Inspiração

Kananda Eller mostra que divulgar ciência é um ato político

Influenciadora joga luz sobre participação negra na ciência e fomenta debates sobre meio ambiente

i 26 de janeiro de 2026 - 8h00

Kananda Eller, influenciadora digital @deusacientista (Crédito: Divulgação)

Kananda Eller, influenciadora digital @deusacientista (Crédito: Divulgação)

Kananda Eller é baiana, de Salvador, e cursou química na Universidade Federal da Bahia. Durante seis anos, foi professora da disciplina num curso pré-vestibular social que ajudou a fundar em seu bairro. Atualmente, é criadora de conteúdo digital no perfil @deusacientista no Instagram, onde possui mais de 400 mil seguidores, e no TikTok, com mais de 150 mil seguidores. Porém, antes de se tornar influenciadora e divulgadora científica, ela trabalhou num laboratório de toxicologia, na área de química forense.

Com a chegada da pandemia, ela começou a refletir o que faria naquele momento e percebeu que existia uma grande demanda de pessoas que queriam entender o que estava acontecendo naquele contexto. Assim, ela começou a falar sobre ciência na internet, primeiramente focando na participação de mulheres negras na área.

Logo em seguida, entrou no mestrado em Ensino de Ciências Ambientais na USP e passou a produzir conteúdo online sobre o tema, com foco na crise climática e ainda trazendo o recorte de raça. Desde então, tem desenvolvido trabalhos com diferentes empresas, foi embaixadora da L’Oréal por dois anos, foi indicada ao TikTok Awards em 2021, entrou na lista da Forbes Under 30 e ano passado foi eleita Mulher do Ano pela Glamour, ao lado de Mari Kruger, outra influenciadora.

Nesta entrevista ao Women To Watch, Kananda Eller reflete sobre as barreiras de gênero e raça que existem no campo da ciência. Além disso, discute sobre a responsabilidade dos criadores de conteúdo digital com a verdade e seus impactos sobre a difusão de desinformação.

Meio & Mensagem – Como seu conteúdo se modificou ao longo do tempo?

Kananda Eller – Tenho mantido como base falar sobre cientistas negros e sobre a química no dia a dia, mostrando como esse conhecimento pode ajudar as pessoas. O que mais mudou ao longo do tempo foi a plataforma: comecei com vídeos de 15 segundos, que depois passaram para 30, 1 minuto e até 3 minutos.

Comecei a produzir conteúdo em 2020, no boom do TikTok durante a pandemia. Embora já pensasse em criar conteúdo antes, foi entendendo a linguagem do momento que percebi que o TikTok, e depois o Reels, era o melhor caminho. Assim, o formato do meu conteúdo foi se adaptando às plataformas, mas a essência do Deus é o Cientista sempre permaneceu.

Essa essência é falar de ciência de forma acessível, conectada ao cotidiano, especialmente para pessoas como eu: do subúrbio, negras, mulheres, que muitas vezes não se veem representadas nos livros. Por isso, sempre trago referências de intelectuais negros, ciência produzida por pessoas negras e também falo sobre a África.

Com o mestrado, a temática ambiental ganhou mais espaço na minha comunicação e, mais recentemente, como colunista da UOL na editoria de saúde, passei a abordar a saúde da população negra. O foco em acessibilizar o conhecimento científico e discutir desigualdades se mantém; o que muda são os temas atuais, as ferramentas e os aprendizados que vou adquirindo ao longo da vida.

M&M – Por que você escolheu o nome Deusa Cientista?

Kananda – Escolhi o nome Deusa Cientista porque não acredito nessa ideia comum de que cientistas não acreditam em Deus. Esse pensamento vem de um contexto histórico específico. Quando comecei a produzir conteúdo, passei a pesquisar mais referências africanas e a entender o Egito como base do conhecimento africano, assim como a Grécia é vista para a Europa. No Egito antigo, não havia separação entre espiritualidade e ciência, diferente do que aconteceu na Europa por conta dos conflitos com a Igreja Católica, que ajudaram a criar esse senso comum.

Eu sou uma mulher com espiritualidade muito forte, criada com essas bases, com uma relação profunda com os orixás, minha ancestralidade e a história do povo africano. Para mim, não faz sentido comunicar ciência e ajudar pessoas se essa ciência estiver dissociada da espiritualidade e do propósito que acredito.

A espiritualidade é fundamental para meu autoconhecimento, minha transformação e meu fortalecimento como mulher. Ela me ajuda a me cuidar, me amar e me empoderar, e isso é algo que quero transmitir às pessoas. É dessa união entre espiritualidade e ciência, rompendo essa falsa dicotomia, que nasce a Deusa Cientista.

M&M – Como sua trajetória acadêmica moldou sua visão sobre a ciência?

Kananda – Saí da faculdade em 2019 e, em 2020, durante a pandemia, comecei a produzir conteúdo. Ainda estava vinculada à universidade, mas depois tranquei o curso, pois já havia concluído a licenciatura e seguir para o bacharelado deixou de fazer sentido com o início da minha carreira como criadora de conteúdo.

A universidade foi fundamental para abrir minha mente, transformar minha vida e aprofundar meus conhecimentos em química e ciências da natureza. Ela me fez sonhar possibilidades que eu nem imaginava. No entanto, não me ofereceu debates raciais, referências de intelectuais negros, nem conhecimentos produzidos na África, na cultura afro-brasileira ou pelos povos indígenas.

