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A visão que levou Priscyla Laham ao topo da Microsoft

CEO da companhia no país fala sobre carreira, tecnologia, comunicação, inteligência artificial e o papel humano na transformação dos negócios

i 16 de janeiro de 2026 - 15h47

Priscyla, da Microsoft: ter empatia é habilidade indispensável (Crédito: Arthur Nobre)

Priscyla, presidente da Microsoft Brasil: “Liderança é você ter um grupo de pessoas no qual confia. Você é um habilitador, mas não precisa ser o expert” (Crédito: Arthur Nobre)

Desde muito cedo, Priscyla Laham, presidente da Microsoft Brasil, sabia aonde queria chegar. Não exatamente o caminho, mas o destino. “Eu tinha muita clareza que eu queria ser executiva quando era adolescente”, conta. Filha de uma família de classe média, com passagem pela escola pública e formação técnica no ensino médio, a executiva construiu sua trajetória a partir de ambição, pragmatismo e decisões conscientes, muitas delas feitas antes mesmo de entender todas as regras do jogo corporativo.

“Queria ganhar o meu próprio dinheiro. Não é que minha família tivesse algum problema financeiro grave, mas eu não tinha dinheiro para o eu queria ter. Eu já tinha uma ambição de ter mais dinheiro do que eu tinha”, relembra. Aos 15 anos, já estagiava no CPD da Fatec, ainda que sonhasse com outro lugar: o mundo dos negócios.

A escolha pela faculdade de marketing não veio do desejo de trabalhar em agência. “Entrei na ESPM sem nenhum desejo de estar numa agência de publicidade. Isso nunca foi parte do meu universo mental”, diz. Veio, sim, da convicção de que aquela seria a porta de entrada para uma carreira corporativa. “Eu queria ser uma executiva na área, em qualquer indústria, mas na área de negócios, marketing, morando em Nova Iorque.”

O acaso que virou estratégia

Se o objetivo era claro, o caminho foi tudo, menos óbvio. A tecnologia entrou no caminho de Priscyla quase por acidente. “Acho que cair em tecnologia não era uma coisa esperada”, admite. Tentou os tradicionais programas de trainee de bens de consumo, mas foi barrada pelo inglês. A oportunidade apareceu na IBM, e mudou tudo.

“Hoje, não consigo me ver no universo de bens de consumo, porque acho que tecnologia tem um impacto na sociedade.” A passagem pela IBM abriu as portas para a Microsoft, empresa onde construiria uma carreira de mais de 20 anos, intercalada por uma experiência decisiva na Meta como diretora de vendas no Brasil, em 2016.

O movimento entre empresas de tecnologia e mídia foi, para Priscyla, revelador. “Onde eu estava todo esse tempo que aconteceu tudo isso no mundo da publicidade? E para mim, era o melhor dos dois mundos. Se eu gosto de marketing e de tecnologia, trabalhar numa empresa como a Meta era o que existia de mais encantador.” Vender tecnologia em uma empresa de mídia ampliou seu olhar sobre a indústria da comunicação e sobre o papel estratégico que ela exerce na transformação dos negócios.

Vocação para liderar

Ao longo de sua trajetória na Microsoft, Priscyla Laham ocupou posições em áreas como marketing, vendas e gestão de negócios em diferentes setores da empresa, com o objetivo de ampliar sua visão sobre a operação da companhia e construir relacionamentos estratégicos.

Um dos marcos desse percurso foi a mudança para a Argentina, em 2013, quando assumiu a posição de diretora de marketing e vendas para Argentina e Uruguai e liderou o lançamento do Xbox no país. A experiência internacional, que colocou Priscyla à frente de um time local em um contexto econômico desafiador, redefiniu sua compreensão sobre liderar. “Mesmo que eu não conhecesse o mercado e não falasse a língua, tinha um time que sabiamuito. Ao mesmo tempo, eu tinha um ponto de vista diferente, que foi importante ali.”

O momento da carreira, segundo ela, também a fez pensar pela primeira vez que poderia ter vocação para CEO. “Ali entendi o que é liderança: você ter um grupo de pessoas no qual confia. Onde você é um fresh view, tem um ponto de vista, uma perspectiva. Você é um habilitador, mas não precisa ser o expert.”

