Opinião

Confiança virou infraestrutura

Por que as empresas precisam parar de tratá-la apenas como discurso

Hugo Bethlem

Presidente do CCB 5 de junho de 2026 - 14h00

Vivemos uma era paradoxal. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tecnologia e dados. Ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil construir confiança.

Esse cenário revela uma mudança silenciosa, mas profunda, na forma como consumidores, colaboradores e a sociedade se relacionam com empresas e marcas. A confiança não desapareceu, ela apenas se tornou mais escassa. E, justamente por isso, mais valiosa.

No varejo, isso fica ainda mais evidente. Historicamente, o setor sempre operou sobre relações de confiança. O cliente escolhe uma marca acreditando que ela entregará aquilo que promete: um produto adequado, um preço justo, um atendimento coerente e uma experiência respeitosa.

Durante muito tempo, parte dessa confiança era construída pela narrativa das marcas. Campanhas publicitárias, posicionamento institucional e reputação consolidada sustentavam essa relação. Hoje, porém, o consumidor mudou.

O novo consumidor não aceita apenas discursos. Ele verifica.

Com poucos cliques, compara preços, consulta avaliações, expõe falhas publicamente e acessa informações em tempo real. Isso transforma completamente a lógica da confiança. Antes, ela era majoritariamente percebida pela comunicação. Agora, ela é validada pela experiência concreta.

Essa talvez seja uma das maiores mudanças do ambiente empresarial contemporâneo: a confiança deixou de ser apenas um ativo de comunicação e passou a ser um ativo operacional.

Isso significa que ela não nasce mais exclusivamente no marketing, mas principalmente na consistência da operação. Na forma como a empresa atende os clientes, trata seus fornecedores, respeita e engaja seus colaboradores e conduz decisões difíceis no cotidiano.

A confiança é construída em pequenas entregas diárias. Em promessas cumpridas. Em transparência. Em coerência. Em relações justas. E o contrário também é verdadeiro: pequenas incoerências repetidas ao longo do tempo corroem rapidamente anos de construção reputacional.

Esse movimento exige uma revisão importante da forma como muitas organizações operam. Ainda vemos empresas investindo fortemente em branding e posicionamento institucional, mas negligenciando processos internos, cultura organizacional e experiência real do consumidor.

Em um ambiente hiperconectado, a distância entre discurso e prática ficou perigosamente curta. Dentro da lógica do Capitalismo Consciente, esse tema ganha ainda mais profundidade. Confiança não é um objetivo isolado. Ela é consequência de um sistema alinhado entre propósito, liderança, cultura e foco genuíno em stakeholders.

Quando uma empresa possui clareza de propósito, coerência na liderança e relações sustentáveis com todos os seus públicos, a confiança emerge naturalmente. Quando esse alinhamento não existe, nenhum discurso consegue se sustentar por muito tempo. Talvez por isso a confiança tenha se tornado um dos poucos ativos realmente difíceis de copiar.

Preço pode ser ajustado. Tecnologia pode ser adquirida. Produtos podem ser replicados. Estratégias podem ser imitadas. Mas relações genuínas de confiança levam tempo, consistência e credibilidade para serem construídas.

E há outro ponto importante: confiança é tema de liderança, não apenas de comunicação.

Em momentos de pressão econômica, muitas organizações recorrem a decisões imediatistas: redução excessiva de custos, deterioração da experiência do cliente, pressão sobre fornecedores ou escolhas focadas exclusivamente no curto prazo.

O problema é que cada decisão incoerente pode comprometer anos de construção de confiança. Por isso, liderar hoje exige compreender que resultado sustentável não depende apenas de eficiência financeira, mas também da capacidade de preservar relações confiáveis ao longo do tempo.

No fim, talvez a pergunta mais relevante para as empresas contemporâneas não seja apenas “como ganhar mercado?”, mas sim “como construir e manter confiança em um ambiente cada vez mais desconfiado?”.

Porque o consumidor pode trocar de produto, de canal ou de marca a qualquer momento. Mas ele tende a permanecer onde encontra coerência, respeito e confiança.