27 anos depois, férias de verdade
Passei 45 dias sem trabalhar e voltei menos acelerada e mais consciente do que importa

(Crédito: Shutterstock)
Quando eu me formei na faculdade, em 1997, decidi tirar férias muito longas – quase 45 dias, com uma amiga. Foi nossa primeira viagem internacional: uma quantidade de novidades tão grande em tão pouco tempo que mudou, certamente, nossa visão de mundo. Paisagens, cultura, idioma, até os bichos eram diferentes. Eu nunca tinha visto um canguru, nem no zoológico, e alimentá-los de tão perto foi apenas uma de tantas emoções e experiências novas.
Decidimos fazer esta viagem longa porque entraríamos no mercado de trabalho em seguida – e ambas, já fazendo estágios e processos de seleção, sabíamos que dificilmente voltaríamos tão rápido a ter férias do tamanho que tínhamos na escola e na academia.
Pois bem, entrei no mercado de trabalho formal em 1998 e, para minha tristeza, estávamos certas: desde então, nunca mais tive férias maiores do que três semanas (o que, eu sei, já é um luxo). Em muitos momentos, tirava vários períodos curtinhos. Aproveitava um feriado daqui, emendava um outro ali, além de fazer algumas pausas de dez dias. Na minha cabeça, estava funcionando. Eu voltava descansada o suficiente para seguir em frente, orgulhosa da minha capacidade de “desligar e voltar rápido”.
Quase 30 anos depois, um conjunto de circunstâncias pessoais e profissionais me fez repensar a vida profissional. Decidi fazer uma pausa mais longa e, em 2025, pela primeira vez, fiquei 45 dias seguidos sem trabalhar. Sem responder e-mails. Sem entrar em calls. Sem “só dar uma olhadinha”. E o que descobri foi desconcertante: há um tipo de descanso que eu desconhecia. Pelo menos desde 1997.
A primeira semana de férias ainda é feita de descompressão. A segunda é quando o corpo começa a entender que pode baixar a guarda. Só depois disso é que a mente, finalmente, desacelera de verdade. Tenho uma tia que fala que “a bochecha cai” quando a gente relaxa mesmo. Descobri que descansar profundamente leva tempo. E tempo, para mulheres, é um recurso ainda mais raro.
Nós aprendemos cedo a sermos contínuas. Continuar produzindo, continuar cuidando, continuar disponíveis. O trabalho formal ocupa um turno; a casa, a família e a gestão invisível da vida ocupam outro. Para muitas de nós, mesmo as férias requerem continuar operando: organizar roteiros e passeios, arrumar as malas da família toda, comprar “a farmacinha” para levar, organizar as refeições, e tudo, e tal. Para as mães, especialmente, o “pausar de verdade”, sem uma só obrigação ou tarefa, quase nunca acontece.
Durante esses 45 dias, estive longe do computador. Tirei o smartwatch (e não coloquei de volta nunca mais). Nos primeiros dias, a mão buscava o celular como reflexo. Depois, pouco a pouco, o meu tempo de tela foi diminuindo, e o brainfog junto com ele.
Meus ombros “desceram”, meu corpo desinflamou com a baixa do cortisol e meu ciclo circadiano mudou. Passei a ter sono cedo, acordar cedo também. E aí, 45 dias depois, quando voltei aos encontros e cafés com amigos, me perguntaram várias vezes: “menina, você fez plástica nas suas férias?”
Vejam: o que eu descrevo acima certamente é um privilégio de elite. A desigualdade de renda e a sobrecarga de trabalho doméstico tornam pausas longas ainda mais difíceis para muitas mulheres. Mas talvez justamente por isso a conversa seja necessária. Se o descanso profundo é luxo, algo estrutural está errado.
A questão é que o mercado de trabalho naturalizou a ideia de que produtividade contínua é virtude. Mas é fato: corpos exaustos tomam decisões piores. Mentes sobrecarregadas criam menos. Lideranças cansadas… perpetuam o ciclo.
Se 30 dias parecem impossíveis, a pergunta não deveria ser “como dar conta sem eles?”, mas sim “por que parecem impossíveis?”. Quem se beneficia de um mundo em que pessoas, especialmente mulheres, nunca param?
A pausa longa não resolve tudo. Não corrige desigualdades, não redistribui tarefas domésticas, não muda culturas corporativas. Mas ela devolve perspectiva.
E perspectiva é um tipo raro de poder.
Passei 45 dias sem trabalhar e voltei diferente. Menos acelerada, mais consciente do que importa, menos disposta a aceitar o que me agride ou a urgência como regra.
Descobri que parar me devolveu minha versão mais inteira.
E você? Quando foi a última vez que você conseguiu descansar de verdade?