Women to Watch

Jornalistas mulheres: entre as Eleições e a violência online

Mesmo sob ataques crescentes, profissionais como Daniela Lima e Eliane Cantanhêde pautam o debate político

i 25 de março de 2026 - 14h50

De acordo com o relatório da Abraji de monitoramento de ataques à jornalistas, no ano de 2024, 29,5% das agressões foram direcionadas às mulheres, enquanto 53,8% aos homens. Já 21,9% se enquadraram na categoria “não se aplica”, ou seja, foram direcionados à organizações. Apesar da maioria das ofensivas serem direcionadas aos homens, existe um componente diferente quando um ataque é voltado para uma mulher: o teor misógino.

No mesmo ano, as jornalistas mais visadas foram Daniela Lima, jornalista do Uol e TMC, e Natuza Nery, apresentadora da GloboNews e do podcast O Assunto, do G1, com respectivamente seis e quatro casos registrados pelo monitoramento.

Do total, 31% dos registros de ataques em 2024 (65) foram motivados por gênero. No ano anterior, foram 83, que correspondiam a 24,8% do total. Mesmo em 2022, ano das últimas Eleições e o período com maior número de casos (557), 26% foram motivados por gênero, indicando que, apesar da diminuição do número absoluto de registros, este tipo de ataque aumentou em proporção.

Passados quatro anos da última eleição, o termômetro não parece ter diminuído no campo político. Com a prisão de Jair Bolsonaro, a pressão pela anistia dos condenados pelo 8 de janeiro e o caso Master, o contexto nacional segue em chamas, e será ainda mais inflamado pelo contexto internacional, impulsionado pela política externa do governo de Donald Trump.

Para Eliane Cantanhêde, colunista do Estadão e comentarista da rádio Jornal de Pernambuco, o debate político para o ano de 2026 será marcado pela polarização e agressividade. “Aqui em Brasília, a gente costuma dizer que eleições assim são uma carnificina, porque as guerras já começaram pela internet, pelas redes sociais. Portanto, vai ser uma campanha muito difícil, muito agressiva e, com a IA, será pior ainda”, pontua.

Daniela Lima concorda com essa visão: “A temperatura está alta. Não houve nenhuma mudança no cenário de polarização e, na verdade, prefiro chamar de radicalização. O debate está puxado para os dois lados. Tanto à esquerda quanto à direita, as pessoas estão muito armadas, e isso faz com que o nosso trabalho vire alvo de um escrutínio permanente”, complementa.

Misoginia online

Em 2024, 51% dos ataques registrados pela Abraji ocorreram no ambiente digital. Outro relatório da organização, “Violência on-line: a internet como arena de ataques contra jornalistas”, destaca que as agressões motivadas por gênero e sexualidade encontram no meio virtual um terreno fértil de propagação. Em 2023, 65,6% dos alertas explícitos de gênero tiveram origem ou repercussão na internet. Em 2022, essa proporção chegou a 60%, e 71,4% em 2021.

Segundo Letícia Cesarino, antropóloga e pesquisadora brasileira, com a digitalização da política eleitoral, houve um aumento da agressividade e da polarização. “Isso tem várias razões. Uma delas é que, no ambiente digital, é muito mais fácil se expressar de forma agressiva do que no mundo presencial. Além disso, a própria lógica das plataformas, a algoritmização e a economia da atenção não só permitem esse tipo de discurso, como muitas vezes incentivam, inclusive com formas de monetização diretas ou indiretas”, destaca.

O resultado é uma explosão da hostilidade política nos meios digitais. “E essa violência não fica só no ambiente online. Ela começa a transbordar para o mundo real, à medida que as subjetividades políticas e as escolhas eleitorais vão sendo moldadas por esse ambiente”, reflete a antropóloga, que destaca o caso da morte de Marcelo Arruda, servidor público filiado ao PT que foi morto a tiros pelo policial penal Jorge Guaranho, apoiador de Jair Bolsonaro, em Foz do Iguaçu.

Abaixo da violência extrema, entretanto, há outras agressões que acontecem corriqueiramente nas redes sociais, incluindo ameaças, discursos agressivos e comentários desumanizantes. “A literatura recente sobre radicalização online mostra um aumento importante da chamada radicalização misógina, especialmente após a pandemia. Em alguns casos, ela cresce tanto quanto outras formas clássicas de radicalização, como o extremismo político ou o supremacismo branco”, adiciona Cesarino.

