Jogo de equipe: NRF começa com analogia esportiva
Abertura do maior evento de varejo do mundo destaca importância da valorização das pessoas e não somente da tecnologia em apresentação da rede de lojas Dick’s Sporting

Bob Eddy é o executivo chefe da rede de artigos esportivos Dick’s Sporting, que vem investindo em experiências (Crédito: Bárbara Sacchitiello)
No futebol americano, uma das posições mais estratégicas da equipe é a do left tackle, jogador cuja função é proteger o chamado “ponto cego” do quaterback, impedindo, assim, que ele seja interceptado por algum defensor adversário e que possa ter mais facilidade para conduzir o passe. Sem o left tackle, as jogadas ofensivas seriam bem mais difíceis, o que torna a posição uma das mais importantes e valorizadas do esporte. Apesar disso, o left tackle não costuma ser o astro das equipes, cujos destaques acabam ficando com outras posições.
Esse conceito familiar para os fãs do futebol americano foi a analogia utilizada na abertura da edição de 2026 da Retail’s Big Show, o principal encontro global de varejo, que começou neste domino, 11, em Nova York. A analogia à posição de um jogador de futebol americano foi utilizada como forma de representar o quão importante é, dentro de uma empresa ou da cadeia do varejo, no geral, que todos cumpram sua função de maneira estratégica e integral.
A Dick’s Sporting Goods, uma grade rede de lojas de artigos esportivos dos Estados Unidos, por exemplo, concede, a cada ano, o prêmio “Left Tackle” a um funcionário. A ideia é contemplar aquela pessoa que, geralmente, não fica sob os holofotes e nem colhe frequentemente os louros pela propagação das ideias e feitos da marca, mas que, por outro lado, consegue fazer com que toda a engrenagem funcione de maneira tão azeitada que, sem ela, seria impossível manter a companhia e os negócios funcionando.
Essa história foi compartilhada pelo próprio executivo-chefe da Dick’s Sporting, Bob Eddy, que abriu a programação da conferência para contar sobre a trajetória da empresa, que existe há décadas mas que, nos últimos anos, vem se dedicando a mudar o conceito de experiência no varejo esportivo nos Estados Unidos por meio da premissa House of Sports.
A história da Dick’s começou Binghamton, Nova York, em 1948, quando o pai de Bob abriu uma pequena loja de itens de pesca. Ainda jovem, o então garoto que, mais tarde, conduziria a rede, ainda não estava atraído pelo universo do varejo das vendas, mas, pressionado pelo pai, como ele confessou, foi estudar administração para décadas, já em 1984, comprar a parte do pai e começar a construir um dos cases do varejo moderno, que conta com mais de 790 lojas em todo o país.
House of Sport

Dick’s Sporting investiu na reformulação das lojas para oferecer aos consumidores espaços de prática esportiva e experiências (Crédito: Shutterstock)
Nos últimos dez anos, a rede varejista começou a planejar como se estruturaria para o futuro com base na crença que Eddy tinha para o segmento, de que ele se alicerçaria em três pilares: comunidade, serviço e produto.
As primeiras tentativas de planejar como seria essa rede de lojas adaptada ao futuro do consumo não deram certo. “Começamos do zero, em uma olha em branco. Meu guia para a equipe nesse projeto foi: precisamos criar algo que, se fosse adotado por um concorrente, acabaria com nosso negócio. Projetamos tudo, testamos, mas depois jogamos fora e recomeçamos. Nem tudo o que colocamos no papel funciona na realidade”, confessou.
Há cerca de oito anos, contudo, tomou forma o conceito de House of Sports, que a empresa adota até hoje, que combina a oferta de produtos para as mais variadas práticas esportivas, oferecidos em espaços em que as pessoas podem testá-los e ter experiências como se estivessem em campos ou quadras. Algumas delas chegam a ter 14 mil metros quadrados e possuem, por exemplo, pista de hóquei.
“A equipe fez um trabalho fantástico. Temos 35 lojas sob esse conceito operando hoje, abriremos mais 15 neste ano e, até 2028, teremos 75”, contou o executivo chefe.
Os elogios à equipe e a ressalva sobre a importância de contar com uma equipe de funcionários que esteja motivada a trabalhar em conjunto foram constantes na apresentação de Eddy. Ele conta que procura pensar o organograma da rede como uma estrutura em que, no topo, estão os clientes e que ele, bem como os demais membros do c-level, estão na base. “Quanto mais diante a base está dos clientes, menos eles devem falar e mais ouvir e aprender com quem está acima”, contou, destacando o valor da escuta de quem lida diretamente com os consumidores, no dia a dia.
Além da operação de varejo, a Dick’s Sporting também abriu uma fundação, dedicada a incluir crianças em situação de vulnerabilidade por meio da prática esportiva. A Sports Matter Foundation foi criada em 2013, a partir de um desejo antigo que Eddy conta ter surgido após uma experiencia real. Aos 15 anos, quando ainda ajudava na loja de artigos esportivos de seu pai, contou que um garoto entrou no estabelecimento e furtou uma luva de beisebol. Seu pai repreendeu o jovem antes de ele sair da loja e questionou o garoto sobre a razão da atitude. O menino começou a chorar e disse que apenas queria jogar beisebol. “Meu pai o abraçou e disse: ‘escolha uma luva, um taco e uma bola. Vá e nunca mais faço isso novamente’. O esporte mantém as crianças ativas, salva vidas e forma cidadãos”, disse.
Mais “sim, se…” e menos “não, porque…”
O líder da rede de varejo esportivo também falou sobre os planos de expansão da companhia, que adquiriu a empresa Foot Locker, no ano passado, a fim de incrementar os negócios esportivos globais. Segundo ele, a aquisição permitirá à companhia atuar em mercados estratégicos, como Ásia e Europa.
O executivo também contou a respeito de como a inteligência artificial já vem sendo utilizada pela Dick’s Sporting: mais como uma ferramenta de produtividade e menos como uma ideia de substituição de pessoas e de força de trabalho.
A respeito de inovação, inclusive, Eddy contou que instituiu uma regra na companhia com a ideia de estimular sugestões e atitudes que possam levar sempre a marca a dar um passo adiante. “Participei de muitas reuniões e, em muitas vezes, ao dar qualquer ideia, três pessoas levantavam a mão para dizer que aquilo não daria certo, por alguma razão. Depois, mudamos as regras e proibimos que alguém diga “não, porque…” para derrubar uma ideia. No lugar disso, é preciso dizer “sim, se…” e dar uma sugestão para que aquilo possa ser repensando para ser colocado em prática. Isso muda a mentalidade, porque você foca em viabilizar algo em vez de desistir de fazer”, contou.