Opinião

A indústria que se diz obcecada por gente, mas odeia envelhecer

A obsessão pela juventude virou uma desculpa elegante para não sustentar nada por tempo suficiente

Igor Puga

Líder de marketing e growth do PicPay 20 de abril de 2026 - 8h00

A publicidade adora falar de pessoas. Personas, jornadas, dores, desejos, tensões culturais. O vocabulário é sempre humanizado. O paradoxo é que, na prática, a indústria tem uma relação profundamente mal resolvida com o traço humano elementar: envelhecer.

E aqui não falo apenas de idade biológica. Falo de tempo, de acúmulo, de repertório, de insistência. De ideias que precisam de maturação. De carreiras que precisam de fricção. De marcas que não se constroem na velocidade de um refresh.

Existe hoje um culto quase religioso ao “novo” que confunde frescor com descartabilidade. Tudo precisa ser mais rápido, mais recente, mais reagente. Estratégias nascem já com prazo de validade. Projetos são abandonados antes de aprender a andar. Posicionamentos mudam não porque evoluíram, mas porque cansaram. O mercado costuma explicar isso como adaptação. Muitas vezes é só impaciência.

A obsessão pela juventude virou uma desculpa elegante para não sustentar nada por tempo suficiente. O discurso da experimentação serve, convenientemente, para mascarar a ausência de responsabilidade. Se não deu certo, era piloto. Se não funcionou, era teste. Se não amadureceu, era MVP. Errar rápido virou sinônimo de não responder por nada.

Só que movimento não é evolução. Volume não é profundidade. Velocidade não é inteligência.

Existe uma diferença brutal entre aprender rápido e nunca se comprometer. Entre atualizar linguagem e apagar história. Entre ser contemporâneo e ser descartável. A indústria criativa, que deveria ser especialista em construir significado ao longo do tempo, parece cada vez menos disposta a conviver com o próprio passado, inclusive com seus próprios erros, que são parte fundamental de qualquer amadurecimento real.

E aqui entra um ponto incômodo, mas inevitável: a tecnologia, especialmente a inteligência artificial, não apenas acompanha essa ansiedade, mas a amplifica. Ferramentas de LLM existem para acelerar. Para reduzir atrito. Para transformar horas em minutos. Isso é ganho de eficiência, sim. Mas também cria uma nova régua de expectativa. Quando tudo pode ser feito mais rápido, tudo passa a parecer lento. Inclusive gente. Inclusive pensamento. Inclusive silêncio.

A indústria passou décadas reclamando da pressão do tempo. Agora ela contratou máquinas para tornar essa pressão permanente.

Ideias que antes precisavam de dias agora surgem em segundos. Textos que exigiam maturação aparecem instantaneamente. Referências se acumulam sem digestão. O problema não é a tecnologia em si, mas o uso preguiçoso dela como substituta de reflexão e não como ferramenta a serviço dela.

O efeito colateral é claro: aumentamos a produção e reduzimos o valor médio de cada coisa que fazemos. Criamos mais, sustentamos menos. Entregamos mais rápido, esquecemos mais rápido ainda.

Nesse cenário, envelhecer, no sentido de acumular camadas, manter coerência ao longo do tempo, sustentar uma visão mesmo quando ela deixa de ser tendência, vira quase um ato de rebeldia. Porque maturidade exige frustração. Exige repetição. Exige insistência quando o mercado inteiro está gritando por novidade.

Curiosamente, as marcas mais fortes que conhecemos não têm medo de envelhecer. Elas mudam, mas não se negam. Acumulam contradições, ajustes, cicatrizes. Não são coerentes porque nasceram prontas, mas porque aprenderam a mudar sem apagar o que veio antes.

O mesmo vale para profissionais. Repertório não se constrói pulando de hype em hype. Domínio não nasce de experiência rasa empilhada. Existe um valor subestimado em ficar tempo suficiente em um problema para entendê-lo de verdade (algo cada vez mais raro em um mercado que confunde inquietação com profundidade).

Talvez o maior risco não seja a velocidade em si, mas a falta de critérios sobre o que merece tempo. Nem tudo precisa ser rápido. Nem tudo deve ser escalável. Nem toda resposta precisa existir agora.

Num mercado obcecado por juventude, talvez o verdadeiro gesto criativo hoje seja sustentar uma ideia tempo suficiente para que ela deixe de ser promessa e vire responsabilidade. Porque inovação sem memória não constrói futuro, constrói só barulho vazio.