opinião - fernanda paiva

Saúde social: o pacto de cuidado no trabalho do creator

Condições atuais da creator economy evidenciam necessidade da mobilização do setor pelo bem-estar da comunidade

Fernanda Paiva

Cofundadora da Flint 13 de agosto de 2026 - 8h50

Em 2025, a Previdência Social brasileira concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Ansiedade e depressão lideram os afastamentos. Esses dados não descrevem uma fragilidade individual, mas sim uma cultura, uma forma coletiva de organizar o trabalho que está produzindo adoecimento em escala.

Uma recente atualização da NR-1, a norma base de segurança e saúde no trabalho no Brasil, incluiu assédio, sobrecarga, metas abusivas e insegurança psicológica no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Mas compliance é piso, não teto. A pergunta que o mercado precisa fazer agora é mais exigente: que tipo de cultura, ecossistema e comunidade precisamos construir para que as pessoas não precisem adoecer para produzir?

O trabalho de Kasley Killam, pesquisadora que propõe a saúde social como um terceiro pilar do bem-estar humano, ao lado da saúde física e mental, traz uma tese direta: a qualidade das nossas relações determina a qualidade da nossa saúde. Pertencimento, vínculos reais, reconhecimento, confiança, reciprocidade, espaços de escuta e de celebração não são condimentos da vida profissional. São infraestrutura.

Isso muda o quadro analítico. Quando olhamos para a epidemia de esgotamento apenas pela lente da saúde mental individual — ansiedade, depressão, burnout como experiências solitárias — corremos o risco de tratar o sintoma sem tocar na causa. A saúde social nos força a olhar para o entorno: os ambientes que produzimos, os vínculos que cultivamos, os rituais de reconhecimento que praticamos ou deixamos de praticar.

E aqui algo se conecta com força: tudo aquilo que hoje chamamos de comunidade, quando feito com intenção, é infraestrutura de saúde social na prática. Comunidade não é grupo de WhatsApp ou base de seguidores, mas um lugar onde alguém te conhece, te desafia, te escuta, te celebra e cresce junto contigo. É por isso que a palavra “comunidade” virou uma das mais usadas nos últimos dois anos em economia criativa, marketing e inovação.

Nenhum setor expõe essa contradição entre individual e social com mais nitidez do que a creator economy. Um mercado em expansão, hoje com mais de 20 milhões de creators, é um laboratório de adoecimento. Ser creator hoje é exercer, ao mesmo tempo, pelo menos dez funções: criativo, estrategista, roteirista, editor, gestor de comunidade, empreendedor, departamento financeiro, assessor de imprensa e de

marca pessoal. A casa vira estúdio. A intimidade vira ativo. A reputação vira moeda. O algoritmo vira chefe invisível sem rosto nem contrato. E esse modelo não tem RH, não tem jornada definida, não tem férias reais. A maioria dos creators não tem equipe. Não tem a dissociação entre o que é trabalho e o que é vida. Quando tudo vira conteúdo, o que sobra protegido?

Quando você constrói ambientes onde há escuta genuína, reconhecimento de trajetória, celebração de conquistas — mesmo as pequenas — e abertura para a vulnerabilidade, você não está apenas promovendo bem-estar. Você está produzindo criatividade sustentável.

O setor criativo precisa de um novo pacto entre marcas, agências, plataformas, hubs e creators sobre o que significa responsabilidade com quem sustenta a linguagem cultural do nosso tempo. Não basta contratar creators pela audiência e exigir entrega, performance, autenticidade e consistência sem perguntar o que está sendo consumido para que essa entrega aconteça. A pergunta que começa a emergir nos ambientes mais atentos é: o que estamos construindo juntos, além de conteúdo?

Criar condições para que a criatividade continue viva é estratégia. É retenção de talento. É marca. E é, cada vez mais, o que vai diferenciar os ecossistemas que prosperam dos que exaurem seus próprios criadores. No fim, talvez o gesto mais disruptivo deste tempo seja também o mais antigo: reaprender a estar junto. Porque não há creator economy sustentável sem saúde mental. E não há saúde mental possível sem saúde social.