DNA criativo
Em importante vitória do modelo de negócios dominante na publicidade brasileira, mesmo em cenário adverso, pela primeira vez, as líderes em compra de mídia são as duas agências mais premiadas pela criatividade
Os dois movimentos que melhor sintetizam a transformação vivida pela saúde financeira do mercado brasileiro de agências de publicidade na última década são o domínio das plataformas globais no meio digital e o estabelecimento no País das empresas especializadas em compra de mídia. Evidentemente que, nesse período, outras questões também influenciaram em mudanças nas fontes de sustentação econômica da atividade, como o maior protagonismo das áreas de marketing e compras dos anunciantes — ávidos por eficiência e performance —, a nunca tão acirrada dinâmica de disputa pela atenção do público e os novos comportamentos de consumo das gerações mais jovens.
A força das plataformas globais, que impuseram localmente suas normas próprias, em detrimento dos acordos nacionais de autorregulação, se sobrepôs às práticas dos conglomerados de mídia 100% brasileiros, que, por décadas, patrocinaram o feito de manter o Brasil praticamente como uma ilha. Na publicidade, o País operou quase que exclusivamente com o modelo de agências full service, com criação e mídia sob o mesmo teto e faturamento combinando comissões, fees e bonificações bem maiores do que os atuais. Essa foi a engrenagem responsável pela prosperidade das agências e pelo impressionante status internacional alcançado pela publicidade brasileira — positivamente desproporcional ao espaço ocupado pelo País no bolo financeiro global da atividade. Para a sociedade, um dos melhores efeitos colaterais desse modelo foi o da manutenção de uma pujante indústria de conteúdo nacional de qualidade, no jornalismo e no entretenimento, total ou parcialmente subsidiada pela publicidade.
No ambiente das agências, a venda para o capital estrangeiro de quase todas as grandes empresas nacionais e a subsequente abertura para ferramentas e escritórios das redes globais de mídia intensificou de modo mais abrangente algumas práticas antes mais tímidas, como a de centrais de mídia e a de separação pelos anunciantes das verbas de criação e mídia. O fato mais simbólico desse movimento foi a inédita liderança no ranking nacional, por dois anos seguidos, de uma agência especializada em mídia: a Mediabrands, rede global do IPG agora incorporada ao Omnicom e, desde o início do ano, incluída em um agrupamento de agências que, agora, usa a marca Omnicom Media.
Toda essa conjunção de fatores torna tão emblemático quanto o que ocorreu dois anos atrás o resultado do mais recente ranking do Cenp-Meios, divulgado neste mês e relativo ao consolidado de 2025. O pódio não somente é ocupado por três agências full service que têm a criatividade em seu DNA — Africa Creative, AlmapBBDO e Galeria —, como, pela primeira vez na história da publicidade brasileira, as duas líderes são as mesmas que estão no topo do pódio criativo. Almap e Africa lideraram o Ranking Meio & Mensagem, divulgado em janeiro e que consolida o desempenho das agências atuantes no País nas mais importantes premiações destinadas a campanhas.
No Cenp-Meios, a Mediabrands caiu da primeira para a sexta colocação; e a EssenceMediacom, rede global de mídia do WPP, da décima para a décima quarta. Outro ineditismo é a ausência no Top 10 do WPP, que há cinco anos inaugurou no Brasil a WMS, operação de mídia que tornou-se a maior empresa do grupo no País e esse ano adotou a marca WPP Media.
Desde meados dos anos 1990, as líderes em compra de mídia no Brasil foram a McCann-Erickson (por nove anos, entre 1994 e 2002), a NewcommBates (2003) e a Y&R (por 11 anos, de 2004 a 2014), segundo dados do Projeto Inter-Meios, iniciativa de Meio & Mensagem que foi descontinuada em 2015. Essas três agências, fortes em negócios, não figuravam entre as líderes em prêmios criativos nessas épocas. A partir de 2020, a referência do mercado passou a ser o ranking do Cenp-Meios, que apontou como maiores compradoras de mídia a WMcCann (2020 e 2021), a BETC Havas (2022) e a Mediabrands (2023 e 2024).