Opinião

O retrovisor não basta mais

A maioria das lideranças atuais foi formada em um modelo linear, baseado em controle, estabilidade e previsibilidade, só que o contexto atual é ambíguo e permanentemente tensionado

Caroline Torma

Diretora-executiva de marketing do Grupo RBS 7 de julho de 2026 - 14h00

Nós fomos formados para um mundo que não existe mais.

Ouvi essa frase durante uma aula do Programa Avançado de Estratégia da Fundação Dom Cabral e ela ficou ecoando na minha cabeça nos dias seguintes. Talvez porque explique muito do que estamos vivendo dentro das empresas — especialmente em marketing, mídia, conteúdo e entretenimento, onde transformação deixou de ser projeto e virou ambiente operacional.

Durante muito tempo, estratégia foi quase sinônimo de previsibilidade: planejar, otimizar, repetir modelos de sucesso, ganhar eficiência. O mercado mudava em uma velocidade relativamente administrável e, em muitos setores, olhar pelo retrovisor ainda ajudava a tomar boas decisões.

Hoje, não mais.

Vivemos uma combinação simultânea de rupturas tecnológicas, comportamentais, econômicas, culturais e geopolíticas. Inteligência artificial, creators, hiperpersonalização, economia da atenção, automação, envelhecimento da população, mudanças climáticas, novas dinâmicas de trabalho, excesso de informação, ansiedade coletiva, fragmentação de audiência. Tudo ao mesmo tempo. E em velocidade exponencial.

A maioria das lideranças atuais foi formada em um modelo linear, hierárquico, baseado em controle, estabilidade e previsibilidade. Só que o contexto atual é ambíguo, fluido e permanentemente tensionado por mudanças de comportamento e novas tecnologias.

Hoje, a maior ameaça para um negócio raramente nasce dentro da própria categoria. O TikTok não virou concorrente apenas de outras redes sociais. Virou concorrente da televisão, do streaming, do jornalismo, da música, da leitura e do nosso tempo livre.

O Ozempic talvez seja um dos exemplos mais simbólicos dessa nova lógica. Um medicamento que não impacta apenas a indústria farmacêutica, mas altera comportamento alimentar, consumo, estética, varejo e até o mercado de bebidas.

As rupturas vêm das bordas. E quase nunca parecem ameaça no início. Nesse contexto, estratégia deixa de ser exercício de previsão e passa a ser exercício de leitura de cenários e as empresas mais preparadas não são necessariamente as que acertam o futuro. São as que conseguem identificar sinais antes, revisar premissas rapidamente e adaptar operações, produtos e modelos com velocidade.

Existe uma ansiedade quase coletiva por inovação, inteligência artificial e transformação digital. Mas poucas conversas maduras sobre cultura, processos, clareza estratégica e capacidade real de execução.

IA não resolve bagunça operacional. Não substitui liderança. Não cria cultura. Não elimina a necessidade de repertório, visão ou tomada de decisão.

Existe uma tendência perigosa de terceirizar a responsabilidade para “o algoritmo”, “as novas gerações”, “o mercado” ou “o futuro”. Como se transformação fosse uma tempestade inevitável diante da qual só restasse reagir. Mas estratégia continua sendo escolha: onde colocar energia, quais capacidades desenvolver, o que proteger e, especialmente, do que desapegar.

A principal responsabilidade da liderança hoje não está em ter todas as respostas e, sim, em tornar suas empresas mais adaptáveis, mais curiosas, menos arrogantes e mais capazes de aprender rápido. Porque, daqui para frente, sobreviver não será resultado de tamanho, histórico ou eficiência operacional. Será reflexo da capacidade de desaprender rápido, evoluir antes da ruptura e inovar antes que seja tarde demais para mudar.