Opinião

Quando a tecnologia desaparece

Toda grande inovação muda menos o comportamento humano do que imaginamos; muda, principalmente, aquilo que passamos a esperar das experiências

Chiara Martini

Diretora Senior, Integrated Marketing Experience Latam - The Coca-Cola Co. 27 de julho de 2026 - 14h00

As grandes tecnologias não vencem quando aparecem. Vencem quando desaparecem. Pode parecer contraditório. Afinal, toda inovação nasce disputando atenção. Domina manchetes, ocupa os palcos dos grandes eventos, pauta uma infinidade de reuniões e rapidamente se torna a resposta para praticamente qualquer pergunta sobre o futuro. O ciclo costuma ser o mesmo: entusiasmo, experimentação, ansiedade e uma corrida coletiva para não ficar para trás. Mas basta olhar para as maiores revoluções tecnológicas das últimas décadas. A eletricidade desapareceu. O GPS desapareceu. O wi-fi desapareceu. A internet desapareceu. Nenhuma delas perdeu importância. Aconteceu exatamente o contrário. Tornaram-se tão presentes, que deixaram de ser percebidas. Deixaram de ser diferencial. Viraram pressuposto.

Hoje, ninguém escolhe um restaurante porque oferece wi-fi. Nem um carro porque tem GPS. Nem um e-commerce porque aceita Pix. Tudo isso continua sendo essencial. Apenas deixou de ser motivo de escolha. Quando uma tecnologia amadurece, deixa de ser atributo e passa a ser expectativa. Esse talvez seja o destino de toda grande inovação.

A inteligência artificial (IA), hoje, ocupa exatamente o lugar oposto. Está nas apresentações para conselhos, nas conversas com investidores, nas pautas dos eventos e nos e-mails das lideranças. As perguntas que dominam o mercado giram em torno de como adotá-la, acelerar sua implementação e extrair vantagem competitiva dela. Mas o palco nunca foi o destino final de uma grande tecnologia. Toda grande inovação tecnológica muda menos o comportamento humano do que imaginamos. Muda, principalmente, aquilo que passamos a esperar das experiências. O Spotify não nos ensinou a gostar de música. Nos ensinou a esperar recomendações personalizadas. A Amazon não nos ensinou a comprar. Nos ensinou a esperar conveniência. O streaming não nos ensinou a assistir a filmes. Nos ensinou a esperar acesso imediato, variedade e liberdade de escolha. Em comum, todas essas tecnologias fizeram a mesma coisa: transformaram diferenciais em expectativas. E, quando uma expectativa se consolida, deixa de ser percebida como inovação. Passa a ser simplesmente o mínimo esperado. É nesse momento que a tecnologia desaparece. Não porque ficou menos relevante. Mas porque ficou indispensável. E, justamente por isso, deixou de diferenciar. Essa lógica ajuda a explicar um movimento curioso que estamos vivendo.

Durante quase vinte anos, tentamos tornar o digital mais humano. Criamos stories para aproximar pessoas. Lives para reproduzir encontros. Comunidades para fortalecer pertencimento. Chamadas de vídeo para diminuir distâncias. O esforço das últimas duas décadas foi traduzir relações profundamente humanas para o ambiente digital. Agora

começamos a assistir ao movimento inverso. Não porque estejamos abandonando a tecnologia. Muito pelo contrário. Ela continua presente em praticamente todos os momentos da nossa rotina. O que mudou foi o papel que ocupa. Cada vez mais, o digital deixa de ser o lugar onde a experiência acontece para se tornar o lugar onde ela começa. Descobrimos um restaurante pelo Instagram, mas queremos nos sentar à mesa. Conhecemos uma banda pelo TikTok, mas compramos ingresso para o show. Entramos em um grupo de corrida pelo WhatsApp, mas é correndo ao lado de outras pessoas que construímos pertencimento. A tecnologia continua conectando toda a jornada. Mas já não é ela que dá sentido à experiência.

Talvez seja por isso que vemos marcas voltando a investir em festivais, comunidades, clubes, corridas de rua, ativações, pop-ups, encontros presenciais, experiências de forma geral. Não porque o físico venceu o digital. Essa nunca foi a disputa. Quanto mais a tecnologia resolve os aspectos funcionais da experiência, menos se torna o centro dela. É justamente nesse espaço que reaparece aquilo que nunca deixou de importar. Pertencimento. Confiança. Afeto. Significado. Nós passamos vinte anos tentando tornar o digital mais humano. Talvez passemos os próximos vinte tentando tornar as experiências humanas mais memoráveis do que qualquer tecnologia consegue ser.

Não porque a tecnologia tenha falhado. Mas porque, finalmente, cumpriu seu papel. As grandes tecnologias sempre caminham para a invisibilidade. Quando deixam de disputar nossa atenção, abrem espaço para que o diferencial volte a ser aquilo que elas nunca conseguiram fabricar sozinhas: conexões, emoções e histórias que permanecem depois que a experiência termina. A IA também desaparecerá. Não porque perderá importância, mas porque deixará de ser o motivo pelo qual escolhemos interagir com uma marca, um produto ou uma experiência. Como aconteceu com todas as grandes tecnologias antes dela. Quando toda marca tiver IA, ficará evidente que o que continuará sendo desejado não é a tecnologia, mas a nossa capacidade de criar experiências pelas quais as pessoas realmente se importam. A tecnologia nunca foi o destino da experiência. Sempre foi o caminho.