Quem é o seu camisa 10?
O Brasil continua produzindo ídolos; o desafio é encontrar aqueles capazes de mobilizar um país inteiro
Na Copa do Mundo de 58, a Seleção Brasileira enviou sua lista de jogadores à FIFA sem a numeração definida. Conta a história que um funcionário da entidade distribuiu os números aleatoriamente e a camisa 10 acabou nas costas de um garoto de apenas dezessete anos chamado Edson Arantes do Nascimento.
Pelé ajudou o Brasil a conquistar o primeiro título mundial e transformou um simples número em um símbolo. Desde então, a camisa 10 passou a representar talento, criatividade e genialidade. Em qualquer lugar do mundo, quando pensamos em um craque, imaginamos alguém vestindo a 10.
O Brasil foi especialista em produzir camisas 10 dentro e fora dos gramados. Pelé, Ayrton Senna, Oscar Niemeyer, Sebastião Salgado, Elis Regina e Fernanda Montenegro eram admirados por públicos muito distintos e projetaram a imagem do país para o mundo.
Nos últimos dias, acompanhando as conversas sobre a Copa do Mundo de 2026, percebi o mesmo comentário em diferentes grupos de WhatsApp:
“Não conheço quase nenhum jogador”.
Minha primeira reação foi concordar. Também tenho dificuldade em reconhecer os novos protagonistas do esporte mndial.
Mas, pensando melhor, a questão não seja exatamente a falta de ídolos. Porque os ídolos continuam existindo.
Talvez estejamos diante de algo diferente.
Nunca tivemos tantas opções de entretenimento, informação e conteúdo. Cada pessoa acompanha seus próprios atletas, artistas e criadores. O que antes era consumido ao mesmo tempo por milhões de pessoas agora está distribuído entre milhares de comunidades e plataformas.
Na prática, saímos de uma era em que o país inteiro assistia aos mesmos programas, torcia pelos mesmos atletas e acompanhava os mesmos artistas para um ambiente em que cada grupo possui seus próprios “camisas 10”.
E isso tem impactos que vão muito além do esporte.
Há alguns anos, participei de um briefing de uma grande montadora que buscava uma personalidade para protagonizar o lançamento de um novo veículo. Os requisitos pareciam simples: representar a brasilidade, ter baixa rejeição e dialogar naturalmente com diferentes classes sociais e faixas etárias.
Confesso que entramos naquele projeto imaginando que seria um exercício relativamente simples.
Não foi.
Construímos listas, analisamos perfis, discutimos alternativas e, ainda assim, tivemos enorme dificuldade para encontrar alguém que atendesse a todos os critérios.
Não porque faltassem talentos. O desafio era encontrar alguém capaz de representar o Brasil para diferentes brasileiros.
Talvez seja justamente aí que esteja a mudança. Ao mesmo tempo em que figuras de alcance nacional se tornaram mais raras, os influenciadores e criadores de conteúdo passaram a ocupar um espaço cada vez mais importante na comunicação das marcas. E fazem isso com enorme competência. Construíram audiências, criaram comunidades, desenvolveram credibilidade e encontraram formas legítimas de monetizar sua influência.
Mas sua força é diferente daquela dos antigos ídolos. Enquanto os grandes ícones do passado eram conhecidos por praticamente todos, muitos criadores atuais exercem uma influência muito mais profunda dentro de grupos específicos.
Não necessariamente maior ou menor. Apenas diferente.
É possível que estejamos trocando alcance por conexão. Unanimidade por relevância.
E, olhando por esse ângulo, talvez a questão não seja a ausência de camisas 10.
Talvez eles apenas estejam espalhados em milhares de comunidades, plataformas e grupos.
Para as marcas, isso muda bastante coisa. Para a sociedade, talvez também.
Mas continuo com a mesma pergunta na cabeça:
Quem é o seu camisa 10?