O caminho de Kuntuala Oliveira até a Oracle
Diretora de vendas para varejo reflete sobre como suas origens moldaram sua trajetória e discute os impactos da IA no mercado de trabalho

Kuntuala Oliveira, diretora de vendas da Oracle para varejo reflete sobre como suas origens moldaram sua trajetória e discute os impactos da IA no mercado de trabalhoOracle Brasil (Crédito: Divulgação)
Kuntuala Oliveira, hoje, é diretora de vendas da Oracle Brasil, mas até chegar ao cargo, ela mesma não acreditava que poderia trabalhar com tecnologia ou, ainda, que seria capaz de ocupar uma cadeira de liderança. Porém, a relação com o comercial surgiu logo em sua primeira profissão, no ofício de ajudar seus pais a vender as roupas artesanais que produziam, com motivos africanos e frases de pensadores afro-americanos. “Minha mãe costurava, meu pai pintava, e eu participava de todo o processo, desde o começo da fabricação com eles até a venda”, conta.
No início, quando era adolescente, sentia vergonha de trabalhar na barraca. “Mas, hoje, olhando para trás, foi exatamente essa experiência que moldou a minha carreira desde o início”, reflete. A princípio, fez faculdade de Letras pensando em ser professora. Porém, ainda no estágio, percebeu que não conseguia ficar nem meia hora dentro de uma sala de aula.
Então, migrou para a área de RH e consultoria. As pessoas ao seu redor, no entanto, insistiam que ela deveria vender, ao que ela respondia: “de jeito nenhum”. Relutou muito até aceitar a primeira experiência na venda de serviços de consultoria em RH e, depois, de software para a área. Foi quando iniciou seu contato com a tecnologia até entrar na Oracle, em 2013.
“No fim das contas, aquela experiência lá atrás, trabalhando com o meu pai e com a minha mãe desde criança, foi o que me fez ser feliz e ter sucesso. Foi isso que me levou para a área comercial, que é o que faço hoje e pelo que sou completamente apaixonada”, afirma.
Nesta entrevista, Kuntuala destaca as próximas tendências de IA para o ano que se segue, além de apontar os principais desafios que o Brasil enfrenta na área e como essa tecnologia pode fortalecer a agenda ESG nas organizações. Ela também reflete sobre os desafios que enfrentou em sua trajetória profissional e sobre seu papel como líder comercial num mercado tão competitivo.
Meio & Mensagem – Quais são as principais tendências em infraestrutura de nuvem para 2026, especialmente em relação à IA?
Kuntuala Oliveira – Quando falamos de IA, o maior ganho é a hiperpersonalização. Estamos dando autonomia para o usuário final buscar algo cada vez mais específico, mais alinhado com a sua necessidade. Então, o que vai se destacar são as empresas e os produtos que conseguirem chegar no indivíduo com alguma coisa muito específica. De fato, a hiperpersonalização, para mim, é o que vai fazer essa diferença daqui para frente.
M&M – Como a IA pode fortalecer as práticas de ESG nas empresas?
Kuntuala – Existe uma insegurança e preocupação muito grande no mercado profissional sobre o que acontecerá com as profissões com o avanço da IA. Mas eu vejo essa tecnologia muito mais como um agente que irá nos ajudar a sermos mais produtivos. Quando trazemos isso para o ESG, falamos da questão da qualidade do trabalho. Ao pensarmos, por exemplo, em times de atendimento, naquelas centrais enormes onde as pessoas tinham 15 minutos cronometrados para ir ao banheiro: quando aplicamos a IA a dinâmicas assim, a ideia é justamente reduzir esse tipo de estrutura e de tecnologia ultrapassada, que gera mais deslocamento nas cidades e um fluxo de trabalho muito desgastante. A tecnologia dá autonomia para tarefas altamente automatizadas, que a gente consegue endereçar com muita facilidade. Isso libera as pessoas para atividades mais qualificadas.
Quando falamos de recrutamento e seleção, por exemplo, dentro dos desafios corporativos de diversidade e inclusão, a IA pode ajudar a reduzir vieses. Ao instituir processos de recrutamento e seleção apoiados por tecnologia, é possível analisar melhor promoções, dados de profissionais, tanto de quem está entrando quanto de quem já está dentro da empresa, reduzindo vieses inconscientes. Isso tende a ajudar, sim, a aumentar a diversidade dentro das companhias.
Tem também questões relacionadas à saúde e segurança do trabalho. Em algumas indústrias, existe uma enorme quantidade de dados sobre acidentes de trabalho e padrões de risco que muitas vezes não são analisados. Com IA, você consegue colocar históricos de acidentes dentro de um modelo e extrair insights, identificar padrões e tomar decisões mais eficazes para proteger o profissional. Existe também um case muito interessante quando falamos de meio ambiente, que é a gestão de resíduos. Já existem tecnologias de IA que usam visão computacional em grandes áreas de descarte para fazer uma separação inteligente do lixo e permitir que esses resíduos sejam reutilizados de forma mais produtiva. Então, acho que esses são alguns exemplos de como a IA pode, de fato, gerar um impacto social enorme. Estamos falando de uma mudança profunda na nossa relação com a tecnologia, com o ambiente e com a sociedade, e isso vai ser chave para transformar o nosso mundo.
