Opinião

Gostaria de ouvir a palavra da IA? Hoje não, obrigado

Tanta gente preocupada com IAs soando como humanos e eu me preocupo mais é com humanos que soam como IA

Fernando Drudi

Diretor executivo de criação da Convert 23 de abril de 2026 - 14h00

Quem já fez análise conhece a cena: o analista, do completo nada, repete em voz alta a última palavra que você disse, uma única palavra, enquanto te aponta a porta da rua. Fim de papo por hoje. E você sai tonto, se perguntando: “o que será que ‘azulejo’ tem a ver com minha crise existencial?”

Goste você ou não de psicanálise, ela se vale de um princípio que é impossível discordar: a palavra é a matéria-prima do pensamento. A tristeza de fim de domingo, o prédio da sua síndrome do impostor: tudo erguido com tijolinhos de palavras.

A palavra certa é um superpoder. É soltar o especial com a barrinha cheia. Eu repito isso enfadonhamente para o meu time e para os meus alunos da Miami. Em aula, costumo sugerir um exercício de reescrever um briefing quadrado com o próprio vocabulário, só para ativar repertório. Palavra é a interface com a química do próprio cérebro.

Por isso os LLMs são tão apaixonantes: pela primeira vez, a palavra pura é a interface com o cérebro das máquinas. Mas palavra não é a matéria-prima da eletrônica. Nem da física quântica. Quando a máquina fala, é do jeitinho dela. Depois de difamar os travessões, a nova trend das IAs é: “você não escreveu apenas uma coluna no M&M, você fez um chamado à resiliência cognitiva do mercado”.

Palavras escolhidas por um modelo estatístico não deixaram de ser o que são só porque você usa o system prompt que “humaniza” os textos. Tudo que vem direto do forno da IA e você considera pronto é um “pronto” nota 5.5. De 10. É muito número disfarçado de palavra.

Outro pãozinho quente das IAs e está com bastante saída são os slides prontos num clique. Apresentados, encaminhados, digeridos, salvos na nuvem e sorrateiramente virando conhecimento. Imagine elevar o feeling do ChatGPT ao status de conhecimento corporativo. Tanta gente preocupada com IAs soando como humanos. Eu me preocupo mais com humanos que soam como IA.

Produzir conhecimento é job humano. Do contrário, estamos passando o ridículo de fazer IA conversar com IA. Como um caso de um aluno que terceiriza sua monografia para o Gemini. O professor recebe e pede para o Claude corrigir. Ou briefings escritos pelo Copilot do cliente caindo direto no Gamma da agência e virando ppt de planejamento anual.

IA generativa tem sido meu dia a dia na Convert, minha nerdisse favorita, meu hiper-foco e meu trabalho há um tempo considerável. Em 2026, eu planejo dobrar esse engajamento. Mas eu nunca deixaria a IA ditar a prosa que tenho com meus clientes, meus pares e, principalmente, a prosa que tenho com minhas ideias. Palavra é coisa nossa.