Atração e temor
Acompanhando o pêndulo que movimenta-se de um extremo ao outro, o ProXXIma abriu espaços a sentimentos divergentes e diálogos construtivos sobre a onda sintética de realidade simulada pela inteligência artificial
Do entusiasmo para a desconfiança. É assim que alguns analistas veem a oscilação atual em reações frente ao avanço da inteligência artificial (IA) nas interações pessoais, comerciais e corporativas. Por todos esses ângulos, o tema foi debatido por muitos dos 130 palestrantes participantes da 20ª edição do ProXXIma, realizada na semana passada, em São Paulo, em um novo formato. Com conteúdo ampliado e ainda mais diversificado, o evento comportou seis palcos simultâneos, firmando sua marca como referência em transformações que impactam a indústria de comunicação, marketing e mídia.
Os assuntos abordados na arena central e nos palcos temáticos foram da resistência à tecnologia — que envolve desde temerosos em perder o emprego até pais preocupados com a educação dos filhos — aos efeitos da inteligência artificial generativa nas crenças e religiões — da primeira encíclica do Papa Leão XIV, divulgada na semana passada, ao monge fictício que faturou US$ 500 mil em seis meses vendendo e-books.
No ambiente efervescente de exposição de conteúdos, networking e troca de conhecimentos propiciado pelo ProXXIma 2026, movimentou-se o pêndulo da atração e do temor gerados pela onda sintética, que simula fatos com alto grau de realismo, a partir de informações geradas ou alteradas por algoritmos de IA.
No caminho de um extremo ao outro, há problemas concretos já vivenciados pelas marcas, como o fim das viralizações e interações orgânicas. No primeiro caso, para ser visto é preciso investir mais verbas ou ser mais criativo. No segundo, entender o novo modus operandi das ações online realizadas somente por robôs — que já dominam o tráfego online, desafiam a autonomia humana e aumentam o poder da IA agêntica como intermediadora de relações.
Outro ponto de destaque do evento foi a explosão do conteúdo sintético, gerado 100% por IA, que rouba o tempo dos usuários nas redes — para muitas marcas e criadores de conteúdo, já é um desafio atual navegar em um ambiente dominado por AI Slop, o rótulo dado às postagens toscas geradas por IA. O problema aqui é que o desleixo com a produção não significa necessariamente baixo engajamento.
Um dos convidados internacionais, o ex-CEO da VidCon e atual editor e CEO da Inside the Creator Economy, Jim Louderback, apresentou no evento a sua tese da “audiência de uma pessoa só”, para descrever o movimento que passa pelos feeds personalizados das redes sociais, ganha escala com a tecnologia viabilizando infinitas conexões possíveis e chega ao ponto de cada pessoa ser abordada por um conteúdo ou um anúncio remixados especificamente para ela, sem reprodução exatamente igual para nenhuma outra.
O desafio para as marcas seria não apenas a tão falada guerra pela atenção, mas um combate ainda mais difícil e subjetivo: a disputa pela emoção. Louderback alertou para a perda de espaço no “orçamento emocional” do público, que também é finito — há limite no relógio, mas também no coração e na mente. Por falar em amor, essa é uma das características humanas não possíveis para a IA. Capacidades como errar, tropeçar e encontrar o caminho para se chegar a uma resposta foram um dos assuntos abordadoss no interessante debate entre o filósofo e teólogo Zeca de Mello e o advogado especialista em tecnologia Ronaldo Lemos. Entre outras conclusões, a de que, para pessoas e marcas, há o risco da homogeneização, quando o desejado é a originalidade; de isolamento e solidão, quando o saudável é o caminho da integração e convivência.
Reafirmando o seu poder transformador de principal fórum de debates sobre temas de inovação para o mercado, como mostram as reportagens das páginas 30 a 40, o ProXXIma cumpriu novamente a sua missão de provocar reflexões e, com uma programação extensa, responder demandas amplas por diálogos e ideias aplicáveis ao trabalho, aos negócios e à sociedade.