Opinião - Rodrigo Tigre

O futuro mensurável do áudio já está pronto no Brasil

Atribuição e incrementalidade deixaram de ser promessas; podcasts, rádios digitais e web rádios já podem compor uma estratégia always on de construção de marca e geração de resultados.

Rodrigo Tigre

Cofundador e Presidente da Ozen.fm 10 de setembro de 2026 - 6h00

Recentemente, o IAB US (Interactive Advertising Bureau) publicou o estudo Unlocking the Power of Data-Driven Audio. O documento parte de uma constatação simples: durante muito tempo, a capacidade do áudio de gerar resultados avançou mais rapidamente do que as ferramentas usadas pelo mercado para demonstrá-los.

Esse descompasso consolidou uma percepção que ainda influencia os planos de mídia: o áudio seria importante para alcance e marca, mas difícil de medir. Isso pode ter feito sentido no passado. Hoje, essa realidade mudou.

Quando o IAB fala em áudio, não está falando apenas de podcasts. O estudo considera rádio, streaming, podcasts, rádios online, áudio em games e dispositivos conectados. É uma definição importante para o Brasil, onde rádios digitais e web rádios oferecem ambientes ao vivo, programação contextualizada e alcance regional ou nacional.

A principal contribuição do documento não é mostrar que o áudio tem escala. Isso já está demonstrado. Nos Estados Unidos, o áudio digital alcança 220 milhões de pessoas por semana, ou 76% da população com 12 anos ou mais.

O avanço realmente importante está na capacidade de conectar essa audiência aos sistemas de planejamento, ativação e mensuração já utilizados pelas marcas nos demais canais.

O áudio tornou-se observável.

Logs de exposição, dados primários, pixels de conversão, resolução de identidade, sinais contextuais e modelos de marketing mix permitem relacionar uma impressão de áudio a visitas, instalações, vendas, brand lift, ROAE (Return on Advertising Spend) e incrementalidade. Mais do que saber se uma campanha gerou resultado, passa a ser possível estimar quanto desse resultado não aconteceria sem o áudio.

Os casos apresentados pelo IAB dimensionam essa transformação. Em uma campanha analisada por The Trade Desk, o áudio adicionou 25% de alcance incremental a uma estratégia que já utilizava CTV e mídia out-of-home. Em outro estudo, a sobreposição entre as audiências de streaming de áudio e streaming de TV foi de apenas 1,2%. O áudio entregou 75% de alcance incremental em relação ao streaming de TV.

Esse é um ponto especialmente relevante para o Brasil. Em um mercado no qual boa parte do investimento digital está concentrada nas mesmas plataformas, alcançar novamente as mesmas

pessoas não é necessariamente ampliar alcance. Muitas vezes, é apenas aumentar a frequência sobre uma audiência já saturada.

O novo Podscribe Performance Benchmark Report reforça essa evolução. O estudo analisa mais de 34 bilhões de impressões, 98 mil campanhas e 700 anunciantes. Embora seus benchmarks gerais reflitam principalmente campanhas dos Estados Unidos, as metodologias descritas já podem ser aplicadas internacionalmente.

Campanhas exclusivamente de podcasts apresentaram incrementalidade mediana de compra de 23%, acima dos 14% observados nas campanhas exclusivamente de streaming de áudio. Segundo o Podscribe, os podcasts continuam alcançando audiências menos saturadas por outros canais digitais.

O relatório também explica por que códigos promocionais e URLs personalizadas mostram apenas parte do resultado. A atribuição por pixel capturou 4,3 vezes mais conversões do que esses métodos. O consumidor pode ouvir um anúncio no celular e comprar dias depois em outro dispositivo. Sem conectar essa jornada, o resultado acaba atribuído ao canal que participou apenas do final do processo.

Nos testes de retargeting apresentados pelo Podscribe, pessoas que visitaram o site de um anunciante e receberam depois um anúncio em áudio apresentaram uma taxa de compra atribuída 5,5 vezes maior do que a observada em campanhas convencionais de podcast. O próprio relatório ressalva que nem todo esse resultado é necessariamente incremental. Ainda assim, mostra que o áudio também pode participar de estratégias de consideração e conversão.

A provocação é que não precisamos esperar essa infraestrutura chegar ao Brasil. Ela já está disponível.

Uma campanha pode combinar podcasts, rádios digitais, webrádios e outros ambientes de streaming. Pode utilizar inserção dinâmica, segmentação por contexto, região, horário ou audiência, controle de frequência, troca de criativos e relatórios de exposição. Pixels permitem acompanhar visitas, cadastros, instalações e vendas. Testes com grupos expostos e não expostos ajudam a calcular lift e incrementalidade.

Cases bem sucedidos de marcas que se dedicam a estratégias always on e a entender a contribuição do canal para uma jornada concreta de negócio representam uma mudança de mentalidade. A pergunta deixa de ser “o áudio funciona?” e passa a ser “como podemos fazê-lo funcionar melhor?”.

Porém, boa parte das campanhas ainda trata podcasts e rádios digitais como ações pontuais. Escolhe-se um programa ou uma estação, compra-se um curto período e encerra-se o projeto antes que haja tempo para construir frequência, comparar resultados e aprender.

Esse modelo pode limitar o que o áudio tem de mais valioso: recorrência, contexto, vínculo e continuidade. Marcas não são construídas em flights isolados. São construídas por presença consistente.

Com anúncios dinâmicos, uma marca pode permanecer always on em uma rede de podcasts, rádios digitais e web rádios. Pode atualizar sua mensagem, testar criativos, comparar contextos e otimizar a campanha enquanto ela acontece. Cada impressão gera alcance, mas também aprendizado.

Tornar o áudio mensurável não significa reduzi-lo ao último clique. O papel dos dados não é transformar toda campanha de marca em performance. É revelar como marca e performance se conectam.

No curto prazo, medimos conversões e eficiência. No médio e longo prazo, alcance incremental, frequência, lembrança e consideração. Em vez de desligar a campanha antes que ela acumule aprendizado, a marca constrói uma base contínua de evidências.

O mercado brasileiro possui audiência, inventário, tecnologia e ferramentas de conversão. Possui também um ambiente de áudio ainda pouco congestionado por publicidade, no qual as marcas podem ocupar territórios com mais clareza do que em feeds e telas saturadas.

O que falta não é capacidade técnica. É transformar possibilidade em estratégia.

A discussão já não deveria ser se o áudio pode ser medido. Deveria ser por que tantas marcas ainda não mantêm presença contínua em um canal que oferece atenção, alcance incremental, construção de marca e atribuição.

O IAB mostrou que o futuro do áudio é orientado por dados. Cases de sucesso começam a mostrar que, no Brasil, esse futuro já está no ar.