O mito da resistência como mérito
A capacidade de continuar funcionando virou critério de valor e isso tem um preço
Recentemente, o Ministério da Previdência Social divulgou os dados mais atuais sobre afastamentos por transtornos mentais no Brasil, com base nos anos de 2022 a 2024. O ranking é liderado por profissões mais operacionais, de alta pressão e baixa autonomia. Publicidade não aparece entre as primeiras posições.
Essa constatação poderia sugerir que a publicidade oferece menor exposição ao adoecimento mental, mas essa seria uma leitura imprecisa. O que está sendo medido ali não é o adoecimento. É o afastamento. Entre uma coisa e outra, existe um espaço que merece reflexão.
Segundo a World Health Organization, o burnout é caracterizado por exaustão, distanciamento emocional e perda de eficácia profissional, mas não é classificado como doença. Na prática, isso significa que é possível estar profundamente comprometido e, ainda assim, não haver recomendação médica de afastamento, descompasso que ajuda a explicar por que alguns setores não aparecem no topo do ranking, apesar de apresentarem níveis elevados de desgaste.
Pesquisas da World Federation of Advertisers indicam que entre 60% e 70% dos profissionais de marketing relatam sintomas de burnout. Globalmente, a International Labour Organization estima que ansiedade e depressão resultam na perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, mas não mede quantos dias são trabalhados por profissionais em processo de adoecimento, estimulados a seguir por uma cultura que transforma resistência em medida de mérito.
O problema não é marginal. É estrutural. E pode estar presente em diferentes setores, com destaque para funções menos operacionais e de alta autonomia — exatamente o contrário dos setores que lideram o ranking do Ministério da Previdência Social — e se ancora em uma lógica antiga: valor associado à capacidade de resistir. Por muito tempo, excelência significou suportar mais, ir além, entregar independentemente da natureza dos obstáculos.
Sou filha desse lugar. Há dois anos e meio, depois de um diagnóstico de câncer de mama, decidi seguir trabalhando durante o tratamento. Uma decisão respaldada por médicos, que me levou a recusar o afastamento sugerido pela empresa onde trabalho. Eu resisti. Só parei quando não aguentei mais — e isso não foi melhor para ninguém —uma escolha atravessada por uma lógica maior do que uma circunstância individual.
No mundo em que vivemos, resistir é valor e medida. Um valor que nos coloca em oposição ao próprio limite e uma medida que nos credencia ao reconhecimento e mérito.
Líderes ainda seguem sendo formados dentro dessa lógica, aprendendo que limites de tempo ou de condição de trabalho fragilizam, que pausas comprometem o desempenho e que a vulnerabilidade desorganiza a autoridade. Essa realidade gera lideranças incapazes de perceber, em si e no outro, sinais de esgotamento.
É nesse ponto que a responsabilidade cognitiva deixa de ser um conceito e passa a ser uma exigência: a capacidade de revisar modelos mentais, questionar a associação entre valor e exaustão e sustentar decisões mais conscientes, inclusive sobre si.
Uma boa notícia é a atualização da NR-1, com vigência a partir de 26 de maio de 2026, que reconhece riscos psicossociais, como estresse, sobrecarga e assédio, como parte da gestão dos riscos ocupacionais geradores de adoecimento mental. Um enquadramento necessário, que transforma o que muitas vezes era tratado como experiência subjetiva em responsabilidade organizacional formal.
O avanço é inegável. Mas trata-se de um desafio cultural profundo, que precisa ser encarado de frente ao exigir, na forma de mapeamento de riscos e ações preventivas, a revisão de modelos que têm sustentado nosso sistema produtivo.
Estamos sendo convidados a reconhecer que continuar funcionando sob exaustão não é sinal de força. É adaptação à ausência de limite. E isso tem um preço que, pelo bem comum, precisamos decidir parar de pagar.