Sustentabilidade não é pauta
É ruptura, e a maioria das marcas reluta em entrar nesse jogo
Existe um desconforto silencioso no marketing contemporâneo.
Nunca se falou tanto em sustentabilidade e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil acreditar nela.
A pauta ESG se consolidou, os relatórios se sofisticaram, as campanhas se multiplicaram. Mas, para além da superfície, a sensação é de repetição: discursos semelhantes, promessas genéricas e uma estética “verde” que pouco revela sobre mudanças reais.
O problema não é falta de narrativa. É excesso de narrativa sem lastro.
E talvez seja por isso que eventos sobre sustentabilidade estejam por toda parte, enquanto poucos conseguem, de fato, deslocar o debate do território da intenção para o da transformação.
Recentemente, dentro da programação do Fashion Revolution 2026, um encontro em São Paulo expôs essa fratura com mais clareza do que o habitual. Não por trazer novos conceitos, mas por tensionar os já conhecidos a partir de exemplos concretos.
Ali, duas convidadas funcionaram como prova viva e atuante de que é possível pensar sustentabilidade em escala, não como discurso aspiracional, mas como prática industrial.
A Agostina Comas, pioneira em upcycling industrial no Brasil, demonstrou, com casos aplicados, que o upcycling só cumpre seu papel quando sai do território experimental e ganha escala produtiva. Já Cristiana Pereira Barreto, designer e sócia do Instituto Renato Imbroise, trouxe um modelo que integra indústria e artesanato, reposicionando cadeias produtivas a partir de relações mais justas e inteligentes.
Não se tratava de inspiração. Tratava-se de operação.
E, para quem toma decisão, alguns pontos emergiram com força incômoda:
- Upcycling precisa ganhar escala para gerar impacto real
- Resíduo não é descarte — é matéria-prima estratégica
- Cadeias produtivas precisam ser redesenhadas para serem mais justas
- O custo da sustentabilidade ainda está mal distribuído
- Valor e preço continuam profundamente desconectados
Esse último ponto talvez seja o mais crítico e o mais negligenciado.
Hoje, com frequência, o produto sustentável chega mais caro ao consumidor. Não porque seja ineficiente, mas porque carrega custos que o modelo tradicional historicamente ignorou: impactos ambientais, condições de
trabalho, rastreabilidade, regeneração.
Ou seja, o problema não está no custo do produto sustentável, mas na ficção de baixo custo que sustenta o restante do mercado.
Enquanto essa distorção não for enfrentada, sustentabilidade seguirá sendo percebida como nicho, e não como novo padrão.
Para marcas, isso coloca uma questão estratégica incontornável: é possível construir relevância sustentada em um modelo que depende da invisibilização de seus próprios impactos?
A resposta, cada vez mais, parece ser não.
Sustentabilidade não é uma camada que se adiciona à marca. É uma lógica que reorganiza tudo do design à cadeia, da precificação à narrativa.
E isso exige mais do que comunicação. Exige reposicionamento.
Nesse sentido, iniciativas que buscam aprofundar essa discussão começam a ganhar relevância ao propor um deslocamento menos óbvio: conectar estética, ética e estratégia de negócio como parte de uma mesma equação.
Foi nesse território que surgiu a plataforma Sustentável Beleza, idealizada por Valéria Midena com quem tive imenso prazer em estabelecer parceria, com o objetivo de ir além do discurso e tensionar o papel da criatividade dentro da agenda ESG.
Com apoio institucional do Capitalismo Consciente e participação de marcas que buscam coerência prática, como a VEJA, que utiliza algodão orgânico, borracha amazônica e materiais reciclados em sua cadeia, o encontro sinaliza um caminho possível.
Mas também deixa um alerta:
Não será a quantidade de eventos, campanhas ou relatórios que definirá o futuro das marcas nesse campo.
Será a capacidade de transformar discurso em estrutura.
Porque, no ritmo atual, a sustentabilidade corre o risco de se tornar apenas mais uma linguagem de marketing, quando, na verdade, ela exige uma mudança de sistema.
E sistema não se comunica. Sistema se reconstrói