Ser indie é punk
A digitalização e o avanço das plataformas globais não causaram na publicidade os mesmos efeitos que tiveram na música, onde os independentes ganharam oportunidades de avançar mesmo sem grandes gravadoras
Surgido no mundo artístico, mais especificamente na cena punk dos Estados Unidos e da Inglaterra, na virada da década de 1970 para a de 1980, o termo indie definia artistas, bandas e selos de gravadoras pequenas que produziam e lançavam suas obras fora do circuito das grandes gravadoras multinacionais. Emprestada para o mercado da publicidade, a abreviação de independente tinha, originalmente, o mesmo propósito, de nomear pequenas agências que queriam se desenvolver sem as amarras e a burocracia das holdings globais que dominam o setor.
Na real, essa é uma luta muitas vezes inglória, como bem descreveu o colunista Ian Black em artigo publicado no início do mês (“Agências independentes: heróis de uma causa perdida”), com a perspectiva de quem vive essa realidade por dentro. Por outro lado, é importante reconhecer que, apesar das enormes dificuldades, as agências indie injetam importantes doses de coragem e originalidade na indústria, estimulam novos modelos de trabalho, de precificação e de composição societária. Uma das maiores dificuldades é sobreviver sem a musculatura gerada pelas grandes verbas, sobretudo as das marcas que mais investem em mídia.
No conjunto dos maiores anunciantes atuantes no Brasil, aparentemente diminuiu a abertura para experimentação, na medida em que cresceram as cobranças por resultados imediatos e otimização. O acesso às maiores contas depende muito de estrutura e escala, atrativos que as indies nem sempre podem oferecer.
Não à toa, algumas das agências independentes que mais avançaram no mercado brasileiro nos últimos tempos são aquelas acopladas a grupos nacionais mais parrudos, sobretudo às holdings Dreamers e Galeria, que deram tração a iniciativas recentes, como YouDare e Milà. A mesma lógica de juntar forças fomenta outras iniciativas nacionais, como as dos grupos Biosphera, Brivia, FSB e, mais recentemente, Tech & Soul.
Curiosamente, pelo menos por enquanto, o efeito da digitalização e do avanço das plataformas globais não causou na publicidade o mesmo efeito que teve na música, onde os indies ganharam oportunidades de avançar mesmo sem contratos com grandes gravadoras. A transformação que afeta o mercado de agências e impõe choques às maiores holdings globais abriu espaços para novos negócios no mercado brasileiro, como os citados. Entretanto, não facilita tanto a vida de talentos que sonham em prosperar de forma realmente independente.
A próxima grande fronteira que impacta não apenas a situação das independentes na arena global da publicidade, mas toda a indústria, é a da inteligência artificial generativa. Na semana passada, um dos principais executivos globais da OpenAI, uma das gigantes que lideram a corrida por esse novo eldorado, esteve no Brasil para preparar o terreno para o lançamento oficial no País da plataforma de anúncios do ChatGPT, previsto para as próximas semanas. O Brasil é o terceiro maior mercado do GhatGPT, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia.
Em entrevista exclusiva à editora Bárbara Sacchitiello (leia nas páginas 8 e 9), o head of global ads solutions, David Dugan, falou sobre como a empresa pretende aproveitar o fato de 20% das pesquisas feitas pelos usuários terem intenção comercial e, assim, aumentar a participação da publicidade em sua receita global — índice que já será de 40% em 2026.
Além de elogiar a formato de trabalho das agências de publicidade brasileiras, com criação e mídia sob o mesmo teto, Dugan descreveu a preocupação da plataforma com a simplicidade de uso, para que não seja uma ferramenta voltada apenas para uma elite técnica, e com o tempo de conexão dos usuários, se apresentando como um aplicativo que ajuda a resolver coisas com rapidez para que as pessoas possam aproveitar a vida desconectadas.
O efeito real no cotidiano das pessoas e em negócios como o das agências independentes, ainda é uma incógnita.