Um recado do Papa que deveria ser ouvido por todos nós
Pareceu sério que na Magnifica Humanitas uma das instituições mais antigas e influentes do planeta, com 1,4 bilhão de "seguidores”, tenha decidido parar tudo para falar sobre IA
No último dia 25, o Papa publicou uma carta. E eu, que sou zero religiosa, me peguei lendo pela primeira vez um documento longuíssimo feito pelo Vaticano.
O motivo? Em 1891, o Papa Leão XIII publicou a Rerum Novarum (Coisas novas, em português), considerada até hoje o documento mais importante da Igreja sobre trabalho e economia. Falava sobre a Revolução Industrial, o que ela estava fazendo com os trabalhadores, e alertava que o ser humano não poderia ser tratado como máquina. É o documento que todo mundo está comparando com esse de agora.
Corta. 2026. 135 anos depois.
O Papa atual, Leão XIV, publica uma nova Carta Encíclica, que é como eles chamam esse tipo de documento, mas dessa vez sobre inteligência artificial (IA).
Pareceu sério o fato de uma das instituições mais antigas e influentes do planeta, com 1,4 bilhão de “seguidores”, ter decidido que valia a pena parar tudo, inclusive a conversa sobre guerras e crises humanitárias globais, para falar sobre IA. Conseguiram minha atenção.
Com o nome “Magnifica Humanitas” (Humanidade Magnífica, em português), a carta foi escrita para alertar que a humanidade chegou a um ponto em que, pela primeira vez na história, tem poder suficiente para redefinir o que é ser humano. E que essa escolha não pode ficar nas mãos de quem tem o maior servidor ou a melhor tecnologia. Isso porque, no passado, eram os Estados que orientavam a inovação. Hoje, são empresas privadas, frequentemente transnacionais, com recursos maiores do que muitos governos.
Além disso, a carta provoca a sociedade a repensar quem pode deter os dados sobre as pessoas quando são esses dados que detêm poder. Para ele, assim como terra e água pertencem à humanidade e não podem ficar concentradas nas mãos de poucos, dados também deveriam ser tratados como patrimônio coletivo. E que, como sociedade, não podemos somente sentar e esperar que tudo dê certo.
Palmas, Papa. Nunca te critiquei (critiquei sim, mas não vem ao caso).
Obviamente, o texto não cita a publicidade. O buraco é muito mais embaixo do que nosso próprio umbigo. Mas dá pra pensarmos, sim, em uma leitura que cabe na nossa vida e dia a dia de trabalho, porque a publicidade estava lá na primeira revolução e está super ativa na segunda. Se me permitem uma visão crítica, lá vai:
Em 1891, a Revolução Industrial serviu de semente para o nascimento do que fazemos hoje, já que a publicidade moderna nasceu para dar escala ao consumo que a produção industrial criava. Gostemos ou não, somos filhos dessa revolução. E, dando um salto para
2026, a coisa complicou, porque hoje usamos dados pessoais como matéria-prima, alimentamos e usamos algoritmos em nosso favor sem que o público leigo tenha noção do porquê estar recebendo aquela mensagem e o que queremos com isso. Sem falar no uso em escala que estamos começando a fazer de IA.
Quando o Papa escreve que o risco da nossa era é reduzir a pessoa a dado e desempenho, quando aponta que o poder tecnológico está concentrado em sujeitos privados com mais força do que governos, quando diz que a maioria das pessoas espera que tudo dê certo enquanto poucos disputam o futuro, ele está descrevendo um ecossistema em que a nossa indústria é peça central, não coadjuvante, meus amigos.
Em 1891, a Igreja olhou para a Revolução Industrial e disse: isso está desumanizando o trabalhador e alguém precisa reclamar antes que seja tarde demais. O argumento estava certo. Em 2026, o coro está maior e mais barulhento, com reguladores, pesquisadores, filósofos, engenheiros, e agora o Papa, dizendo que as coisas precisam mudar antes que a gente se dane, usando um português educado.
Bom, já não bastava a ansiedade de ter que aprender uma ferramenta nova por semana. Agora vem mais essa responsabilidade no colo, a de pensar eticamente no que está sendo feito? Sim.
E temos duas escolhas possíveis pra lidar com isso: a primeira é a de quem acha que ética em IA é problema de big tech e do governo, não de quem apenas usa as ferramentas. A segunda é a de quem entende que uma indústria que move bilhões em atenção humana, que sabe como ninguém transformar comportamento em escala, que entra em mais lares do que qualquer noticiário, não é usuária passiva de nada. É agente. E os agentes têm responsabilidade sim.
Não se trata de parar de usar IA. O texto do Papa não pede isso e eu mesma usei IA pra fazer uma boa parte da pesquisa que embasa este texto. A Revolução Industrial não foi problemática porque criou fábricas, foi problemática porque ninguém parou o jogo pra perguntar o interesse de quem ela estava defendendo. A gente tem a chance de fazer essa pergunta agora, enquanto a revolução ainda está se formando.
Há 135 anos, a publicidade não tinha essa chance. Ela mal existia como indústria moderna.
Mas agora ela tem. E já está bem grandinha pra isso.