Futebol, marcas e identidade
Nenhuma marca permanece relevante indefinidamente se a experiência que entrega deixa de corresponder à promessa que representa
Escrevo este artigo ainda sob a ressaca da precoce eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo. Quando você, caro leitor, e você, cara leitora, encontrar estas mal traçadas linhas, muita coisa já terá sido decidida, como a definição dos semi finalistas. O que dificilmente mudará é a sensação de vazio deixada por uma seleção que saiu cedo demais sem deixar qualquer lembrança capaz de sobreviver ao apito final.
Entre a avalanche de análises, comentários, memes e manifestações que se seguiram à eliminação, um texto publicado pelo diário britânico The Guardian me chamou particularmente a atenção. O artigo trazia uma pergunta incômoda no título: “A eliminação do Brasil na Copa do Mundo levanta uma questão: será que eles são mais uma marca do que um time?”
A provocação do jornalista Leander Schaerlaeckens ia muito além do resultado esportivo. Ele observava que a Noruega não era exatamente uma zebra, fez por merecer sua classificação. Ao mesmo tempo, questionava se a seleção brasileira continua vivendo muito mais do peso simbólico acumulado por sua história do que daquilo que efetivamente entrega em campo.
O que me intrigou foi justamente a associação entre seleção e marca e, mais ainda, o fato de essa associação surgir em um contexto claramente negativo. Afinal, para quem trabalha com comunicação, branding e construção de reputação, poucas metáforas são tão reveladoras quanto essa. Marcas existem na mente das pessoas. São feitas de memória, significado, expectativas e vínculos emocionais. Elas podem sobreviver durante algum tempo apoiadas apenas na força de seu passado, mas nenhuma marca permanece relevante indefinidamente se a experiência que entrega deixa de corresponder à promessa que representa.
E é exatamente isso que está acontecendo com a seleção brasileira. Durante décadas, o Brasil exportou uma ideia de futebol associada a alegria, improviso, criatividade, ousadia e irreverência. Havia uma identidade reconhecível mesmo antes do primeiro toque na bola. O uniforme amarelo era um símbolo cultural capaz de sintetizar uma forma brasileira de enxergar o jogo e, em certa medida, o mundo.
Nesta Copa, porém, outras seleções compreenderam melhor esse papel narrativo. Cabo Verde protagonizou, para mim, a história mais fascinante do torneio. Um país com pouco mais de meio milhão de habitantes, construiu uma campanha que extrapolou qualquer expectativa. E, na partida contra a Argentina, produziu um daqueles jogos que transcendem o placar. Lavou a alma de quem ainda acredita que futebol também é imaginação, coragem e pertencimento.
Marrocos confirmou que sua campanha histórica na Copa anterior não havia sido um acidente. Voltou a competir entre os grandes, assustou o Brasil no empate da estreia e chegou às quartas de final carregando consigo não apenas uma equipe competitiva, mas um projeto consistente sobre evolução, identidade e orgulho nacional.
A Inglaterra ofereceu a imagem mais poderosa da relação entre cultura e esporte. A cada vitória, jogadores e torcida entoavam Wonderwall, transformando um estádio inteiro em um enorme coro coletivo. Em poucos minutos, duas das maiores contribuições britânicas à cultura contemporânea — o futebol e o pop rock dos anos 1990 — se fundiam numa celebração espontânea de identidade nacional.
A Noruega, por sua vez, surpreendeu quem ainda insistia em tratá-la como coadjuvante. Muito além do talento extraordinário de Haaland, apresentou um time organizado, competitivo e seguro de sua própria proposta. E, após cada vitória, o tradicional remo viking coletivo transformava uma simples comemoração em um poderoso ritual de pertencimento.
Nenhuma dessas manifestações altera o resultado de uma partida. Mas todas ajudam a explicar por que algumas seleções conseguem mobilizar emoções muito maiores do que seu próprio desempenho técnico. Essas histórias demonstram que futebol é identidade, memória coletiva, patrimônio simbólico e soft power.
Cada gesto, cada música, cada ritual, cada celebração fortalece a autoestima de um país, energiza sua torcida, aproxima patrocinadores e amplia sua presença cultural no imaginário global. O futebol funciona como uma das mais sofisticadas plataformas de construção de marca que uma nação pode possuir.
Enquanto algumas seleções pareciam fortalecer esse patrimônio simbólico, o Brasil ofereceu o oposto. Restou a impressão de um grupo excessivamente burocrático para representar justamente o país que sempre foi celebrado por sua criatividade. Um conjunto de jogadores talentosos individualmente, mas incapazes de construir uma identidade coletiva. Homens imaturos, desconectados do peso simbólico que carregavam, submetidos a um modelo de jogo frio, rígido e excessivamente reativo.
A meu ver, a pergunta do The Guardian está invertida. O problema não é que o Brasil tenha se tornado mais marca do que time. A questão central é que a seleção deixou de cuidar justamente daquilo que transforma qualquer marca em algo vivo: sua identidade. Toda marca precisa evoluir, não pode permanecer congelada na nostalgia. E ao fazer isso não pode abrir mão daquilo que a tornou única.
Essa reflexão também vale para as empresas que historicamente investem no futebol brasileiro. Patrocinar uma camisa significa ser parte de uma construção cultural muito maior. O momento atual é crítico e deve trazer uma reflexão que busque novas narrativas para ir além do ufanismo automático que costuma acompanhar campanhas publicitárias em períodos de Copa.
As marcas possuem hoje capacidade financeira, influência institucional e legitimidade suficientes para estimular uma transformação mais profunda do ecossistema do futebol brasileiro. Apoiar projetos de formação, incentivar modelos de gestão mais modernos, fortalecer iniciativas de base, investir em educação esportiva, diversidade, saúde mental e desenvolvimento humano talvez gere muito mais valor de longo prazo do que simplesmente repetir slogans sobre paixão nacional.
Aquilo que verdadeiramente perdemos nesta Copa foi a sensação de reconhecimento. Durante muito tempo, o mundo olhava para a seleção brasileira e enxergava o Brasil. Hoje, começa a olhar para o Brasil e perguntar se ainda reconhece aquela seleção. E, para qualquer marca, poucas perguntas são mais perigosas do que essa.