Opinião

O melhor jogo do Brasil para assistir nesta Copa está bem longe do plano tático do Ancelotti

Durante a Copa do Mundo, números de audiência merecem a mesma atenção dedicada ao gramado

Gabriel Borges

Cofundador da Ampfy 3 de julho de 2026 - 14h00

O confronto mais disputado pelo Brasil na Copa de 2026 não depende do meio de campo do Ancelotti. Acontece sempre no dia seguinte às partidas da Seleção, quando as emissoras oficiais divulgam seus dados de audiência. O detalhe curioso é que, em quase toda noite de jogo, TV Globo e CazéTV comemoram, ao mesmo tempo, recordes de audiência. E os dois estão certos. Esse é o paradoxo mais interessante do torneio, um jogo que merece ser assistido com a mesma atenção dedicada ao gramado. Os números explicam por quê.

Do lado digital, a CazéTV vem acumulando recordes de audiência no YouTube a cada rodada. Foram 12,3 milhões de telas conectadas ao mesmo tempo na estreia contra o Marrocos, 16,2 milhões no jogo com o Haiti, 18,3 milhões diante da Escócia e o ápice até agora, 21 milhões de aparelhos simultâneos em Brasil e Japão pelas oitavas, a maior audiência ao vivo da história da plataforma no planeta. Na soma da primeira fase, o canal diz que triplicou o alcance de quatro anos atrás, saltando de 22 milhões de espectadores únicos em 2022 para 64 milhões agora. Além disso, é o único que transmite 104 jogos.

Do lado da TV, a Globo continua colossal, o que vale registrar para não alimentar a tese de que a televisão perdeu relevância. Na estreia contra o Marrocos, a emissora divulgou que só a TV aberta alcançou 42 milhões de pessoas ao longo da transmissão e registrou 51% de share, ou seja, mais da metade das TVs ligadas nas praças medidas estava sintonizada na emissora. Somando TV aberta, SporTV e Globoplay, o grupo afirma que mais de 80 milhões de brasileiros passaram por seus canais nos primeiros dias da Copa. Ao mesmo tempo, um dado chama atenção: sem Galvão Bueno na cabine, a estreia marcou 30,74 pontos na Grande São Paulo, a menor audiência da emissora para um jogo da Seleção em Copas, abaixo inclusive do piso registrado em 2014. No público nacional, a queda foi de cerca de 33% em relação a 2022. Colossal e combalida na mesma noite: os dois adjetivos cabem. É justamente aí que está o ponto. Mesmo em queda, a Globo ainda reúne, sozinha, um público que faz qualquer plataforma digital parecer pequena.

A pergunta que fica é como os dois batem recorde na mesma noite. A resposta está na forma como cada audiência é medida. A Globo comunica a audiência média: quantas pessoas, em média, assistiram do início ao fim da transmissão, com estimativas feitas pela Kantar Ibope. Já a CazéTV divulga o pico de audiência: o instante exato em que mais telas estavam conectadas simultaneamente, o chamado Golden Minute. As duas métricas procuram responder à mesma pergunta: quanta gente estava assistindo? A diferença é que utilizam metodologias diferentes, que não devem ser comparadas diretamente.

E as diferenças não param no pico contra a média. Uma régua conta pessoas estimadas, a outra conta telas ligadas, e a mesma pessoa pode aparecer nas duas ao mesmo tempo, vendo TV na sala e acompanhando o jogo pelo celular. Uma considera apenas as praças do Brasil, a outra mistura o público brasileiro ao do mundo inteiro. Uma é auditada por uma empresa independente, a outra é medida pela própria plataforma que exibe. Nenhuma delas está incorreta. Apenas medem aspectos diferentes da audiência e, por isso, produzem resultados que não devem ser comparados diretamente.

Por trás dessa contabilidade dupla há um dado relevante para o mercado: o bolo não encolheu, ele se espalhou. Na estreia contra o Marrocos, somadas as plataformas, foram mais de 76 milhões de brasileiros acompanhando o mesmo jogo, com boa parte no grupo Globo e uma fatia importante no SBT, na CazéTV e na TV paga. Não se trata de um público migrando de um lado para o outro. É o mesmo interesse pela Seleção se distribuindo por telas que, quatro anos atrás, ainda não existiam nessa escala.

Por isso, vale uma atenção especial aos números divulgados ao longo da Copa. Cada lado vai apresentar um material bem construído, com o dado que mais favorece sua narrativa, e ambos estarão, tecnicamente, corretos. O trabalho é ler esses resultados com senso crítico, e as perguntas que resolvem quase tudo são simples: de qual régua saiu esse recorde? É pico ou média? Tela ou pessoa? Brasil ou mundo? Quem mediu? Responder a essas perguntas ajuda a entender o cenário real, e não apenas o placar que cada emissora escolhe mostrar.

Se há uma certeza, é que a dinâmica da Copa para as marcas em 2026 não tem quase nada a ver com a de 2022, quando a Globo reunia o país praticamente sozinha e a CazéTV ainda engatinhava. Também é provável que ela seja diferente em 2030. Assistir à Copa hoje já é outra experiência, fatiada em réguas, telas e narradores que antes cabiam em um único canal. Daqui a quatro anos, provavelmente será diferente de novo, de um jeito que ainda não sabemos medir. O gramado talvez siga o mesmo de sempre. A arquibancada, essa sim, continuará mudando.