais gente acelerada. Precise de gente capaz de olhar para um problema complexo e dizer: “calma, eu já vi algo parecido antes”.

Existe também uma transformação humana importante acontecendo nessa fase. Muitas mulheres passam a tolerar menos ambientes tóxicos, relações superficiais e performances vazias. A necessidade de aprovação diminui. A autenticidade aumenta. E isso muda a forma de trabalhar, liderar e se relacionar.

Durante uma discussão recente sobre menopausa, um homem comentou que, ao passar dos 50, sentiu muitas das mesmas coisas que estávamos descrevendo. A diferença, segundo ele, é que homens costumam comprar um carro de luxo em vez de falar sobre o assunto.

Talvez eles também precisem começar.

Porque existe algo muito poderoso acontecendo quando uma geração inteira consegue finalmente transformar sofrimento silencioso em conversa coletiva.

Talvez o grande ganho daqui para frente seja justamente esse: mais acolhimento entre nós para minimizar os perrengues — e maximizar as vantagens.

Porque a menopausa pode até reduzir estrogênio. Mas, em muitos casos, aumenta clareza.