A China não está esperando o futuro do varejo, está construindo
Não impressiona apenas o tamanho do e-commerce do país, mas também a velocidade com que tudo se reinventa
Toda vez que volto da China, fica difícil olhar para o varejo da mesma forma. Em uma manhã em Xangai, esqueci de levar um sapato para um evento, e resolvi comprar por um aplicativo às 10h da manhã. Trinta minutos depois, o entregador estava na recepção do hotel. Em outro momento, milhões de bubble tea foram vendidos em uma campanha da Qwen, a inteligência artificial (IA) do Alibaba, que em nove horas processou mais de 10 milhões de pedidos de chá e levou o aplicativo ao topo da App Store. O cenário diz tudo. A China não está esperando o futuro do varejo. Está construindo.
Os números ajudam a entender a escala. O mercado de e-commerce chinês movimenta US$ 3.209 trilhões (51% do varejo total do país), segundo levantamento do Instituto Retail Think Tank (IRTT). Já de acordo com um estudo da consultoria PYMNTS, realizado em parceria com o Google, 84% dos usuários utilizaram carteiras digitais para realizar transações. São mais de 180 bilhões de pacotes entregues por ano, como já foi divulgado pelo Departamento Estatal de Correios da China. Mas não é o tamanho que mais impressiona. É a velocidade com que tudo se reinventa.
Pegue o live commerce, que já responde por cerca de 31% de todo o mundo, segundo dados da Grand View Research, e, em 2023, já fazia com RMB (Renminbi, nome oficial da moeda da República Popular da China) 4,9 trilhões (US$ 722bilhões) em vendas via vídeo curto e livestream e previsão de crescimento de 18% ao ano até 2028, conforme aponta dados da Statista. KOLs, os key opinion leaders chineses, convertem milhões de viewers em compras em minutos. Comprar deixou de ser uma tarefa e virou um entretenimento.
A IA entra como a camada que costura tudo isso, e aqui está o ponto que mais me interessa: a IA chinesa não é experimento. Está na recomendação, no checkout, na busca, no atendimento, no preço dinâmico. O que em muitos lugares ainda é projeto piloto, lá já é infraestrutura.
E o que tudo isso nos diz? Para mim, principalmente que o consumidor busca, acima de tudo, comodidade. Seja na inteligência com que os sistemas estejam integrados para oferecer uma experiência fluida, seja no tempo de entrega. E, talvez o mais importante para quem olha para o Brasil, esse vanguardismo não fica circunscrito a um país; está sendo levado a outros mercados também.
A pergunta que fica é menos sobre o que a China está fazendo e mais sobre como podemos pensar mais disruptivamente para facilitar a vida do nosso cliente, todos os dias. Se temos mercados que estão conseguindo avançar e com modelos de negócios que trazem resultados que impactam a vida real, por que ainda nos prendemos a formatos já conhecidos? Como podemos usar essas inspirações para criar o que faz sentido aqui no Brasil?