Opinião WW

O assassinato do acaso

Sem o novo, o que sobrará serão apenas versões otimizadas do que já vimos, fizemos e somos

Isabela Ambrifi

Diretora de planejamento da Cappuccino 15 de abril de 2026 - 8h59

Tem uma cena silenciosa acontecendo bem debaixo do nosso nariz. E ela não envolve escândalos, crises políticas ou novas tecnologias mirabolantes. Ela envolve uma ausência.

O acaso está desaparecendo.

Não de forma explícita, não como quem sai pela porta e a bate atrás de si. Ele está sendo lentamente substituído por uma engrenagem muito mais eficiente, muito mais confortável e, justamente por isso, muito mais perigosa.

O acaso sempre foi um operador invisível da cultura. Ele organizava encontros improváveis, repertórios inesperados, ideias que não sabíamos que precisávamos. Era ele que nos fazia assistir a um filme que não escolheríamos, ouvir uma música que não estava no nosso radar, conversar com alguém fora da nossa bolha social. O acaso era, no fundo, um mecanismo de fricção. E é da fricção que nasce pensamento.

Mas aí chegou o algoritmo. Claro que é ele, que saco, é sempre ele que chegou e fez terra arrasada.

O algoritmo é o triunfo do atrito zero. Ele antecipa, organiza, entrega. Ele reduz o mundo àquilo que já demonstramos ser. É quase uma ontologia preguiçosa do eu.

Hoje em dia você não é o que você come, você é o que você clica. E, a partir daí, tudo passa a orbitar essa versão editada de você mesmo.

Que tipo de sujeito que está sendo produzido nesse ambiente de previsibilidade radical?

Eu pergunto e eu respondo: um sujeito cada vez mais confirmado, menos confrontado. Que tem cada dia mais dificuldade em lidar com frustração, com menos jogo de cintura, sem malemolência. Cada vez mais confortável, menos curioso.

Isso não é detalhe. Isso reorganiza profundamente a sociedade.

Quando o acaso perde espaço, a diversidade cognitiva também perde. Quando só encontramos o que já conhecemos, o dissenso vira ruído. Quando o diferente deixa de aparecer, ele deixa de existir como possibilidade legítima. E aí a polarização deixa de ser um fenômeno político para virar uma arquitetura cognitiva.

A gente não discorda mais porque pensa diferente. A gente discorda porque habita mundos distintos. Porque acessamos coisas diferentes e temos reforço infinito de que o que estamos vendo é o que há de melhor para ser visto. Então por que procurar por outras coisas?

No meio disso tudo, tem uma camada mais íntima, quase (ou plenamente) angustiante. Filhos. As novas pessoas nesse novo mundo. Existe uma sensação difusa de que estamos criando crianças em um ambiente onde o inesperado foi domesticado. Onde a descoberta foi substituída pela recomendação e o tédio, que sempre foi um berço de criatividade, virou quase uma falha de sistema.

Criar filhos hoje, às vezes, parece um experimento sem protocolo. Um campo aberto onde a gente intui mais do que entende e torce para dar certo porque é só o que nos resta. Um mato sem cachorro, para usar uma expressão que nunca fez tanto sentido.

Como faz para ensinar alguém a lidar com as dificuldades do mundo se o mundo que chega até ele vem pré-filtrado, pré-validado, pré-moldado?

E talvez seja por isso que os anos 1990 voltaram. Não só na estética, no jeans mais largo ou na volta dos CDs como objeto cult. Mas como um sintoma cultural mais profundo. Uma espécie de saudade de um tempo em que o mundo ainda tinha ruído.

Os anos 90 eram, sob muitos aspectos, menos eficientes. E talvez exatamente por isso fossem mais generosos com o acaso. Você ouvia o que tocava na rádio, não o que um sistema calculava para você. Você zapeava canais e encontrava coisas que não estava procurando. Você entrava em uma locadora e levava um filme pela capa. Existia erro. Existia surpresa. Existia uma espécie de pedagogia do inesperado.

O que sentimos falta não é da falta de tecnologia da época, a gente gosta de facilidades. Mas está parecendo que sentimos falta de mastigar antes de engolir. Falando mais bonito, foi experiência cognitiva que o bagunçado da vida nos permitia que deixou um buraco.

E aqui tem um ponto que talvez a gente ainda não esteja nomeando direito. O algoritmo não só organiza o que vemos. Ele reorganiza o que desejamos. Ele reduz o campo do desejável ao campo do provável.

A gente passa, portanto, a querer o que já está ao nosso alcance, e isso é uma forma muito sofisticada de contenção. De controle, mesmo. Mas que, perversamente, vem embalada como conveniência. Como cuidado. Como personalização. Um mundo feito sob medida para você. Quem recusaria isso?

Só que um mundo sob medida também é um mundo sem folga. Sem espaço para o imprevisto. Sem margem para o encontro com o outro e até consigo mesmo, muitas vezes. E, no limite, um mundo todinho sem espaço para transformação, só cheio de espaço para treta.

Não parece que estamos assistindo, em câmera lenta, a uma redução das possibilidades humanas? Menos encontros improváveis. Menos ideias dissonantes. Menos pensamento crítico. Mais repetição. Mais confirmação. Mais do mesmo.

Talvez a pergunta mais honesta que a gente possa se fazer agora não seja como vencer o algoritmo. Até porque isso seria bobeira, ingenuidade.

Talvez a pergunta seja: quanto de acaso a gente ainda está disposto a permitir na própria vida?

Porque no fim das contas, o algoritmo não é só uma infraestrutura externa, virou um confortinho (inho?) interno, né?

Que tal errar mais? Deixar de gostar de mais coisas? Fica a sugestão de nos expormos mais ao que não é óbvio. Experimentarmos coisas que não foram feitas para nós. Conversarmos com quem não confirma nossas certezas. Deixarmos o tédio existir sem imediatamente anestesiá-lo.

Porque no fim, o acaso não é só um acaso. Ele é provavelmente a condição para que o novo exista — e, sem o novo, o que sobrará serão apenas versões otimizadas do que já vimos, fizemos e somos.

A pergunta final é se isso basta.

Basta?