O valor do improvável
Por que precisamos recuperar nossa capacidade de nos surpreender
Tenho me perguntado se não estamos ficando bons demais em prever e, talvez por isso, um pouco piores em nos surpreender.
É uma sensação que me acompanha quando penso em criatividade, inovação e construção de marcas. Vivemos em um mundo cada vez mais eficiente, planejado e direcionado. Algoritmos antecipam comportamentos, plataformas conhecem nossos hábitos, dados ajudam a prever escolhas. A IA amplia nossa capacidade de produzir, combinar e testar ideias antes mesmo que elas cheguem ao mundo.
Ganhamos muito com isso. Nunca tivemos tantos recursos para reduzir incertezas e tomar decisões melhores. De um lado, isso é ótimo. Mas já parou pra pensar como tudo está ficando certinho e esperado demais?
Talvez exista um efeito colateral nessa busca permanente por previsibilidade: o estreitamento do espaço para o inesperado.
E é aí que começo a pensar em uma possível “crise do encantamento”, como mais uma tensão do nosso tempo. Não porque tenham desaparecido as coisas capazes de nos surpreender, mas porque talvez estejamos perdendo a disponibilidade para encontrá-las. Encantar-se é mais do que ser surpreendido. É ser arrebatado. É quando alguma coisa interrompe o fluxo automático da vida e nos faz olhar de novo. Uma imagem, uma música, uma ideia, uma experiência. Algo que provoca espanto, desloca a percepção e nos atravessa. Ao mesmo tempo, nos afeta e afeta a vida ao nosso redor.
O encantamento depende, de alguma maneira, de não saber exatamente o que vem depois. Só que estamos construindo um mundo que parece cada vez mais empenhado em nos contar o que vem depois.
O algoritmo conhece nossos gostos. A plataforma sabe o que provavelmente vamos escolher e quando. A IA responde antes que a pergunta esteja completamente formulada. E as marcas testam, mensuram e otimizam suas ideias antes de colocá-las no mundo.
Oscar Niemeyer tem uma frase que me marca muito: “A arquitetura tem que
causar surpresa e espanto. Tem que criar emoção.” E a potente Maria Bethânia disse em uma entrevista: “Eu gosto de viver com a realidade, mas com algum delírio. Porque só a realidade pra mim é insuportável.” Lindo isso.
Ficamos ótimos em entregar realidade, e sem lugar nenhum para guardar o delírio. Sem causar surpresa. Sem gerar o espanto. E se resgatássemos essa dose de “delírio” e de causar espanto com arrebatamento? Talvez as marcas e a comunicação em geral estejam precisando desse passo de coragem e sair do dilema de como criar aquilo que as pessoas ainda não sabem que querem, quando passamos tanto tempo tentando descobrir o que elas já querem.
O novo não cabe inteiramente no que já conhecemos. Pode nascer de uma pergunta diferente, de uma conexão improvável, de uma referência distante, de um desvio. É nesse espaço que encontro o valor do improvável. Não como defesa do acaso ou do diferente pelo diferente, mas como abertura: para a curiosidade, para novas conexões, para aquilo que ainda não conseguimos prever.
Foi dessa inquietação que criei para mim algumas “práticas do improvável”: seis práticas para recuperar, no cotidiano, nossa disponibilidade para o inesperado.
- Colecione repertório, não referências Uma coisa por semana que não tenha nada a ver com o que você faz. Um livro, uma exposição, uma música, uma conversa. Sem utilidade prevista. Referência você copia. Repertório você transforma.
- Ande com quem desloca você Procure quem traz outros mundos, outras perspectivas, outras perguntas. A pessoa mais útil da sua semana talvez seja aquela que faz você mudar de lugar para pensar.
- Proteja o tempo que não produz nada A caminhada sem podcast. O trajeto sem tela. O banho sem pressa. O acaso também trabalha, mas precisa de espaço para ser percebido.
- Guarde sem saber para quê Um print, uma frase, um desenho, um recorte. Nem tudo precisa ter utilidade imediata. Mas se te chamou atenção de alguma forma, guarde. Algumas coisas precisam apenas esperar pela conexão certa.
- Confie nos desvios Nem todo experimento precisa dar certo. Nem toda ideia precisa nascer pronta. Nem todo erro merece ser corrigido. Alguns merecem ser explorados.
- Cultive a boniteza
Gosto demais palavra porque ela diz muito mais do que beleza. Tem algo de mais vivo, mais afetivo, mais próximo. É mais do que “beleza” porque não é apenas sobre aquilo que é bonito. É sobre aquilo que nos toca. Uma música que faz parar, uma imagem que fica, uma conversa que muda alguma coisa, um lugar que dá vontade de mostrar a alguém. Boniteza é uma experiência de encontro: entre o mundo e quem se deixa atravessar por ele.
A boniteza pede para circular e cultivar.
No fundo, essas práticas são só algumas maneiras que encontrei para estarmos mais disponíveis para o mundo.
Esse pra mim é o verdadeiro valor do improvável: a capacidade de gerar surpresa, impacto e arrebatamento. Quem sabe, assim, possamos devolver às marcas uma capacidade que o excesso de previsibilidade pode estar nos fazendo perder: a de encantar.
Que venha o improvável.