Diversidade e inovação nas agências brasileiras: temos?
Em meio a desafios estruturais, setor ainda tem a "inclusão cosmética" como uma das maiores dores
Dia desses, em uma entrevista sobre inovação, me perguntaram como a Dupla Comunicação, agência que sou sócia e fundadora, trabalhava soluções diante das IAs. Respondi: “Somos diversos de essência, com políticas inclusivas e metas claras que perseguem a pauta. Isso é meio caminho andado para soluções inovadoras.” O colega insistiu: “Isso é meio. E a inovação?”. Retruquei: “É impossível inovar sem diversidade. Inovação exige olhares diferentes; sem isso, saem soluções restritas.” Ele ignorou meu ponto na matéria. Mas vou seguir insistindo.
Como Diretora de Diversidade e Equidade na Abracom, vejo que a diversidade, equidade e inclusão (DE&I) são pilares estratégicos para a inovação no mercado. Enquanto o mundo vive um efeito rebote nas agendas de DE&I, o Brasil tem a chance de liderar um novo ciclo mais pragmático. Para isso, precisamos transformar provocação em progresso.
Os dados revelam contrastes profundos. O Censo de Diversidade (ODP 2023/2024) mostra equilíbrio de gênero geral, mas mulheres negras na liderança somam apenas 4,6%. Já o Censo Abracom (2025) indica um mercado predominantemente jovem e branco: 63,5% dos colaboradores têm entre 26 e 45 anos, enquanto apenas 8,4% possuem mais de 55 anos. Na questão étnica, pessoas brancas ocupam 78,6% do mercado — um abismo em relação aos 43,5% da população branca brasileira (Censo IBGE 2022). Além disso, a maioria das agências não possui comitês de DE&I e apenas 28,1% investem em políticas ou treinamentos para a pauta.
O Estudo Buzzmonitor (2025) reforça que a publicidade está em um “ponto de inflexão”. A presença feminina cresceu, mas ainda atrelada a estereótipos. Pessoas negras e pardas continuam sub-representadas, e grupos como LGBTQIAPN+ (com apenas 1% de pessoas trans) e PcD ainda lutam contra a invisibilidade.
Por trás dos números, a “inclusão cosmética” é uma das maiores dores: empresas que promovem a diversidade externamente, mas falham em transformar suas culturas internas. Isso gera frustração e rotatividade para profissionais de grupos minorizados. Enfrentamos desafios estruturais: o peso de ser o “único” na gestão para profissionais negros; a transfobia que anula a presença de pessoas trans; o isolamento geográfico da periferia e o capacitismo que ignora acessibilidades reais.
É hora de enxergarmos a DE&I não como uma pauta moral a ser cumprida, mas como uma tecnologia social capaz de impulsionar a criatividade e a resiliência. A interseccionalidade é fundamental para construirmos estratégias eficazes “dentro de casa”. O mercado de comunicação
corporativa pode ser vanguarda global em um novo ciclo que une métricas e empatia, transformando dados em decisões estratégicas.
Não se trata só de “ter” diversidade, é preciso ser diverso na essência, na liderança e na produção. Pergunto: estamos apenas atendendo a pedidos de clientes por “uma pessoa preta na equipe”, cumprindo cotas ou realmente sendo agente social e ajudando a diminuir os abismos sociais do país? A resposta definirá não apenas o futuro das nossas agências, mas a nossa capacidade de nos mantermos relevantes no mercado e no mundo.