Opinião WW

Na epidemia da pressa, atenção virou vantagem

Empresas não são lembradas pela pressa com que colocaram uma campanha no ar, mas pelo impacto que criaram

Brisa Vicente

Co-CEO da Droga5 São Paulo 1 de abril de 2026 - 16h30

(Crédito: Shutterstock)

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Tenho um calendário pendurado na minha cozinha que estava virado no mês de abril. Comentei com meu marido que alguém tinha se empolgado e pulado um mês, mas na realidade não. Era dia 26 de março e, sim, precisávamos já começar a planejar o próximo mês.

O tempo passa rápido, as demandas não param de chegar e a sensação de atropelo é sempre constante. Como fazer o tempo render mais?

Nunca tivemos tanta tecnologia para nos ajudar a trabalhar melhor. Ferramentas que organizam tarefas, antecipam decisões, aceleram processos e nos ajudam a focar. Gen AI chegou para liberar espaço para tirarmos da frente tudo que parecia menos fundamental para focarmos no que realmente importa. A promessa é ganhar tempo para fazer o que depende do nosso capital intelectual humano e focarmos em experiências e relações.

Mas a pergunta que tenho feito cada vez mais é: o que estamos fazendo com esse tempo que ganhamos? E estamos ganhando ele de fato? Paradoxalmente, a sensação coletiva é de escassez. Falta tempo para pensar, para conversar com calma, para aprofundar ideias. Falta tempo até para escutar.

A velocidade virou um valor absoluto no mundo do trabalho. Responder rápido, decidir rápido, entregar rápido, como se rapidez fosse, por si só, sinal de que estamos fazendo melhor e de excelência.

Estive em um Summit da Accenture na semana passada e ouvi do Michael C. Bush, CEO do Great Place do Work, que a tecnologia, e atualmente a IA agentic, devem chegar para somar aos humanos para que a gente chegue mais longe e não para nos substituir, o que concordo 100%.

Mas quando a gente tem que produzir mais e ainda mais rápido, sobra tempo para discutir a atenção? Conseguiremos nós, mortais, somados aos nossos espertos agentes, chegar realmente longe sem nenhum respiro?

A criatividade precisa de atenção. Relações de confiança precisam de atenção. Boas decisões também. É da escuta, da curiosidade e da sensibilidade para perceber o que está acontecendo ao redor que nasce quase tudo que importa no nosso trabalho. Nesse mundo automatizado, talvez a nossa humanidade seja justamente o ingrediente que entrega o molho.

Ideias raramente aparecem na correria. Elas surgem em conversas que ganham mais alguns minutos, em perguntas que alguém decide explorar melhor, em momentos de escuta real. Talvez por isso essa habilidade aparentemente simples esteja se tornando cada vez mais rara.

Times criativos funcionam melhor quando existe escuta. Decisões ficam mais sólidas quando diferentes perspectivas têm espaço para aparecer. E ambientes de confiança se constroem quando as pessoas sentem que podem falar e serem ouvidas. Não é verdade?

Talvez um dos diferenciais mais humanos do nosso tempo seja justamente a capacidade de criar espaços de presença. Espaços onde as pessoas conseguem pensar com mais profundidade, trocar ideias com franqueza e construir algo juntas. Pensar também precisa de tempo. Atenção precisa de calma. E boas ideias quase sempre pedem um pouco de silêncio antes de aparecer.

No fim das contas, empresas não são lembradas pela pressa com que colocaram uma campanha no ar. Elas são lembradas pelo impacto que criaram.