Esses aprendizados vieram de forma autodidata e em grupos de estudo, junto a amigos com as mesmas inquietações. Busco pesquisas e produções de intelectuais que estudam as comunidades negra e indígena para embasar o que comunico. Assim, reconheço a importância da universidade na minha formação, mas também seus limites, já que ainda reproduz uma visão colonizadora do conhecimento, centrada na Europa e nos países do Norte.

M&M – De que forma seu conteúdo busca descolonizar e trazer o protagonismo negro para a ciência?

Kananda – No meu conteúdo, busco mostrar quem são pesquisadoras e pesquisadores negros e indígenas, o que fizeram e quais perguntas trouxeram para a ciência, muitas delas voltadas às próprias comunidades. Historicamente, essas populações foram excluídas das universidades no Brasil, o que gerou um enorme vazio de dados e pesquisas, fruto da colonização.

Quando pessoas negras e indígenas passam a produzir ciência, surgem novas perguntas e respostas, tornando a ciência mais realista e próxima da realidade. Mostrar essas trajetórias ajuda outras pessoas a se reconhecerem, encontrarem referências, seguirem nos cursos e entenderem seu lugar nesses espaços.

Esse processo enfrenta o que uma intelectual chama de epistemicídio: a tentativa de apagar saberes negros e indígenas. Meu trabalho é justamente o contrário, manter vivos esses conhecimentos e fortalecer a permanência dessas comunidades nos espaços de produção científica.

M&M – Você já enfrentou alguma barreira de gênero ou raça em sua trajetória acadêmica ou na divulgação científica?

Kananda – Isso é algo muito comum para mulheres negras: a solidão. Mesmo estando na universidade e em grupos de pesquisa, muitas vezes o percurso ainda é solitário. No mestrado, tive apoio, trocas e aprendizado coletivo, mas ainda assim vivi essa sensação.

Além da falta de representatividade e de redes de apoio, existem desigualdades básicas, como o acesso ao inglês. Embora eu tenha tido algum contato, nunca tive incentivo ou perspectiva de que isso seria essencial. Hoje, isso pesa, especialmente em provas de proficiência. Diferente de amigas que estudaram em escolas de idiomas, viajaram e já se viam nesses espaços, essa não era uma realidade para mim.

Sou a primeira da minha família a concluir um mestrado e a trabalhar fora do país. Tudo isso é muito novo, e eu não me preparei porque não sabia que poderia chegar até aqui. Faço terapia hoje e estou melhor, mas vivi por muito tempo essa sensação de precisar provar, o tempo todo, que eu era boa o suficiente, e mais do que os outros. Isso marca a trajetória de muitas mulheres negras.

M&M – Como as redes sociais democratizam a ciência e combatem a desinformação?

Kananda – As redes sociais promoveram uma descentralização importante da comunicação científica. Antes, a ciência aparecia nos grandes meios de forma limitada e generalista; hoje, é possível falar de diferentes áreas, da biologia à sociologia, ampliando a compreensão do que é ciência e como ela impacta o cotidiano.

Por outro lado, essas plataformas também potencializaram a desinformação. Notícias falsas se espalham com mais alcance do que conteúdos verdadeiros, e a moderação é pouco eficaz. O trabalho dos divulgadores científicos é fundamental para combater fake news e explicar temas essenciais, mas não é suficiente.

Com novas ferramentas, identificar desinformação ficou ainda mais difícil. Conteúdos de divulgadores podem ser manipulados para vender produtos falsos, como já aconteceu com vídeos usados indevidamente para espalhar fake news. Existe uma estrutura maior por trás disso, inclusive com impulsionamento pago. Estar na internet é necessário e positivo, mas, sozinho, não resolve o problema da desinformação.

M&M – Qual a responsabilidade dos produtores de conteúdo online com a verdade e a ciência?

Kananda – É fundamental que influenciadores saibam usar as plataformas digitais com responsabilidade, especialmente diante da desinformação. Muitas vezes, eles divulgam produtos sem eficácia, levando pessoas a gastarem dinheiro e até colocarem a saúde em risco. Há também quem use o próprio alcance de forma negativa, seja promovendo produtos ruins, seja espalhando desinformação de forma intencional.

Por isso, o papel do influenciador passa pela consciência da importância da formação e da responsabilidade com a informação. Nem sempre é fácil identificar o que é verdadeiro ou falso, mas isso não justifica compartilhar conteúdos sem checagem. Ter cuidado com o que se comunica é essencial e deve ser parte central da postura de quem cria conteúdo.

M&M – Quais as contribuições e os impactos que os pesquisadores negros trazem para a ciência?

Kananda – Quando pesquisadores negros acessam a ciência, surgem dados e perguntas que antes não existiam, porque nunca foram prioridade. Um exemplo simples é o uso de inteligência artificial para identificar câncer de pele. Essa tecnologia funciona a partir de bancos de imagens, mas muitos deles são compostos majoritariamente por peles brancas. Como resultado, a IA falha ao identificar câncer em peles negras e indígenas.

Isso revela uma lógica científica centrada apenas em corpos brancos, fruto do racismo estrutural. São questões básicas que não foram consideradas porque certos corpos simplesmente não entram na pesquisa. Quando pesquisadores negros e indígenas estão presentes, eles evidenciam que esses corpos e saberes existem e precisam ser considerados.

O mesmo vale para a pauta ambiental: povos indígenas detêm conhecimentos práticos de preservação ignorados pela ciência ocidental. A diversidade na ciência gera diversidade de perguntas, respostas e soluções. Ter pessoas negras, indígenas e mulheres pesquisando torna a ciência mais eficaz, mais justa e mais próxima da realidade.