Quais os cenários para um País em polarização política?
Participante da primeira edição de 2026 do Blue Connections, cientista político Lucas de Aragão explicou como as questões ideológicas podem guiar os votos dos brasileiros no ano

Lucas de Aragão, mestre em ciência política, traçou alguns panoramas da disputa eleitoral brasileira no Blue Connections (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)
Um País que já enfrenta, há anos, um contexto de polarização, tende a ver essa disputa entre dois lados ainda mais acirrada nas Eleições de 2026, nas quais os brasileiros escolherão o próximo presidente da República e governadores estaduais, além de senadores e deputados.
Dessa forma, ainda que seja prematuro fazer qualquer previsão acerca das disputas eleitorais, sobretudo da presidencial, já é possível vislumbrar que, em meio a essa forte polarização, os eleitores tenderão a decidir o voto mais para evitar que o outro lado ‘ganhe’ do que, de fato, para colocar seu favorito em uma posição de poder.
Essa foi uma das análises feitas por Lucas de Aragão, cientista político e sócio da Arko Advice, que se apresentou na primeira edição de 2026 do Blue Connections. Criado para o Círculo Liderança de Meio & Mensagem, o projeto, que já está em sua terceira temporada, reúne, a cada bimestre, executivos de marcas, agências, veículos e plataformas para debates e palestras a respeito de variados assuntos que, de alguma forma, serão determinantes para as decisões de negócios.
Nesta terça-feira, 10, Lucas de Aragão procurou dividir com a plateia algumas possibilidades de cenários para o período eleitoral. Na visão do especialista, a polarização representada pela situação (o presidente Luiz Inácio Lula da Silva) e a oposição (um candidato que tente agregar a força do Bolsonarismo – provavelmente o senador Flavio Bolsonaro) deve dar a tônica da disputa neste ano.
“Pelo que a maioria das pesquisas já indica, a eleição presidencial terá segundo turno e sempre digo que, neste momento, é mais importante que as pessoas olhem mais para a rejeição do que para as intenções de voto. No segundo turno, as decisões são tomadas muito mais por medo do que por amor. As pessoas votam em quem elas não querem que ganhe, mais do que naquele candidato que, necessariamente, elas desejam que ganhe”, explicou Aragão.
O cientista político sustentou esse argumento ao observar que, nas últimas eleições presidenciais de países democráticos, em cerca de 80% dos casos, o presidente eleito passa a ter, já no primeiro mês de governo, uma porcentagem de aprovação menor do que a porcentagem dos votos que recebeu.
Nesse contexto, a partir dessas análises e das pesquisas prévias de intenções, Aragão pontuou que vê um “favoritismo instável” para o atual presidente, Luiz Inácio da Silva. Ele explicou que, entre os partidos que podem ser considerados mais à esquerda do espectro político, existe um consenso em apoiar a reeleição do atual presidente. Enquanto já na oposição, não houve a mesma sinergia na definição do candidato que tentaria levar a bandeira de Jair Bolsonaro adiante.
Porém, Aragão pontuou que esse favoritismo é instável justamente pelo fato de o resultado das eleições de 2022, que colocaram frente a frente as mesmas forças políticas, ter sido apertado. “A eleição do Lula não aconteceu pelo fato de ter surgido um novo vento favorável à esquerda. Prova disso é a grande quantidade de candidatos de direita e de centro direita que foram eleitos como governadores, deputados e senadores”, destacou o especialista.
Porém, ao mesmo tempo, ele sinalizou que o favoritismo do atual presidente se dá pelo fato das política públicas, sobretudo de algumas medidas tomadas no atual mandato, como a isenção do imposto de renda para quem recebe menos de R$ 5 mil por mês e as conversas em torno da aprovação da redução da jornada de trabalho 6X1.
A importância do Congresso
Lucas de Aragão destacou, contudo, que o ponto para qual toda a sociedade deveria se voltar mais nas Eleições de 2026 é para o Congresso, uma vez que todas as decisões políticas, que impactarão diretamente a todos, passam pela Câmara e pelo Senado.
As emendas impositivas, que acabam destinando recursos para os redutos eleitorais dos parlamentares, geram, na visão de Aragão, um argumento muito forte para a reeleição. “Acredito que o novo Congresso seja ainda mais de centro-direita. Acho que a Câmara se manterá igual, mas o Senado deve dar um passo mais à direita, já que essa ala foi mais eficiente em criar lideranças para esses embates ideológicos, ao contrário da esquerda, que ficou muito tempo focada na imagem do Lula”, analisou.
Por fim, o cientista político ainda falou sobre as forças de “marcas” do lulismo e do bolsonarismo e como elas podem guiar as decisões dos eleitores. O presidente Lula, na visão de Aragão, conseguiu algumas marcas em seus governos anteriores, como o combate a fome e os programas sociais, que fazem com que o Partido dos Trabalhadores (PT) tenha uma identificação.
“Talvez, o PT seja o único partido, mesmo, do Brasil. Os demais são meio franquias, alguns são mais parecidos, outros diferentes. Goste-se ou não, o PT tem uma união. O Bolsonarismo aparece como a segunda maior força desse desenho político, mas ele não se organizou em um partido, e sim em um movimento, que tem conseguido crescer bastante nos últimos anos”.
Porém, o especialista colocou que, na cena atual política do Brasil, o discurso de um contra outro ainda é o que prevalece. “Ambos os lados vivem em uma guerra de narrativa sustentada na visão de que o outro é pior do que ele e, muitas vezes, fica muito difícil romper esse cinturão ideológico estruturado no medo que ambos os lados têm do outro”, completou
