Quem é Beatriz Borges, cofundadora da agência Out Of Office
Executiva acredita na transformação da cultura digital em crescimento exponencial para desafiar o modelo tradicional de agência

Beatriz Borges, cofundadora e diretora executiva da Out Of Office (Crédito: Divulgação)
Beatriz Borges é cofundadora e diretora executiva da Out Of Office (OOO), agência de comunicação criada ao lado de Thales Ferreira e Catharina Dieterich. A OOO já atendeu marcas como Unilever, Dove, Shiseido, Grendene, Grupo Boticário, Vic Beauté e Zerezes, e, em 2024, ganhou uma nova sócia: Maria Prata.
Fundada no fim de 2019, a empresa cresceu de forma exponencial: entre 2023 e 2024, o faturamento aumentou 160%, e, no ano anterior, 110%. Em cinco anos, passou de três sócios para 87 pessoas, mantendo o modelo remoto desde o início, com Thales em São Paulo, Catharina em Los Angeles e Beatriz em Nova York.
Formada em marketing pela ESPM Rio, Beatriz lembra que o interesse por marcas surgiu aos 12 anos, em 2005, ao se encantar com as lojas da Colcci, que tinha Gisele Bündchen como modelo estampando campanhas. “Eu entrava na loja no Rio e ficava impactada: identidade visual, música, atendimento, pessoas. Não era sobre consumir, era sobre sentir. Foi quando percebi que queria trabalhar com marcas que representam desejos e narrativas”, afirma.
A infância marcada por mudanças moldou seu perfil inquieto e construtor. Ela morou em sete cidades até os seis anos, incluindo a Serra dos Carajás (PA), por conta da profissão de seu pai, que era médico,
Ainda na faculdade, entrou como estagiária na Melissa e, em cinco anos, tornou-se gerente, liderando equipes aos 20 e poucos anos. Participou da expansão do Clube Melissa, fortalecendo o posicionamento da marca como uma love brand. Foi ali que conheceu Thales, então seu estagiário e futuro sócio. Anos depois, decidiu se reinventar e foi para Los Angeles cursar uma pós-graduação em marketing de entretenimento. Lá, voltou a estagiar, desta vez no Steal The Look, onde conheceu Catharina.
Ao lado de Catharina e Manuela, sócia do Steal The Look, identificou uma lacuna no mercado: marcas e agências precisavam aprender a produzir conteúdo de forma ágil e relevante. Beatriz propôs expandir a frente com uma condição: trazer Thales para o projeto. Assim nasceu a Out Of Office.
Nesta entrevista, Borges fala sobre o desenvolvimento e crescimento da agência, sobre a gestão de times no modelo remoto e conta como foi concepção da campanha de lançamento da linha de produtos com blindagem anti-umidade e frizz, o Sistema Selagem Profissional Frizz-Resistance, da TRESemmé, estrelada por Maria Bethânia e a Sabrina Sato, reconhecido pelo prêmio Effie Latam 2025.
Meio & Mensagem – A Out Of Office é nova, com pouco mais de cinco anos. Como a agência cresceu nesses últimos anos?
Beatriz Borges – A agência nasceu em novembro de 2019. Desde o primeiro dia éramos remotos: eu em Nova York, a Catarina em Los Angeles e o Thales em São Paulo. Sempre por tela, unidos pela ideia de que existia uma nova forma de fazer conteúdo, marketing e experiência, e que o mercado precisava aprender isso. Nosso diferencial começou da vivência. O Thales e eu passamos anos na Melissa trabalhando com grandes agências do Brasil e de fora. Admirávamos muitas coisas, mas também sabíamos exatamente o que não queríamos repetir. E uma inquietação era clara: dentro de muitas agências, clientes têm pesos diferentes. Contas menores ou menos “interessantes” acabam ficando em segundo plano. Como clientes na Melissa, sabíamos o tamanho do investimento e da expectativa que existiam do nosso lado, e como, muitas vezes, virávamos só mais uma conta numa equipe sobrecarregada.
Por isso, desde o dia 1, cada cliente é tratado como se fosse único. Mantemos times dedicados, muitas vezes exclusivos, formados por pessoas com afinidade real com aquele universo. Não é só sobre atender futebol ou maquiagem, mas sobre entender nuance, repertório e cultura, especialmente na era do conteúdo. Começamos com foco em conteúdo e online, mas nunca fomos só social ou digital. Sempre quisemos ser uma agência do agora: campanhas offline, TV, internet, tudo partindo de insights que nascem ou são validados nos comportamentos das redes. A Out Of Office começou com dois clientes e cresceu de forma exponencial. Do último ano para cá, dobramos em faturamento e equipe. Saímos de três pessoas para 87 no quinto ano, mantendo a lógica de times enxutos, dedicados e estruturados para crescer com consistência, e não por volume.
M&M – Como vocês lidam com a gestão de times remotos?
Beatriz – A gente já nasceu remoto. Desde o primeiro cliente e três sócios, os combinados foram muito claros: Slack, e-mail, rituais de reunião. Existe leveza no dia a dia, mas também muito compromisso. Criou-se um ciclo virtuoso. Como somos uma agência guiada por cultura, comportamento e diferentes lentes geracionais, atraímos pessoas que não querem estar presas a um lugar físico. Quem chega já quer fazer o modelo dar certo. Nossa liderança é o que chamo de “caórdica”, caos com ordem. Caos como autonomia radical para resolver problemas. Ordem como os inegociáveis que sustentam a agência. Dentro desses limites, tudo pode. Para nós, não é sobre vigiar, é sobre criar ambiente de colaboração. A tecnologia viabiliza isso, mas o essencial é a liberdade com responsabilidade.