M&M – Com o crescimento da IA generativa, como a Oracle está integrando isso ao OCI (Oracle Cloud Infrastructure)?
Kuntuala – A Oracle já usa inteligência artificial há muitos anos. Quando a gente olha para a camada de infraestrutura, que inclusive é um dos meus principais focos hoje, temos todo o nosso stack (“pilha”, em tradução livre) automatizado e impulsionado por IA. Uma das primeiras coisas que a gente precisa para implementar IA são os dados, que são o coração da Oracle. Para começar a trabalhar com essa tecnologia, é fundamental ter dados organizados e facilmente disponíveis, para que a IA consiga, de fato, trazer as respostas que a área de negócio ou o indivíduo precisa. E, falando especificamente da Oracle, essa é a nossa grande fortaleza: ter dados estruturados, de fácil acesso, disponíveis de forma vetorizada, para que qualquer LLM [um grande modelo de linguagem] consiga acessar essas informações e transformar isso em algo muito maior.
M&M – Em mercados competitivos como o de infraestrutura de nuvens, qual o seu papel enquanto diretora de vendas para se diferenciar da concorrência?
Kuntuala – Hoje, o meu principal papel é ser uma evangelizadora. O que faço é tentar trazer uma visão clara de como a Oracle se posiciona dentro do mercado, apresentar os nossos cases e falar com a maior simplicidade possível para um público extremamente diverso. Isso é desafiador, porque quando olhamos para o mercado, existem muitas indústrias diferentes. Então, a gente precisa ter uma linguagem acessível e se comunicar de forma muito clara para conseguir atingir o maior número de pessoas possível. Minha função é levar o momento atual da Oracle para todos os nossos clientes, entender as necessidades deles e fazer esse match entre o que eles precisam e o que a gente tem para oferecer, que não são somente soluções da Oracle, mas também de parceiros dentro do nosso ecossistema.
M&M – Quais os maiores obstáculos para adoção de tecnologias de nuvem e IA no Brasil?
Kuntuala – O maior desafio é o profissional qualificado. Ainda há um déficit muito grande de pessoas especializadas em tecnologia. Eu mesma tinha uma insegurança enorme com a área. Quando eu era mais nova, tinha uma crença muito forte de que jamais trabalharia com isso. E uma das minhas missões hoje, principalmente com os jovens, é quebrar um pouco essas crenças de que tecnologia é algo muito complexo de entender, ou de que entrar na área é muito complicado. Porque o que a gente mais precisa hoje são de pessoas capacitadas. E tem um ponto superimportante: a melhor tecnologia do mundo não funciona se não tiver um bom profissional, ou pelo menos alguém disposto a aprendê-la. Temos, inclusive, o Oracle Next Education, uma plataforma online gratuita que oferece um programa educacional de formação para pessoas que historicamente não teriam acesso à tecnologia ou a esse tipo de investimento. No começo, ela foi pensada para adolescentes ou estudantes no início da faculdade, mas hoje temos uma grande quantidade de pessoas 50+ que querem mudar de carreira e investir em tecnologia. Formamos profissionais de várias frentes: em IA, infraestrutura e jornada de dados, por exemplo. Hoje, já são mais de 107 mil pessoas formadas.
Hoje, socialmente falando, não tem mais alternativa. Se a gente não formar mais pessoas, não avançamos como sociedade. Acho que todas as empresas de tecnologia já entenderam isso. A Oracle, com certeza. Por isso existe esse investimento em formação, porque nenhuma tecnologia, por melhor que ela seja, vai funcionar se não houver pessoas para aplicá-la.
M&M – Como você descreveria seu estilo de liderança?
Kuntuala – Costumo dizer, principalmente quando começo um time novo, que estou nessa posição para ser uma facilitadora entre a estratégia de negócio e a execução, para que as pessoas consigam executar com sucesso. Minha postura de gestão é extremamente colaborativa. Acredito que a gente só consegue chegar do outro lado construindo algo em conjunto. Isso não exclui o fato de que, em vários momentos, vou precisar ser a pessoa que toma a decisão, que assume riscos, que faz escolhas difíceis. Mas, no geral, gosto de dizer que a minha gestão é muito focada em facilitar a execução e em dedicar bastante tempo ao desenvolvimento das pessoas, do negócio e das tarefas.
M&M – Qual foi o maior desafio da sua carreira e como você lidou com ele?
Kuntuala – Foram as minhas crenças. Quando recebi o primeiro convite para ser gestora, não aceitei. Demorei três anos para topar participar de um processo interno para uma cadeira de gestão porque simplesmente não conseguia entender por que achavam que eu estava pronta. Eu pensava: “imagina, não sou essa pessoa”. E, quando assumi a cadeira, durante muito tempo foi difícil para mim. Eu fazia o trabalho, mas não achava que estava fazendo bem. Foi muita terapia, muito sofrimento até eu conseguir entender o que estava acontecendo comigo. Hoje, olhando para trás, esse é o maior ganho da minha vida como pessoa. Conseguir olhar e dizer: sou a melhor pessoa para essa cadeira. Então, no meu caso profissional, meu maior desafio foi o autoconhecimento. Foi me enxergar como alguém realmente capaz. E a minha sorte foi ter tido ótimos mentores, pessoas maravilhosas, que fizeram de tudo para me ajudar a atravessar esse processo da melhor maneira possível.