Opinião WW

Sobre ser a única mulher na sala

Competência técnica nem sempre será suficiente, especialmente no ecossistema de tecnologia e na liderança

Isabela Castilho

CEO da Rocketseat 20 de abril de 2026 - 8h01

(Crédito: Shutterstock)

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No cotidiano, nos acostumamos a deixar de lado a noção do quão difícil alguns contextos podem ser apenas por sermos mulheres. Mas quando percebemos, de novo, que somos a única mulher na sala, a única presente na reunião, a única opinando em decisões estratégicas, nesse momento é que volta à tona a noção de que a competência técnica nem sempre será suficiente, especialmente no ecossistema de tecnologia e em cargos de liderança. Muito menos quando unimos ambos os cenários. 

Depois de um mês dedicado a histórias e desafios de mulheres, enquanto celebro o crescimento de novas frentes de negócio e a expansão da Rocketseat, decisões e resultados dos meus três anos como CEO, é impossível não notar o contraste entre essas conquistas e a ideia de que ainda existo como exceção em muitos desses cenários. Ocupar espaços que muitos ainda acreditam que “não são feitos para mulheres” exige uma resiliência silenciosa que nós cultivamos desde cedo. 

“A tecnologia transformou a minha vida no momento em que eu decidi que não aceitaria ser exceção, eu queria ser mudança.” Essa frase é da Ana Vitória, desenvolvedora que recebeu uma das 50 bolsas de estudos na Rocketseat exclusiva para mulheres distribuídas em março. E entre tantos depoimentos que li, esse foi talvez o que mais me marcou, porque pude me ver, e ver tantas outras mulheres nessa mesma crença. 

Muitas vezes, estar em uma reunião estratégica, em uma palestra internacional ou em uma mentoria de alto nível me remete diretamente à infância, quando eu era uma criança que amava futebol (e ainda amo). Era aquele sentimento de ser uma menina tentando fazer parte de um jogo onde as regras pareciam já ter sido escritas apenas por e para meninos. 

Hoje, o campo é o mercado de tecnologia e o cargo é o de CEO, mas a sensação de “invadir” um espaço majoritariamente masculino ainda persiste. Pesquisas como a da Bain & Company mostram que esse contexto é ainda mais solitário do que a gente imagina, até 2024 éramos apenas 6% de CEOs. 

Mas no mundo atual, onde arquitetos, designers, advogados, e tantos outros profissionais conseguem se aventurar pelo mundo da tecnologia, criando projetos funcionais e inovadores com ajuda da IA, por que ainda existe a ideia de que mulheres não pertencem da mesma forma a esse espaço? Todos têm algo que serve de destaque dentro do ecossistema: pontos de vista e experiências diferentes do que sempre existiu como padrão. É isso que faz a diversidade tão importante, é ela que impulsiona a inovação. 

Há muitos anos, quando me tornei mãe e, ao mesmo tempo, comecei minha carreira como desenvolvedora, meu primeiro emprego me mostrou algo que eu levo até hoje: mulheres são referências em times de tecnologia. A primeira liderança que tive, uma mulher, foi essencial para tudo que aprendi e para entender que não é impossível ocupar esses lugares.

Menos de dez anos depois, me tornei CEO em uma escola de referência no setor de programação. Eu também não aceitei ser exceção, quis ser mudança. 

A Rocketseat prova diariamente que nem todo o mercado precisa seguir o script padrão em que nos restam os papéis secundários, como coadjuvantes da história. Aqui eu já fui a única mulher em toda a operação, mas hoje já não sou mais sequer a única na sala, muito menos na camada de liderança. 

Enquanto o setor de TIC no Brasil apresenta cerca de 39% de participação feminina e o mercado global de tecnologia gira em torno de 25% a 30% em cargos técnicos, aqui dentro, nós viramos o jogo: mais de 50% das nossas lideranças de time são femininas. Essa não é uma meta de diversidade, é um indicador antecedente de tendências de mercado e de inteligência organizacional.

Saber o básico nunca foi suficiente para alcançar as oportunidades. Em 2025, a média de tempo de estudo na nossa plataforma aumentou 205%, refletindo uma busca incessante por qualificação. A régua está subindo para todos, e isso é combustível para alcançar novos patamares, porque, pra nós, a régua sempre foi alta.

Investimento pessoal gera evolução pessoal, e o meu conselho é o mesmo, independentemente de gênero e de quando isso começa, porque o mesmo conteúdo que forma nossos alunos forma também nossas alunas: é preciso alinhar a técnica ao uso estratégico e produtivo da tecnologia. E isso deve valer desde cedo, algo que vamos garantir com o nosso novo programa para escolas, onde meninas e meninos vão poder aprender tecnologia com os mesmos conteúdos e incentivo.

Conhecimento é algo que ninguém nunca tira da gente. Eu sei, é clichê, mas clichês existem por um motivo.

Não somos “só” uma na sala, nem vamos aceitar continuar sendo. Aos poucos estamos construindo um mercado que finalmente fala a nossa língua também. Não vamos ser exceção, vamos ser mudança.