opinião - daniel bruin

Sem reputação, não há salvação

Esse é um conceito que não envelhece, e se envelhecer precisa ser resgatado a todo momento

Daniel Bruin

Presidente do conselho gestor da Abracom 10 de junho de 2026 - 6h00

Reputação é o assunto do momento. Todo mundo só fala nisso. Virou moda.

Mas seu alcance e peso estão longe das ondas de arrebentação dessa súbita popularidade.

Reputação é importante desde sempre: a Bíblia está repleta de passagens sobre sua importância, e Jesus é um dos cases reputacionais mais famosos e bem-sucedidos da história.

No mundo empresarial, o investidor e mago Warren Buffet avisava desde a década de 1970 que uma boa parte do valor de uma empresa não está em máquinas e equipamentos, mas sim no que ele chamou de valor intangível, a forma como a companhia é percebida e avaliada pela cadeia de públicos de seu interesse, os chamados stakeholders.

Avançando um pouco mais, hoje se assume que qualquer programa de governança corporativa passa principalmente pela reputação, construída com uma comunicação ética, transparente e responsável. É o que prega a todo momento o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

Uma boa reputação é um dos pilares ou, dependendo do caso, um dos objetivos de uma boa governança. Esse é um conceito que não envelhece, e se envelhecer precisa ser resgatado a todo momento.

Diversos casos de crise de imagem recentes, no Brasil e no exterior, mostram que quando não há governança suficiente, a reputação sofre e vice-versa. Empresas de capital aberto ou fechado que negligenciam uma, comprometem fatalmente a outra.

Um caso recente e grave é o da Boeing. A crise da fabricante norte-americana, iniciada há mais de 15 anos por falhas em projetos e acidentes com suas aeronaves, se intensificou em 2024, após novos incidentes envolvendo aeronaves da linha 737 MAX, especialmente o episódio em que uma porta se desprendeu em pleno voo de um avião da Alaska Airlines. O caso reacendeu dúvidas globais sobre segurança, cultura organizacional e transparência da companhia.

O problema da Boeing vai além de uma falha técnica. Analistas e especialistas em governança apontam que a empresa vive uma crise estrutural de reputação causada por decisões gerenciais orientadas prioritariamente por metas financeiras, em detrimento da engenharia, da segurança e da cultura ética corporativa.

No Brasil, assistimos o escândalo do Banco Master mostrar que governança e reputação não são brinquedo. Neste caso, é até difícil saber quem passou uma rasteira na outra.

Até poucos anos atrás, o Master era frequentemente apresentado como símbolo de expansão agressiva e inovação no mercado financeiro brasileiro. Sob o comando de Daniel Vorcaro, passou por forte reposicionamento estratégico, começa oferecer produtos com rentabilidade elevada e conquistou visibilidade no mercado com uma narrativa pública associada a crescimento, sofisticação financeira e ousadia empresarial. O banco surfava em avaliações positivas de agências de rating e forte presença na mídia econômica.

Muitos aplaudiram, inclusive alguns que hoje apedrejam.

A partir de 2025 a reputação do banco começou a sofrer desgaste progressivo diante de suspeitas envolvendo liquidez, composição de carteiras e exposição excessiva a operações de maior risco, até sofrer intervenção e posterior liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, que mencionou “graves violações às normas do sistema financeiro”.

Pior: o nome do banco está ligado a diversos episódios pouco republicanos com autoridades de todos os poderes, Vorcaro foi preso e a Polícia Federal conduz investigações que podem jogar uma bomba atômica no cenário político nacional.

Esses casos escancaram o fato de que parecer, muitas vezes, não é ser. E quando isso vem a público, fica claro que, em termos de governança e transparência, sem reputação não há salvação.