Essa visão acompanha Priscyla até hoje e molda sua atuação como presidente. “Eu não me importo em não saber”, diz. “Lido bem com o conforto de não ter 100% do conhecimento, porque eu sei que alguém que tem.”

O plano de se tornar presidente

Após 15 anos na Microsoft, onde entrou em 2000, Priscyla foi para a Meta, e depois de dois anos voltou para a Microsoft. O retorno ocorreu em um momento de transformação da empresa, sob a liderança global de Satya Nadella, com foco em nuvem, dados e inteligência artificial. Foi na negociação de sua volta que teve a ideia de se tornar CEO.

“Pensei: ‘Tá bom, vou voltar, mas tenho que pedir algo além de todo o pacote, algo que realmente faça sentido’. Pedi para que eles me ajudassem a construir esse plano. Sabia que se eles investissem nisso comigo, se me dessem as oportunidades, se tivesse sempre alguém com um olhar de coaching e de feedback para mim, de apontar o quanto eu estava estruturada como executiva para chegar lá, poderia até não dar certo na Microsoft, mas daria em algum lugar.”

O caminho até a cadeira teve novos alinhamentos, sobretudo diante de mudanças de lideranças e de estrutura da empresa. Em janeiro de 2025, Priscyla assumiu a posição de presidente.

“Quando sentei na cadeira, queria tanto aquilo que já tinha muito claro quais eram os meus objetivos e do porquê eu a desejava, até porque tive que explicar para diferentes pessoas ao longo do tempo. Definitivamente, quero fazer o Brasil mais competitivo e acho que uma empresa como a Microsoft pode contribuir, ainda mais num momento de inteligência artificial.”

Em 2024, a Microsoft anunciou um investimento de R$ 14,7 bilhões ao longo de três anos em infraestrutura de nuvem e IA e treinamento em IA em larga escala para capacitar 5 milhões de pessoas no Brasil. “Este tipo de investimento que a gente consegue fazer pode contribuir muito para o país, da democratização de inteligência artificial à habilitação das empresas.”

Comunicação como acesso e simplificação

Ao refletir sobre o futuro da indústria da comunicação, especialmente diante da inteligência artificial, Priscyla é direta: o papel dos comunicadores será ainda mais central. “A comunicação sempre vai ser importante para a gente chegar nas pessoas.” Na visão dela, não apenas como canal, mas como tradutora da complexidade tecnológica.

“Se você conhece uma empresa de tecnologia, a linguagem que a gente fala muitas vezes não está simplificada para o público. Então, acho que o papel de comunicação é o acesso, mas também a simplificação”, afirma. Para ela, a IA não elimina veículos, formatos ou profissões, mas redefine a forma como conteúdo é produzido, distribuído e personalizado.

“As coisas não acabam. A televisão não acabou, as coisas vão se transformando”, diz. E alerta: resistir à transformação não é uma opção competitiva. “Se eu, como país ou como empresa, tentar segurar isso, eu só estou me tornando não competitivo.”

Tecnologia, potência humana e responsabilidade coletiva

Ao contrário da recente discussão sobre substituição de pessoas por máquinas diante dos avanços da tecnologia e da inteligência artificial, sobretudo em meio a de layoffs frequentes em big techs, Priscyla defende uma visão de expansão da capacidade humana. “Não acho que as pessoas vão ser substituídas por IA, mas vão ser substituídas por pessoas que sabem usar inteligência artificial, como foi com a chegada do computador.”

Essa lógica vale também para a comunicação, para a liderança e para a diversidade. Como mulher à frente de uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, ela rejeita o peso simbólico isolado. “A responsabilidade é de todo mundo. Acho que os homens que estão no meu time também têm que ser embaixadores da diversidade.”

Na cadeira de CEO, seu foco é claro: competitividade, impacto social e legado. “Definitivamente quero fazer o Brasil mais competitivo”, diz. Para ela, tecnologia, comunicação e liderança só fazem sentido quando caminham juntas, e quando ajudam pessoas, organizações e civilizações a irem mais longe.