Inspiração

Isa Meirelles: “Não quero ser reduzida à pauta da diversidade”

A líder de comunicação estratégica e operações do Google fala sobre carreira, inclusão e liderança

i 5 de janeiro de 2026 - 11h40

Isa Meirelles, líder de comunicação estratégica e operações do Google Brasil (Crédito: Lu Aith)

Isa Meirelles, líder de comunicação estratégica e operações do Google Brasil (Crédito: Lu Aith)

Isadora Meirelles é uma das vozes de destaque na defesa da inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Líder de comunicação estratégica e operações do Google Brasil, ela construiu uma carreira marcada pela busca por acessibilidade comunicacional e pelo compromisso em abrir caminhos para outros profissionais com deficiência.

Nesta entrevista, Isa revisita sua trajetória profissional e os desafios de se reconhecer como pessoa com deficiência. Até os 25 anos, ainda não se identificava desta maneira, muito devido à falta de contato com o tema e o tabu em torno da palavra “deficiência”.

Isadora também comenta sobre os momentos de virada de sua carreira e os avanços, ainda insuficientes, na inclusão de PCDs no país, além de compartilhar conselhos para quem está no início da jornada profissional e se inspira em sua trajetória.

Meio & Mensagem — Pode falar um pouco sobre sua trajetória profissional?

Isa Meirelles — Sou formada em relações públicas pela Universidade de São Paulo. Antes passei por Economia, mas, apesar de sempre ter sido muito tímida, minha deficiência, por ser visível, fazia com que eu nunca passasse despercebida. Na faculdade, decidi transformar a comunicação, que eu queria melhorar em mim mesma, na minha profissão, e segui para RP. Meu primeiro trainee foi no Itaú, onde tive maior contato com outros profissionais com deficiência. Ali, aos 25 anos, me reconheci como pessoa com deficiência ao entender minhas necessidades de acessibilidade, como leitor de telas, recursos de áudio, maneiras mais adequadas de acompanhar conteúdos. Nesse contexto, descobri a área de acessibilidade na comunicação, tema que nunca havia visto na graduação. Ao buscar informações, encontrei um cenário quase vazio: pouca discussão e foco excessivamente visual (audiodescrição, libras etc.), sem aprofundamento no papel da comunicação como ferramenta de acesso. Isso me motivou a produzir conteúdo, dar palestras e lecionar sobre o assunto.

Depois do Itaú, entrei na RD Station em 2018, meu primeiro passo no mercado de tecnologia, que me fascina pelo potencial de melhorar vidas, especialmente para pessoas com deficiência. Lá, atuei quatro anos em comunicação corporativa, num departamento nascente, lidando com comunicação interna, externa e eventos como o RD Summit. Em 2021, vim para o Google, onde sigo até hoje. Entrei para comunicação externa, focada na imprensa, e ao longo dos últimos anos migrei para uma área de operação e estratégia, trabalhando junto à comunicação interna. Hoje lidero a comunicação interna para todos os escritórios do Google Brasil e também a frente operacional do time.

Meio & Mensagem — E como a agenda da acessibilidade atravessou sua carreira?

Isa — Ao longo dessa trajetória, mais de dez anos resumidos, tive momentos de afastamento da pauta da acessibilidade, porque sentia que era automaticamente associada apenas ao tema. Mas, já no Google, percebi o impacto de ocupar esse espaço: muitas pessoas com deficiência me acompanhavam e queriam entender se uma carreira em empresas como o Google era possível. Há cerca de dois anos, me reaproximei da pauta e passei a atuar mais diretamente, mentorando e treinando pessoas com deficiência em comunicação e posicionamento. Entendi o papel de referência que podemos ter quando somos, muitas vezes, a única pessoa daquele grupo em determinados ambientes. Hoje, além do meu trabalho no time de comunicação do Google, mantenho um lado B: sou atriz e criei o workshop “Arte de Se Narrar”, dedicado a ajudar pessoas de grupos minorizados, não apenas com deficiência, a contar suas histórias com mais clareza, segurança e presença.

M&M – Como foi seu processo de adaptação para se entender como uma pessoa com deficiência?

Isa — A identificação como pessoa com deficiência, para mim, foi um processo lento e muito influenciado pelo peso pejorativo que a palavra “deficiência” ainda carrega, inclusive dentro da minha própria família. A ideia de algo “faltando” faz muitos evitarem o termo. Quando comecei a me apresentar publicamente como pessoa com deficiência, minha mãe insistia que eu tinha glaucoma, e não uma deficiência. Com o tempo, ela e minha família entenderam, mas foi um aprendizado para todos.

Nas famílias em geral, percebo que assumir a deficiência ainda é um tabu. No meu caso, nunca sofri bullying ou maus-tratos, mas a curiosidade sempre foi constante por ser uma deficiência visível. E isso é muito diferente das deficiências invisíveis, que podem exigir ainda mais acessibilidade, algo que muitos não percebem. Gosto de lembrar que o universo das deficiências é extremamente diverso, com necessidades e identidades diferentes, o que dificulta até a construção de um senso coletivo de identidade.

Até os meus 25 anos, eu mesma só dizia que tinha glaucoma. Foi no Itaú que comecei a entender minhas limitações no trabalho, ler mais devagar, cansar mais rápido com telas, e percebi que precisava de recursos de acessibilidade. Vi outras pessoas passando pelo mesmo e isso me fez querer dar visibilidade ao tema. Hoje, enxergo a deficiência como uma fortaleza. Tornei-me autoconfiante porque, sem isso, não conseguiria enfrentar o preconceito e ocupar certos espaços. Ainda existe um estereótipo forte de que pessoas com deficiência são frágeis, histórias de inspiração, mas não protagonistas ou ocupantes de espaços de poder. E é justamente esse imaginário que me motiva a continuar falando, ocupando e abrindo caminhos.

