Opinião

Um português nunca dantes navegado

Com a popularização da IA, parece que todo mundo soltou a língua como se qualquer um tivesse algo a dizer, completando o ciclo da desvairada tagarelice iniciado com as redes sociais

Fernand Alphen

CSO da Propeg 21 de julho de 2026 - 14h00

O povo anda escrevendo muito.

Qualquer post nas redes sociais sai com fluxos de consciência sofisticados, verdadeiros ensaios que capricham na variedade léxica digna de um linguista. O mundo corporativo, suas armas e barões assinalados, virou uma explosão verborrágica. A frugalidade enfadonha e egocêntrica deu lugar a uma formalidade estilística caprichada. E quanto maior, mais adjetivado e cheio de palavras novas for o texto, mais desprovido de humor, metáforas e ideia ele será.

“No mar tanta tormenta, e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida!

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade avorrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme, e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?”

Tempos de usar inteligência artificial (IA) desavergonhadamente.

Vamos combinar que um português com sintaxe, gramática, pontuação e ortografia corretas é melhor do que a versão maltratada da língua que se via até pouco tempo atrás. Mas a correção tem seu preço: parece que todo mundo soltou a língua como se qualquer um tivesse algo a dizer. A popularização da IA completa o ciclo da desvairada tagarelice iniciado com as redes sociais. Com as redes, perdemos o recato. Com IA, perdemos a humildade.

Mas vamos combinar que a incontinência verbal também estabelece um marcador interessante: a originalidade se situa acima daquilo que a IA é capaz de produzir. Muito rapidamente, essas plataformas foram capazes de criar uma média de produção de conteúdo. Uma média boa já que ela é capaz (para além do português) de resumir o pensamento mínimo denominador comum de tudo o que já foi produzido sobre qualquer assunto. Isso é bom porque nivela o ponto de partida: tudo o que for pior ou igual, não presta.

Por exemplo, vamos pedir para o seu agente criar uma ideia de decoração para sua casa, um texto sobre estresse pós-traumático, um look quiet luxury para você, um meme para zombar de seu colega, um artigo sobre IA para seu LinkedIn, um slogan, um logo, uma imagem-de-um-jovem-tomando-cerveja-vendo-um-jogo-­da-copa-e-se-divertindo-a-valer-com-o-vini-junior-que-está-sentado-com-ele-na-mesa-do-bar. Pronto, fez? Ficou bom? Quer dar um tapinha? Dá um tapinha. Dois tapinhas, meia dúzia de tapinhas. Melhorou? Ótimo. Pois bem, agora você já sabe: você tem que fazer daquilo para melhor. Mais original, mais divertido, mais metafórico, mais de um jeito que nenhuma IA conseguiria fazer. Esse é um método.

Mas para quem tiver alguma nesga de talento, de vergonha na cara, de ambição, por que não começar pensando com seus próprios neurônios? Fazer com seu repertório, sua sensibilidade, antes de sair, destrambelhado, alimentando um prompt?

Por que não se preocupar também com seu ofício amanhã, quando essa IA da média sem graça finalmente tiver aprendido alguma humanidade, algum charme, alguma poética?

“Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho

Destemperada e a voz enrouquecida!”

Mas antes de tudo, por que não se perguntar para que serve aprender, pensar, desenhar, pintar, dançar, escrever?

Tal Luís de Camões, cansamos. Já?