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O voo de uma lembrança: o que aprendemos com Dumont e Piaget

Seriam as memórias uma construção de algo que, de fato, vivemos, ou do que nossa mente gostaria de se lembrar?

Sebastião Rinaldi

Jornalista 11 de setembro de 2026 - 6h00

Memória é bem aquele tipo de assunto que dá pano para manga – e, claro, opiniões. Há quem prefira esquecer. Há quem defenda a criação de memoriais para que as atrocidades humanas não se repitam. Às vezes, fico me perguntando: de fato, lembramos dos acontecimentos como eles são ou seria tudo uma mera versão editada, como uma reportagem ou um documentário?

Por tempos, Jean Piaget se lembrava de um suposto sequestro, ainda na primeira infância (aos dois anos), cujo desfecho positivo teve como protagonista sua babá. O pedagogo suíço recordava o episódio com detalhes. A cuidadora chegou a ser premiada. Um ato! Até que… A profissional, posteriormente convertida a uma religião, veio a público dizer que aquilo não passava de uma fraude. Mas o salvamento não era algo tão vívido na mente do autor suíço? Xeque.

Certa vez, comentei com meu pai sobre uma imagem que me vinha à mente. Eu estaria nos seus braços, em um espaço suntuoso, ao ar livre, cercado por aviões. “Você não pode se lembrar disso”, ele me questionou. O local em questão era o museu de Cabangu, em Santos Dumont (Minas Gerais), onde minha família viveu por pouco tempo até os meus dois anos de idade.

Será que nosso cérebro voa longas distâncias neurológicas, como nesse caso, ou isso seria uma neura minha? Podemos ter um registro tão antigo assim, a exemplo dessa minha visita ao museu ainda como um bebê de colo, ou tudo não passava de algum caso de almoço de domingo, introjetado como recordação? Não saberemos. Contudo, a conversa, de fato, virou uma memória, o que por si só constitui verdade. E uma história para contar.

Por falar no aviador, foi Santos Dumont quem popularizou o relógio de pulso masculino, por estar farto de pegar o item de bolso sempre que necessário. O modelo feminino já existia, uma criação de outro suíço, o Abraham-Louis Breguet. A versão do ilustre Alberto foi feita em parceria com o Cartier (o que a publicidade poderia denominar cobranding, um dia, pode ter sido um coloquial “tive uma ideia, embarca comigo?”). Se, hoje, muitos podem contar os passos, usando um smartwatch, o mundo certamente deve aplausos, ainda que parcialmente, à criatividade brasileira.

Talvez Santos Dumont quisesse carregar o tempo consigo, para além da praticidade mencionada como motivo. Ou quiçá pensasse que teria mais controle das suas recordações, posto que tempo é memória (e vice-versa). Tampouco saberemos.

Os tempos mudaram. A aviação comercial alçou voo para outros solos e a torre de comando não está mais sob a batuta de Alberto Santos Dumont. Há quem creia que ele tirou a própria vida ao ver as barbaridades feitas por sua obra-prima, a aeronave, usada como instrumento

de guerra. Possivelmente, não queria se lembrar. Acho que ninguém gostaria. Ou teria sido ele uma vítima das máculas da saúde mental adoecida, uma dor da humanidade e um assunto tão profuso atualmente, mas por muito tempo mantido sob o tapete dos lares?

Não vamos ter essa ciência, infelizmente. Sabemos apenas o que nos permitimos saber, quando perpetuamos conhecimento a partir do que lembramos – ou gostaríamos de lembrar.