opinião - gustavo luveira

O monge que a Polymarket contratou para vender risco

Produtor famoso por dizer não ao óbvio estrela a campanha de estreia da plataforma de apostas

Gustavo Luveira

Sócio do Bona Casa de Música 16 de julho de 2026 - 6h00

A campanha da Polymarket se chama “Questions Are Everything”, tudo vira pergunta. Segui a receita: no instante em que ouvi a voz e a imagem de Rick Rubin abrindo o filme, parei para entender do que se tratava.

Para quem não conhece, a Polymarket é uma espécie de bolsa de valores da realidade. Em vez de comprar ação de empresa, você compra uma posição sobre se um evento real vai acontecer ou não. Vai ter acordo de paz até dezembro? Qual seleção cai nas oitavas? A plataforma cresceu rápido justamente em grandes eventos, eleição americana, guerra, agora a Copa, porque cada manchete vira um mercado novo para apostar. Só o mercado sobre quem vence a Copa já girou quase 4 bilhões de dólares, com a França na frente a 35% de chance.

“Questions Are Everything” percorre 15 países com um filme de 75 segundos, estrelado por Future e Peso Pluma, com cortes locais para Argentina, Portugal, Senegal, Grã-Bretanha e França. Cada versão traduz uma pergunta real de algum mercado daquele país para a linguagem da rua. Quem abre o filme, no primeiro take, é Rick Rubin.

Rubin produziu Beastie Boys, System of a Down, Johnny Cash, Adele, Kanye, gêneros que não conversam entre si, mas há anos não é conhecido pelo que produz, e sim pelo que recusa produzir. Virou referência para uma geração de criativos com o livro “The Creative Act”, que resume a carreira dele numa ideia só: dizer não para quase tudo que parece óbvio. Ele não é o nome mais visto do mercado. É o mais confiável para julgar o que merece existir, em qualquer gênero.

Dá para ler o case de um jeito. A Polymarket comprou esse crédito porque visibilidade já tinha de sobra com a Copa lotando os feeds do planeta. Comprou o direito de ser levada a sério por um homem cuja vida inteira é filtrar sinal de ruído.

Rubin não foi o único crédito que a Polymarket andou comprando. A mesma Polymarket recebeu um aporte de até US$ 2 bilhões da ICE, a empresa que controla a Bolsa de Nova York, numa rodada que avaliou a startup em US$ 8 bilhões. No mesmo período, convenceu a CFTC, reguladora americana de mercados futuros, a recuar de uma proposta que iria restringir o setor, e colocou o próprio CEO no 60 Minutes. Dinheiro institucional, aval regulatório, mídia tradicional, e agora cultura. Contratar quem passou a vida dizendo não para o óbvio é a forma mais elegante de dizer: pode confiar, isso aqui é sério.

Só que precisar provar isso com tanta insistência, ao mesmo tempo em Wall Street, em Washington, e agora em estúdio de gravação, também é uma confissão. Ninguém compra tanta credibilidade de uma vez só se já tiver a que precisa.