De acordo com a pesquisadora, existem perfis e conteúdos dos dois lados desse espectro: dos mais “leves”, facilmente encontrados em plataformas como o Instagram, a grupos extremistas, em plataformas como Telegram. “O problema é que o caminho entre esses dois pontos está cada vez mais curto. Esses conteúdos mais ‘moderados’ funcionam como porta de entrada para processos mais profundos de radicalização”, explica.

Letícia Cesarino, antropóloga e pesquisadora brasileira (Crédito: Divulgação)

Letícia Cesarino, antropóloga e pesquisadora brasileira (Crédito: Divulgação)

Perguntada sobre os ataques que recebe, Daniela Lima responde: “Isso acontece todo dia. E não é um escrutínio objetivo. Não é baseado no relato dos fatos ou na análise construída a partir da apuração. É um escrutínio calcado em ideologia: ‘se eu gosto, presta; se não gosto, não presta’. E a tendência é que isso piore durante o período eleitoral, porque é quando as emoções ficam mais afloradas”, destaca a jornalista.

Em 2024, 62% dos ataques motivados por gênero foram comentários machistas, misóginos, homofóbicos e/ou transfóbicos, 17% foram atos do mesmo cunho, 13,8% questionamento de capacidade e 6,9% violências sexuais.

“Dizem coisas como: ‘essa sujeita é uma velha gaga’, ‘está com Alzheimer’ ou ‘é uma gorda mal vestida que não arranja ninguém’”, conta Eliane. “Falam da cara, do cabelo, do corpo, se está gorda, magra, até chegam à desqualificação completa. Outro dia, por exemplo, eu postei uma foto no Carnaval, algo totalmente fora do contexto de trabalho, e apareceu alguém comentando ‘piranha’”, complementa Daniela.

“Esse machismo sempre existiu, mas, em muitos contextos, ele era contido por normas sociais, por um entendimento coletivo de que esse tipo de comportamento não é aceitável. Agora, o que muda é que a internet funciona como um espaço de exceção, onde esse tipo de contenção se enfraquece. É um ambiente em que homens, e outros atores também, se sentem mais livres para expressar um espectro de misoginia que vai desde formas mais ‘moderadas’ até as mais extremas”, explica Cesarino.

Nas formas mais moderadas, são comentários que desqualificam a jornalista, ou que apontam algum aspecto físico de forma a diminuí-la. No lado mais extremo, são ameaças de morte e estupro. “E isso nem sempre acontece só publicamente. Muitas vezes vem por mensagens privadas, e-mails, canais mais fechados”, pontua Letícia.

O relatório da Abraji de 2022 destaca um destes casos, da jornalista Vanessa Lippelt, então editora do Congresso em Foco, que sofreu ameaças de morte e estupro e teve seus dados vazados na internet após a publicação de uma reportagem sobre esquemas de fake news pró-Bolsonaro organizados em um fórum do site 1500chan.

“Esse cenário está piorando e isso revela uma lacuna importante do ponto de vista regulatório. Talvez uma regulação ampla das plataformas, como se tentou com o PL 2630, seja difícil de avançar agora. Mas alguns países têm conseguido aprovar regulações mais específicas, como na proteção de crianças e adolescentes. Talvez o caminho seja esse: avançar por áreas específicas, como a proteção das mulheres nos ambientes digitais. Hoje, a gente tem leis importantes, como a de combate à perseguição, mas ainda são respostas parciais”, reflete Cesarino.

Para a antropóloga, a resposta das plataformas tem sido a mesma: a da autorregulação. Porém, em sua análise, houve um grande relaxamento desta supervisão nos últimos anos. “Isso tem a ver com a resistência das próprias plataformas à regulação. Antes, elas ainda sinalizavam alguma disposição, mas, na prática, sempre atuaram fortemente para evitar regulação, como aconteceu no Brasil com o PL 2630”, afirma.

“Com o novo contexto político nos Estados Unidos, muitos CEOs se alinham de forma mais aberta ao poder, o que reduz ainda mais o incentivo para endurecer regras”, segue a pesquisadora. Apesar de existir certo monitoramento e retirada de conteúdos com níveis mais extremos de violência em plataformas maiores, o caminho para a radicalização segue sem regulação.

