João Fonseca: o bom moço e a lição de reputação
Brasileiro se tornou fenômeno na opinião pública e case evidencia valor da estabilidade e da consistência
Quando o objetivo é construir uma personalidade pública, muitas celebridades – e o que dirá dos influenciadores? – têm apostado no itinerário da polêmica. Na tentativa de chamarem atenção em meio a tanto ruído e tanta concorrência, tornarem-se conhecidas e engajarem uma base de seguidores, lançam opiniões programadas para chocar e adotam atitudes controversas. Um esforço coordenado de criação de personagem, episódio após episódio.
Na contramão dessa estratégia, um brasileiro se tornou fenômeno na opinião pública. Promessa mundial do esporte, João Fonseca chegou a ocupar o 24º lugar no ranking da ATP. Ele disputou a partida de tênis – o duelo contra Jakub Menšík, em Roland Garros – com a maior audiência da história da TV fechada do país. Por onde passa, do Rio Open aos prestigiados torneios do Grand Slam, o jovem de 19 anos vem mobilizando uma torcida apaixonada. João deu um novo gás para a prática amadora, despertando o interesse de uma nova geração e impulsionando uma ampla cadeia, que vai desde associação a clubes, assinatura de streamings, aulas, venda de raquetes e demais equipamentos.
Curioso: tudo isso sem dividir, sem agredir, sem chocar. Alguns poderiam dizer que ele é insosso. Mas se trata de um bom moço, como Gustavo Kuerten foi lá atrás. Para escândalo dos puritanos, ele quebrou uma raquete em um surto de irritação. Esse foi o máximo de polêmica que alcançou. Algo, aliás, que até Roger Federer – aquele que é tido como o gentleman do tênis – já fez. E aos que dizem que esse é um terreno somente para mauricinhos bem alimentados e comportados, que busquem as peripécias de Nick Kyrgios, Daniil Medvedev e Corentin Moutet. Todos eles ainda na ativa.
João Fonseca chama atenção por ater-se ao que sabe fazer, e faz muito bem: jogar tênis. Não palpita sobre o futuro da nação, não pretende genialidades, não superexpõe sua vida particular. Seu foco é um só: a quadra. E, com persistência e trabalho cotidiano, está escrevendo uma jornada que pode consagrá-lo como um dos maiores atletas do país deste século. Ele caiu em Wimbledon, mas suas características pessoais geram um ambiente de conforto e previsibilidade para todos que estão em seu entorno.
A começar pelas marcas: mesmo antes de João Fonseca se tornar profissional, a On e a Yonex enxergaram seu potencial e decidiram apoiá-lo. Em 2024, veio a XP Investimentos, quando o carioca estava na 217ª posição do ranking mundial. No mesmo ano, chegaram a Rolex e a JF. E, no final de 2025, quando João já se encontrava no seleto grupo dos 30 melhores do planeta, mais um patrocinador de alto escalão: Mercado Livre. Essa sequência deixa claro que tudo fica mais sereno quando não há alto risco de escândalo conjugal, de quebradeira em hotel, de agressão a
árbitro. Ou mesmo de um posicionamento político destrambelhado que, vira e mexe, vai acabar atiçando a ira de metade da população brasileira.
Para além das quadras, onde os resultados falam por si, a trajetória de João Fonseca traz lições de reputação para todos nós. Em primeiro lugar, ensina que uma marca forte apenas se concretiza com base na verdade – partindo de quem efetivamente somos, da nossa essência, sem artificialismos ou maquinações. Também evidencia o valor da estabilidade e da consistência: movimentos isolados não são suficientes em uma construção que é obrigatoriamente de longo prazo. Por mim, em tempos tão histéricos, mostra que é possível ser conhecido e admirado sem precisar antagonizar. Em um mundo cada vez mais viciado em polêmicas, o jovem tenista mostra que a normalidade virou um grande diferencial competitivo.