Opinião

Mensuração significa infraestrutura civilizatória

Quando é sólida, mercados prosperam; quando é fraca, todos pagam o preço

Suzana Pamplona

Diretora de pesquisa e conhecimento da Globo 2 de junho de 2026 - 14h00

Não se trata mais de discutir se a mensuração precisa evoluir. Debate superado. A verdadeira questão é mais simples, e muito mais desafiadora: quais padrões estamos coletivamente dispostos a defender? Não é sobre qual é o melhor, mas o que qualquer modelo deve respeitar.

Mensuração não é um mero exercício técnico. É escolha estratégica, sustentada por rigor científico e credibilidade de longo prazo. Como qualquer infraestrutura compartilhada, molda qualidade decisória e integridade. Ou a construímos juntos, ou fracassamos juntos.

Quando falo em infraestrutura civilizatória, me inspiro sobre uma longa tradição dos estudos da sociologia e da economia política que preconizam a ideia de que padrões e sistemas de troca são as bases que tornam possível a vida coletiva. Aquilo que escolhemos medir, padronizar e governar acaba moldando a forma como sociedades coordenam, decidem e confiam. Portanto, em um mundo fragmentado, mensuração não é apenas sobre números. É sobre poder. Poder de definir a realidade, de moldar decisões, e o que realmente conta.

Mensuração é linguagem: condição mínima para diálogo. Funciona como infraestrutura, assim como estradas, sistemas financeiros ou moedas. Quando é sólida, mercados prosperam. Quando é fraca, todos pagam o preço.

O rigor não nasce de padronização forçada, mas de integração com respeito às particularidades. Sistemas diferentes, mas sobre a mesma realidade. Metros ou pés. Celsius ou Kelvin. Dólares ou euros. Conversíveis. Comparáveis. Interoperáveis. Como uma moeda de verdade. Não é por acaso que chamamos a métrica de mídia de “currency”.

Para ser confiável, a mensuração precisa ser agnóstica e desinteressada. Caso contrário, deixa de refletir a realidade e passa a servir agendas de conveniência. Boa mensuração busca capturar a realidade observável. Seus efeitos, implicações e interpretações pertencem a outro campo: o analítico.

Abundância de dados tampouco equivale à qualidade de entendimento. Nosso mercado não carece de sofisticação intelectual. O que ainda parece faltar é alinhamento em torno de parâmetros fundacionais comuns. Por isso, me atrevo a propor um framework que ajude a pactuar o que deveria ser inegociável. Nem ouso propor inovação. Estou propondo padrões. Cinco deles: Pessoas, Presença, Precisão, Paridade e Prova. Juntos, eles operacionalizam aquilo que mais importa: comparabilidade, acuracidade, validade científica, equidade e confiança. Pessoas: premissa-âncora da comparabilidade. Plataformas se fragmentam, mas pessoas não. São o denominador comum. Boa

mensuração existe, em última instância, para representar aquilo que mais importa: o comportamento humano por trás dos dados. Presença: o fundamento da acuracidade. Trata do que realmente é verificável, porque disponibilidade não é sinônimo de exposição real. Precisão: a disciplina da ciência. Não se trata de 100% de certeza nem de casas decimais. Significa (re)conhecer a incerteza, e ser honesto sobre ela. Paridade: equidade por design. Sem ela, abundância se transforma em poluição, ruído e caos. Profusão de dados sem equivalência produz incomunicabilidade e babel metodológica. Paridade não elimina diferenças, mas as torna inteligíveis e intercambiáveis. Prova: a engenharia da confiança. Confiança é construída e pressupõe governança, para colocá-la em prática, com transparência e auditabilidade. Se atesta e se verifica, continuamente, por reprodutibilidade científica.

Retire um único “P” e o sistema colapsa. Boa mensuração não é atalho. Qualquer elo rompido destrói a tessitura do ecossistema.

A boa notícia é que esses princípios já começam a ganhar forma. O recém-lançado Guia CENP de mensuração crossmedia é um exemplo importante desse esforço coletivo.

Devemos tratar mensuração como infraestrutura compartilhada, não como vantagem proprietária. Isso significa investir em sistemas crossmedia baseados em consumo real, em desduplicação entre plataformas,

transparência metodológica e colaboração entre toda a indústria. Porque esses esforços não são sobre possuir a verdade. São sobre coconstruir as condições sob as quais diferentes perspectivas possam convergir sobre uma realidade comum, assim como se faz consenso científico.

No fim, boa mensuração não é sobre vencer debates. É sobre sustentar confiança, e que resista ao escrutínio e ao tempo. Se assim como um verdadeiro sistema monetário é neutro, conversível, comparável,

intercambiável, nossa currency também pode ser.

O futuro da mensuração será definido por como escolhemos tratá-la: como uma mera ferramenta ou como infraestrutura civilizatória.