Opinião

Agências independentes: heróis de uma causa perdida

Há nobreza trágica nas que sabem que o jogo não foi feito para elas e, mesmo assim, entram em campo

Ian Black

CEO da Black Sheep 6 de julho de 2026 - 9h00

A historiadora Edith Hamilton tem uma formulação preciosa: no imaginário nórdico, o bem perderá para o mal no fim. O único bem puro que resta é o heroísmo. E o heroísmo depende, irremediavelmente, de causas perdidas.

Na mitologia nórdica há os Aesir e os Jotnar em lados opostos. Os primeiros — Odin, Thor, Freya — representam a ordem, a coragem, a continuidade do mundo. Os Jotnar são forças primordiais, anteriores à ordem. O caos, a escala, a desmedida, aquilo que cerca o mundo organizado lembrando que nenhuma ordem é definitiva.

Quando guerreiros heroicos morrem em batalha vão para Valhalla — não um paraíso premium com churrasco e networking, mas um centro de treinamento para a última batalha, o Ragnarok. Eles sabem que vão perder. A derrota já está profetizada. Treinam exaustivamente para uma guerra cujo resultado já está dado contra eles.

Nesse imaginário, a dignidade não depende da vitória. Não existe garantia moral no rodapé do universo de que os bons vencerão e os justos serão recompensados por um compliance cósmico. O mundo nórdico é mais duro e talvez mais adulto.

A derrota é um destino e, ainda assim, exige a luta.

Essa frase deveria estar colada na porta de muitas agências independentes brasileiras.

Não das independentes de apresentação institucional, de fundador bem fotografado dizendo para o Meio & Mensagem que acredita em cultura e criatividade. Falo das independentes de verdade. As independentes estruturais. Aquelas que não nasceram de capital acumulado, de sobrenome publicitário, de rede internacional ou de um ecossistema organizado para amortecer sua existência.

Porque há uma confusão conveniente: “agência independente” virou um termo elástico demais, simpático demais. Serve para uma agência pequena nascida de três pessoas sem dinheiro tentando sobreviver. Serve também para estruturas enormes com escala, grandes clientes, reputação consolidada e poder real de mercado.

Tudo cabe no mesmo adjetivo — e quando isso acontece, ele começa a esconder mais do que revela.

Galeria e Wieden+Kennedy podem se apresentar como independentes, mas não vivem a independência estrutural de uma New Vegas, Gana ou BSN. Uma é potência nacional com escala, mídia e presença institucional; a outra carrega um lastro simbólico que precede qualquer apresentação. Podem não ser holdings globais, mas jogam pau a pau no mesmo campeonato que elas.

No imaginário do mercado, todas funcionam como Jotnar. Não como vilãs, mas forças enormes, antigas, legitimadas. O mercado foi estruturado a partir delas — os veículos, os anunciantes, as premiações, os rankings, o talento, a reputação e o capital simbólico foram calibrados para sua realidade. O dinheiro reconhece a escala.

Isso não significa que não sofram. Gigante também sangra. Agência grande também perde conta, demite gente, erra estratégia e atravessa margem apertada. Mas uma coisa é sofrer com armadura. Outra é sofrer com o corpo.

New Vegas, Gana e BSN pertencem a outro imaginário. Não nasceram de estrutura. Nasceram do nada. De gente da classe trabalhadora que não tinha capital, sobrenome, herança de mercado ou grande anunciante esperando na porta. Suas economias dependem sempre do valor direto dos seus trabalhos. Estratégia. Criação. Conteúdo. Influência. PR digital. Atendimento. Operação. Pensamento. Tudo aquilo que o mercado adora elogiar, mas nem sempre remunera com a mesma convicção.

Mas não ocupam mesmo lugar estrutural de Galeria, Artplan ou W+K. Podem estar na mesma concorrência, no mesmo shortlist, na mesma conversa do after do Martinez — mas o campo, o banco e a tolerância ao erro eram profundamente diferentes.

Ainda assim, jogam. O mundo não é feito apenas de Champions, mas também de Copa do Brasil. E, vez ou outra, ganham.

Mas a regra não é a vitória. A regra é sempre a luta.

E talvez seja justamente isso que defina uma agência independente de verdade. Não a ausência de holding no contrato social. Não o manifesto rebelde anunciado em página única. A independência real está na condição estrutural de quem precisa continuar existindo numa indústria que não foi estruturada para a sua sobrevivência.

As independentes de verdade são agências heroicas porque atuam dentro de uma causa que, em muitos momentos, já parece perdida.

Sabem que o mundo está organizado em torno dos Jotnar, que o dinheiro circula melhor entre os gigantes, que a mídia cria amortecimento, que grandes clientes atraem narrativas e que reputação gera convite, prêmio, imprensa, cliente, mídia, margem, reputação e estrutura.

Para elas, quase tudo precisa ser produzido com mais atrito. O argumento precisa ser melhor. A proposta precisa explicar mais. O preço precisa se defender mais. O cliente precisa confiar mais. A margem precisa resistir mais.

É aí que mora a dimensão heroica. Não no romantismo tosco de “fazer muito com pouco”, frase perigosa dita por quem se beneficia do pouco dos outros. Como destino permanente, é exploração com trilha emocional. Nenhuma agência deveria transformar sub-remuneração em identidade ou precariedade em charme.

Mas há uma nobreza trágica nas agências que sabem que o jogo não foi feito para elas e, mesmo assim, entram em campo. Há heroísmo em construir linguagem sem megafone; em vender pensamento num mercado que ainda trata inteligência como brinde da execução; em nascer de baixo e não aceitar que o baixo seja o limite moral da própria ambição.

Essa é a diferença entre ser vencedor e ser herói. O vencedor precisa do placar. O herói revela o tamanho real da batalha.