opinião - mafoane odara

Os 30 minutos que mudaram a minha carreira

O maior convite que as férias podem nos fazer é trocar a reação pela reflexão, a correria pelo aprendizado, o automático pelo estratégico e a urgência pela construção

Mafoane Odara

Psicóloga, executiva de relações humanas e professora 14 de julho de 2026 - 6h00

Todos os dias, separo 30 minutos para tirar férias. Aprendi a reservar um pequeno espaço diário para aquilo que chamo de repertório deliberado. Não tenho tempo sobrando, mas considero esse um dos investimentos mais importantes que faço na minha carreira. Não falo das férias tradicionais, marcadas no calendário e acompanhadas de malas, passagens e mensagens automáticas de ausência. Refiro-me a um intervalo intencional para sair da urgência do presente e investir, ainda que por alguns minutos, na construção do futuro.

Esses 30 minutos são um investimento em capital cultural. Em alguns dias, leio um livro que estava esperando na estante. Em outros, organizo uma viagem, estudo um tema novo, converso com alguém que pensa diferente de mim ou simplesmente deixo a curiosidade ocupar o espaço que normalmente pertence à urgência.

Aprendi que o futuro dificilmente muda sozinho, ele muda quando mudamos a qualidade das perguntas que fazemos, das pessoas com quem convivemos e das experiências que escolhemos viver. Durante anos, esse hábito parecia pequeno demais para produzir grandes mudanças, até que um dia ele me trouxe para um lugar que eu jamais imaginei.

Hoje, escrevo este artigo do outro lado do oceano, mais precisamente de Makhanda, uma pequena cidade na África do Sul em que estamos para participar do National Arts Festival, o maior festival de artes do continente africano.

Isso não aconteceu por acaso, foi consequência de muitos pequenos investimentos em experiências que começaram muito antes dessa viagem.

Viemos apresentar a performance Eu tenho uma história que se parece com a minha, construída a partir da pergunta “Quem tem o direito de contar a própria história?”. Foi durante essa experiência que percebi algo que venho aprendendo há anos. Viajar também é uma forma de estudar. Contar uma história nunca foi um ato neutro.

Quem narra decide o que merece ser lembrado, o que será esquecido, quem ocupará o centro da narrativa e quem permanecerá à margem. Por isso, contar a própria história é muito mais do que um exercício de memória, é um ato de existência. A memória não serve apenas para preservar o passado, ela também constrói possibilidades.

Makhanda guarda marcas da colonização britânica, mas também da resistência africana. Suas ruas revelam que a história nunca é uma narrativa única, diferentes memórias e perspectivas continuam disputando espaço até hoje.

Caminhar pela cidade é compreender que o passado não está encerrado, ele segue sendo reescrito por quem reivindica o direito de contar a própria história.

Talvez seja por isso que sair do cotidiano, seja viajando, seja buscando intencionalmente novos encontros e experiências, seja uma das formas mais sofisticadas de aprender. Cada deslocamento amplia aprendizado, desafia certezas e nos convida a enxergar o mundo por perspectivas que dificilmente encontraríamos permanecendo sempre nos mesmos lugares, ouvindo as mesmas pessoas e fazendo as mesmas perguntas.

Enquanto muitas pessoas enxergam as férias como uma interrupção da produtividade, comecei a vê-las como uma das suas maiores aliadas. São elas que renovam visão de mundo, alimentam a criatividade e ampliam a capacidade de compreender pessoas, mercados e culturas, competências cada vez mais valiosas em um mundo que muda mais rápido do que conseguimos acompanhar.

Ao longo da carreira, percebi que as oportunidades raramente surgem apenas da competência ou apenas da sorte, elas costumam aparecer quando preparo encontra oportunidade. A preparação, por sua vez, não acontece apenas durante o expediente, ela acontece justamente nesses espaços aparentemente improdutivos em que decidimos aprender algo novo, visitar um lugar desconhecido, ouvir uma história diferente da nossa ou revisitar sonhos que a rotina quase fez esquecer.

Por isso, o maior convite que as férias podem nos fazer é trocar, ainda que por alguns instantes, a reação pela reflexão, a correria pelo aprendizado, o automático pelo estratégico e a urgência pela construção. Não é preciso viajar para outro continente para fazer isso, às vezes, basta ler o livro que você vem adiando, estudar um tema que será importante daqui a cinco anos, conversar com alguém capaz de ampliar sua visão de mundo ou cuidar da saúde física e emocional com a mesma disciplina com que cuida da agenda de trabalho.

Há alguns anos ouvi uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça: “Suma 21 dias e volte sete anos à frente.” Não sei se isso é literalmente possível. O que aprendi é que o futuro se constrói nas horas em que trabalhamos e também nos momentos em que protegemos a curiosidade da pressa. Talvez os trinta minutos não façam você voltar sete anos à frente, mas podem ser suficientes para que, daqui a alguns anos, você olhe para trás e perceba que foi ali, naquela pequena pausa diária, que a próxima espiral da sua vida começou a ser construída.