Opinião

Quando a IA passa a comprar, em qual marca ela vai confiar?

Com o avanço do Agentic Commerce, confiança ganha um novo peso na relação entre consumidores, marcas e inteligência artificial

Daniella De Caprio

Head de Comunicação do PayPal para América Latina 11 de setembro de 2026 - 14h00

Imagine pedir para um assistente de IA encontrar o melhor presente de aniversário, comparar três opções, escolher uma e finalizar a compra sem que você veja uma vitrine, leia uma descrição de produto ou digite um número de cartão. Esse cenário já não é ficção. É o que se chama de Agentic Commerce, e ele levanta uma pergunta simples, mas incômoda: quando um agente de IA passar a comprar por você, por que ele vai escolher determinada marca? E por que você vai confiar que ele conclua essa compra em seu nome?

Essa pergunta importa porque não é só sobre tecnologia. Ela atravessa comportamento do consumidor, comunicação e pagamentos — justamente o ponto em que marcas, meios e infraestrutura financeira vão precisar aprender a trabalhar juntos.

Nos últimos anos, a IA generativa virou ferramenta de busca e inspiração: perguntamos, comparamos, pedimos recomendações. Agora, começa a avançar sobre outras etapas da jornada, participando também da comparação de ofertas e da conclusão da compra.

Isso já começa a acontecer. Nos Estados Unidos, a Perplexity fechou uma parceria com o PayPal para permitir que o usuário compre um produto, reserve uma viagem ou compre um ingresso sem sair da conversa. A OpenAI também adotou o Agentic Commerce Protocol e integrou o Instant Checkout ao ChatGPT.

O consumidor continua no centro da decisão, mas não faz mais tudo sozinho. E delegar exige confiar.

Por muito tempo, a disputa entre marcas foi por espaço: posição no buscador, destaque no marketplace, engajamento na rede social. Essa disputa não desaparece, mas ganha uma camada nova. Se um agente de IA vai pesquisar, comparar e comprar em nome de alguém, não basta que uma marca seja conhecida ou apareça na hora certa. Ela precisa ser uma opção em que o consumidor confie o suficiente para permitir que parte dessa decisão aconteça sem sua supervisão direta.

Isso dá outro peso à reputação, histórico de experiência e credibilidade. Uma marca conhecida por entregas atrasadas, devoluções complicadas ou atendimento ruim não compromete apenas a próxima venda. Compromete também a confiança necessária para que o consumidor aceite delegar etapas da compra.

E quanto mais autonomia se dá ao agente, mais importante se torna saber o que acontece nos bastidores. Se ele conclui uma compra, como garantir que aquela transação foi realmente autorizada pela pessoa? Como evitar que um erro ou uma fraude se transforme em uma compra indesejada? Como proteger identidade, dados financeiros e preferências do consumidor sem devolver fricção a uma experiência que deveria ser mais simples?

É aí que o pagamento deixa de ser apenas a última etapa da jornada. Segurança, autenticação e proteção passam a sustentar uma experiência em que o consumidor já não necessariamente vê ou confirma cada passo. E isso importa para as marcas porque confiança não se constrói apenas no momento da transação.

Ela começa antes: na forma como a empresa comunica seus produtos, trata dados, resolve problemas e cumpre o que promete. São experiências que sempre influenciaram reputação e preferência, mas que ganham outra dimensão quando o consumidor passa a delegar decisões à inteligência artificial.

Talvez essa seja a mudança mais relevante para as marcas. Durante muito tempo, boa parte do esforço de marketing esteve concentrada em ser visto, lembrado e escolhido. Nada disso deixa de importar. Mas, em uma jornada na qual a IA também passa a agir, existe uma condição anterior: ser confiável o suficiente para que o consumidor aceite abrir mão de parte do controle sobre a compra.

O Agentic Commerce ainda está em construção. Mas as parcerias que já começam a surgir entre plataformas de IA e empresas de pagamento mostram que a discussão deixou de ser apenas uma hipótese sobre o futuro. Marketing, experiência do consumidor e infraestrutura digital vão precisar estar mais próximos porque, nessa nova dinâmica, confiança não é apenas um atributo de marca. É o que torna possível delegar.

Quando uma IA puder comprar por nós, portanto, a pergunta não será apenas qual marca queremos escolher. Será também em quais marcas confiamos o suficiente para deixar que ela escolha em nosso lugar.