Quem entra costuma se surpreender: todo mundo pode, e deve, falar. Celebramos mais uma ideia improvável do que o silêncio. As pessoas querem excelência e se inspiram entre si. Mantemos rituais de cultura: uma vez por mês, alguém do time lidera uma conversa sobre um tema escolhido, de gestão do tempo à geração Z. Também temos encontros de social listening e outros momentos em que a empresa inteira troca referências de comportamento, memes e tendências. Com o tempo, os próprios times passaram a criar seus momentos: cafés entre líderes, yoga com o criativo, conversas cruzadas. Só existe um “contra”, que é a vontade de estar fisicamente junto. Não pelo trabalho, mas pela conexão. Ainda assim, conseguimos construir relações fortes pela tela. Até hoje, não encontramos um motivo para o remoto não funcionar.
M&M – Como surgiu a campanha da TRESemmé com Sabrina Sato e Maria Bethânia?
Beatriz – Na Out Of Office, buscamos ideias criativas que movem cultura, negócio e emoção. Mas isso só é possível com clientes que também querem esse nível de impacto, e nem todos querem. Então, sempre começo agradecendo aos que topam construir assim. A TRESemmé foi um desses casos. Quando começamos, já atendíamos marcas como Reserva, Melissa e Hering, mas nunca uma corporação do porte da Unilever, até por escolha. Éramos uma boutique, três anos de história, e pouca vivência nesse nível de estrutura. Ainda assim, a Juliana Potiens, gerente global da marca, apostou na gente justamente por sermos diferentes.
A missão era ousada: transformar a marca de “TV only” para “social first”. Antes, eram dois grandes momentos na televisão por ano e silêncio no resto do tempo. A mudança exigia consistência, e não apenas uma grande ideia. A campanha com Maria Bethânia foi o ápice visível, mas ela é resultado de dois anos de construção estratégica. Não foi um insight genial isolado, foi sobre preparar o terreno para ele fazer sentido.
No lançamento do antifrizz, o briefing era claro: “queremos quebrar a internet”. Trabalhamos o insight da umidade, frizz como reação natural. Surgiram ideias fortes, como um PR stunt com Sabrina Sato como garota do tempo. Mas a pergunta permanecia: isso é realmente imperdível? Num brainstorm aberto, veio a provocação: “Quer quebrar a internet? Chama a última pessoa que estaria numa campanha de frizz. Maria Bethânia”. Era ousado em todos os níveis. Ela não faz publicidade. Mexer no frizz poderia soar como mexer na identidade dela. Mesmo com dezenas de motivos para não dar certo, sentimos que havia algo poderoso ali. A dualidade era perfeita: “Se o produto funciona tanto, preciso mudar quem eu sou?” A resposta era não. Bethânia mantém seu cabelo e sua identidade. Foram muitas rodadas até chegar a um roteiro que, no set, precisava soar espontâneo. Tínhamos clareza estratégica, mas deixamos espaço para a verdade. Bethânia liderando a narrativa com sua força, ao lado da Sabrina, numa troca autêntica.
M&M – Como você descreveria seu estilo de liderança?
Beatriz – Descrevo meu estilo de liderança como escuta e provocação. Aprendi isso na minha primeira experiência profissional: eu era estagiária e, quando surgia um problema, minha líder perguntava “o que você acha?”. Parece simples, mas raramente somos perguntados isso. Sou vista como acolhedora. Aqui pode falar, perguntar e errar. Ao mesmo tempo, sou provocadora: será que é aqui que a gente deve parar? Dá para ir além? Falo muito sobre a dicotomia do perfeccionismo. Ele paralisa quando vira medo, mas também pode ser motor de excelência. Quase sempre conseguimos dar mais um passo. Tento provocar curiosidade intelectual no time, buscando evolução constante, enquanto também aprendo junto.
Eu e meus sócios sempre dissemos que queremos pessoas melhores do que nós. Ninguém tem todas as respostas. No segundo slide da apresentação da Out Of Office está: “a única certeza é a mudança”. Se alguém busca uma agência cheia de verdades absolutas, talvez não sejamos nós. Nossa liderança é dar autonomia máxima com acolhimento real. Criamos espaço para que as pessoas experimentem, decidam e também tenham suporte quando estiverem em dúvida. Empatia, para mim, vem com responsabilidade. Se alguém não está performando bem, eu me pergunto: o que eu poderia estar fazendo para ajudar? Existe uma pessoa ali que escolheu estar com a gente para crescer e fazer algo incrível. Sinto gratidão por isso e meu papel é criar o ambiente para que ela cresça, enquanto eu cresço junto.
Meu estilo também é “caórdico”: zero crença em controle excessivo. Controle sufoca. Eu dou direção e pergunto: como você quer chegar lá? Vamos construir juntos. E tem um ponto essencial: intuição. Mesmo numa era orientada por dados, ela segue muito presente para nós. Talvez porque mais de 80% da liderança da agência seja feminina. Existe uma capacidade forte de ler contexto, sentir timing e não se apressar em conclusões.