“Existe todo um percurso de radicalização, de desumanização, de recrutamento, e está praticamente sem controle. Esse é, para mim, um ponto cego importante da legislação atual”, destaca Letícia.

O custo pessoal

“A gente está entrando numa lógica em que jornalistas passam a ser também figuras personalizadas dentro do debate público. Eu certamente não sou a única pessoa que passa por isso, mas sei o quanto isso custa, inclusive em termos pessoais”, reflete Daniela.

O cenário também adiciona novas camadas ao exercício jornalístico. “Não é só manter a imparcialidade, é também manter a impessoalidade. Porque, se você começa a pensar ‘vou escrever isso e vai dar problema’, ‘vou escrever isso e vai gerar reação’, você trava e deixa de fazer. Então, é preciso se afastar disso, entender que o jogo hoje é esse e seguir trabalhando. Caso contrário, você não consegue avançar”, continua Lima.

Daniela Lima, jornalista do Uol e TMC (Crédito: Divulgação)

Daniela Lima, jornalista do Uol e TMC (Crédito: Divulgação)

Para Cantanhêde, o desafio é não se deixar ser engolida pela polarização e pela enxurrada de informações, falsas ou verdadeiras. “Meu compromisso é com os fatos. As pessoas dizem ‘ah, você é esquerdista, lulista’, ou ‘você é direitista, conservadora’. E eu respondo: não sou nada disso, sou jornalista. Eles mudam, vão e voltam. Eu não saio do meu lugar. Vai governo, volta governo, e eu continuo exatamente no mesmo ponto”, ressalta.

Para lidar com estes desafios, Eliane é categórica: “Tenho mais de 50 anos de profissão, minha vida já foi exposta de tudo quanto é jeito. Ou seja, não tenho rabo preso, e isso me dá muita confiança. Não tenho medo de político, de poderoso, de empresário rico. E por essa gente de internet, eu tenho desprezo”, responde.

O importante para elas é saber filtrar as informações. “É quase humanamente impossível reagir a tudo. Então, você precisa fazer uma peneira e focar no que é realmente relevante”, destaca Daniela. “O que eu faço é simplesmente não ler. De vez em quando, alguém me manda: ‘olha o que estão dizendo de você’. Eu digo: acredite quem quiser. Não vou me defender disso”, complementa Eliane.

“Mas tem um custo. É um exercício permanente. É uma autovigilância constante para não deixar a autocensura ganhar espaço na cabeça. Encaro isso como um desafio pessoal: não deixar de fazer as coisas, porque, se deixo, é uma vitória de quem quer me censurar”, pontua Lima.

Firmes e fortes

Apesar dos ataques constantes, as mulheres seguem na cobertura política. “Tenho muito orgulho de ver que, hoje, as mulheres estão pautando o debate político. São profissionais que apuram, que estão na linha de frente. Elas não estão ali só lendo, estão participando ativamente da construção do debate público. As redações hoje são muito mais femininas do que quando comecei”, celebra Daniela.

Sobre suas motivações para continuar no jornalismo político, Eliane ressalta: “Política é entender os processos, os personagens, saber com quem aquela pessoa está ligada, de que partido é, o que foi antes de chegar ali, quais são as pretensões daqui para frente. Adoro isso e vou adorar até o fim. Minha geração lutou contra a ditadura, lutou na Constituinte, lutou pela primeira eleição direta, pela Nova República. Então, eu não aguentaria um novo golpe de Estado. Sempre digo isso, mas continuo aqui. Porque a política move o mundo e eu gosto de entender para onde o nosso mundo está indo”.

“Quanto mais desafiador é o tempo, mais necessário se torna o nosso trabalho. Quem está cobrindo política hoje está, de certa forma, testemunhando um momento muito relevante da história, um momento de transformação social no mundo inteiro. Tenho muito orgulho de estar presente nesse debate, da forma mais íntegra que eu consigo”, reflete a jornalista do Uol.

“O que me motiva é isso: é a sensação de estar acompanhando tudo de um ponto de vista privilegiado, podendo conversar com atores desse processo histórico e relatar isso para as pessoas”, conclui Daniela.