M&M – Quais habilidades ou estratégias você desenvolveu para superar barreiras no ambiente de trabalho?

Isa — O primeiro passo foi transformar o incômodo, a curiosidade constante das pessoas e o fato de eu sempre chamar atenção, em diferencial. Passei a destacar minha singularidade, inclusive meus olhos de cores diferentes, algo que médicos tentavam padronizar com lentes. Escolhi não esconder essa diferença, e isso marcou meu processo de autoaceitação. Quando fiz esse movimento, a curiosidade diminuiu e as pessoas passaram a me enxergar de outro jeito. A partir daí, comunicação e presença se tornaram fundamentais. Hoje me posiciono com segurança em reuniões com executivos, sem constrangimento. E isso tem um pilar central: autoconfiança. Acreditar no próprio valor é essencial para ocupar um espaço, entender que ele também é seu e que você é tão competente quanto quem está ao lado.

Outro ponto-chave é relacionamento. Anos de mentoria me mostraram que, apesar da tecnologia, decisões são tomadas por pessoas, sobre vagas, promoções, oportunidades. Aprendi a ser uma grande construtora de redes, algo que vem da minha formação em RP, mas que também cultivo de maneira intencional no dia a dia, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Resumindo: autoconfiança, comunicação, presença pessoal e relacionamento de longo prazo são as habilidades que considero mais determinantes nessa trajetória.

M&M – Quais foram os momentos decisivos na sua carreira que ajudaram a moldar seu caminho?

Isa — Vejo dois momentos principais. O primeiro foi quando saí da RD Station sem outra proposta. Eu já fazia entrevistas, inclusive no Google, mas percebi que aquele ciclo tinha se encerrado. Eu não aprendia mais e a empresa já não cabia na Isadora que eu era. No meio da pandemia, decidi correr o risco e encerrar essa fase, o que abriu espaço para novas oportunidades. Na época, dizia para mim mesma, e até para minha chefe, que queria seguir carreira solo, trabalhar pelo meu propósito. Brinquei que só aceitaria algo em uma empresa como o Google alinhada à missão de organizar e tornar acessíveis as informações do mundo. Pouco depois, uma recrutadora do Google me procurou. Entrei no processo sem pretensão e acabei sendo contratada. Hoje vejo que é, de fato, uma empresa muito alinhada com o que acredito, com pessoas e grupos diversos dedicados à acessibilidade e à comunicação.

O segundo momento de virada foi já dentro do Google. Desde o início, deixei claro que minha atuação era em comunicação estratégica, e não apenas em diversidade e acessibilidade. Minha liderança compreendeu e apoiou esse caminho, até eu chegar à posição atual em estratégia e operações. Sempre defendi a importância da pauta da diversidade, especialmente das pessoas com deficiência, mas também a necessidade de não ser reduzida a isso. Por isso, em alguns momentos, me afastei desses grupos, para reforçar que minha presença ali ia além desse tema.

M&M – Quais avanços já conquistamos em relação à inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho no Brasil? E quais desafios ainda persistem?

Isa — Acho que avançamos muito graças aos influenciadores e criadores de conteúdo, especialmente durante a pandemia, quando as redes ampliaram essas vozes e criaram novas referências. Na acessibilidade comunicacional, por exemplo, em 2018, pedir libras para uma live era visto como absurdo; hoje, não é simples em todos os lugares, mas já é amplamente aceito. A tecnologia também evoluiu: legendas automáticas, antes uma grande luta, agora são padrão. No audiovisual, a acessibilidade já entra no planejamento e no orçamento. A sociedade como um todo, não apenas pessoas com deficiência, passou a compreender melhor a importância do tema. Mas, quando falamos de carreira, o avanço é mínimo. Pessoas com deficiência continuam concentradas em posições iniciais, com muita dificuldade de crescer profissionalmente.

Há dois lados nessa questão. Da perspectiva das pessoas com deficiência, muitas ainda precisam entender que a carreira é delas: ninguém vai convidar para a “festa”. É preciso se colocar, buscar oportunidades, insistir. Mas isso é complexo, porque muitos estão na primeira experiência profissional, lidam com questões de autoestima, autoimagem e acessibilidade, então não dá para exigir apenas iniciativa individual. Do lado das empresas, ainda falta abertura para posições mais sêniores e recursos para apoiar o desenvolvimento desses profissionais. Persistem estereótipos e preconceitos que outros grupos minorizados, como pessoas negras e mulheres, já enfrentam em estágios mais avançados. Para pessoas com deficiência, ainda há um longo caminho de evolução.

M&M – Qual conselho você daria para pessoas com deficiência visual que estão começando a construir sua carreira?

Isa — Acho que o primeiro ponto é: não espere ser chamado para uma oportunidade. Digo isso para todo mundo, até para o meu pai. Se não respondem um e-mail, mande de novo, vá atrás. Você precisa se convidar para os lugares, porque ninguém fará isso por você. Cada um está na sua própria luta, e embora as comunidades se apoiem, é preciso bater na porta para entrar na “festa”. Esse é meu principal conselho. Além disso, comunicação faz muita diferença: saber contar sua história e se colocar. Em reuniões ou eventos, aproveite qualquer chance, mesmo um minuto de microfone, para marcar presença. Não entre muda e saia muda, pense em como mostrar quem você é e fortalecer sua presença profissional. Resumindo: não espere o convite, vá atrás; ocupe os espaços mostrando sua presença; e aprenda a narrar sua própria história para que o mundo saiba que você está ali e não vai embora.