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Oscar 2026: as apostas de lideranças do audiovisual

Diretoras, produtoras e executivas apontam favoritos da maior premiação do cinema, com destaque para O Agente Secreto

i 13 de março de 2026 - 10h49

À medida que a temporada de premiações do cinema se aproxima do momento decisivo com o Oscar, profissionais do audiovisual brasileiro também fazem suas apostas para as principais categorias da cerimônia. Entre análises técnicas, impressões pessoais e torcidas declaradas, diretoras, produtoras e executivas da indústria compartilham as performances e filmes de mais impacto ao longo do último ano.

Nas escolhas, aparecem obras que combinam força estética e densidade narrativa, de produções internacionais que exploram relações familiares e lutos íntimos, como a performance de Jessie Buckley em Hamnet, a filmes que mergulham em contextos políticos complexos, como Uma Batalha Após a Outra.

Há ainda um entusiasmo particular em torno de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, frequentemente citado como um dos destaques da corrida, tanto pela potência de sua narrativa quanto pela atuação de Wagner Moura.

A seguir, nomes do cinema e do audiovisual nacional comentam suas apostas para as principais categorias do Oscar de 2026, no qual O Agente Secreto, produção brasileira, concorre em quatro: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Seleção de Elenco.

Adriana Tavares, sócia e produtora executiva de entretenimento da Café Royal

Adriana Tavares, sócia e produtora executiva de entretenimento da Café Royal (Crédito: Divulgação)

(Crédito: Divulgação)

Melhor Filme: Hamnet – A Vida Antes de Hamlet

O filme me tocou profundamente ao demonstrar, com extrema sensibilidade, que o amor é tão inevitável quanto a morte. A direção de Chloé Zhao constrói a narrativa com uma delicadeza admirável.

Melhor ator: Wagner Moura (O Agente Secreto)

Wagner entrega uma atuação impecável cheia de nuances, convencendo o espectador apenas com o olhar.

Melhor Atriz: Jessie Buckley (Hamnet)

Jessie está imbatível. Ela emociona ao transitar por diversos sentimentos que vão da dor e desespero à aceitação em questão de segundos. Impossível não se emocionar com a sua atuação.

Melhor Filme Internacional: O Agente Secreto

O Agente Secreto é um thriller político brasileiro nada óbvio. Gosto que o Kleber usa o cinema de gênero para discutir temas relevantes do Brasil com muita potência e conectividade com o espectador. Além disso, acho que sempre devemos torcer pelo cinema brasileiro.

Alessandra Pellegrino, diretora na O2 Filmes

Alessandra Pellegrino, diretora na O2 Filmes (Crédito: Divulgação)

(Crédito: Divulgação)

O cinema tem essa capacidade de suspender o tempo e nos fazer sentir como se aquelas emoções fossem nossas. Alguns filmes impressionam pela técnica, outros pela estética, mas há os que marcam e permanecem depois da sessão. Minhas escolhas nascem dessa conexão íntima, daquilo que fica. É a partir dela que faço minhas apostas.

Melhor Filme: Uma Batalha Após a Outra

A obra chama atenção pela forma como encara o mundo contemporâneo sem aliviar. Paul Thomas Anderson conduz quase três horas com ritmo hipnótico, apoiado em personagens densos e profundamente humanos, algo que ele faz com muita precisão. Leonardo DiCaprio interpreta Bob, um ex-revolucionário que volta a ser perseguido ao lado da filha. Toda essa engrenagem política, com perseguições, vigilância e conflitos ideológicos, ganha força nas sequências de ação, mas se mistura com algo muito mais delicado: salvar a filha e preservar a relação com ela. As sequências de perseguição merecem destaque: a cada confronto, o diretor muda a locação, a linguagem e os personagens ao redor, transformando cada embate em uma experiência própria. O filme transita entre embates políticos e morais, mas, para mim, encontra sua força nas relações familiares. É minha aposta para Melhor Filme.

Melhor Ator: Wagner Moura

O Agente Secreto é atravessado por uma tensão silenciosa constante, onde política e medo estão vivos em cada cena. A narrativa equilibra suspense, crítica política e pequenas rupturas de linguagem que ampliam o desconforto e a reflexão. Dentro desse clima, Wagner Moura entrega uma atuação cheia de nuances. Há tristeza, desgaste, ação, tudo sustentado por um controle impressionante. No olhar dele, existe um peso que impede o personagem de se tornar só um observador da própria história. Ele continua humano, vulnerável, alguém com quem a gente se importa. Wagner constrói essa presença com economia e maturidade. É uma performance sofisticada profundamente conectada à identidade brasileira que atravessa o filme inteiro.

Melhor Atriz: Jessie Buckley (Hamnet)

Em “Hamnet”, somos conduzidos por uma narrativa ultra delicada e profundamente sensorial. O filme mergulha em um luto íntimo, explorando não apenas a perda, mas as reverberações silenciosas que ela provoca na vida de uma mulher e na estrutura de uma família. A direção de Chloé Zhao constrói esse universo com rigor e sensibilidade, criando uma experiência em que tudo é sentido. Jessie Buckley brilha de forma impressionante. Sua atuação é intensa e nos faz sentir cada camada da personagem, transformando a vulnerabilidade em força dramática. É essa complexidade que me captura.

Melhor Filme Internacional: O Agente Secreto

“O Agente Secreto” transforma a memória política brasileira em uma experiência imersiva. Ambientado no Brasil de 1977, em plena ditadura militar, o filme discute apagamentos, memória e identidade com firmeza e lucidez. A tensão não está apenas nos acontecimentos, mas no clima constante de vigilância e silêncio que atravessa cada cena. Kleber Mendonça Filho usa o suspense como ferramenta estética. Há uma sofisticação evidente na construção dos personagens e dos espaços, no desenho de som, no ritmo, além de uma liberdade para que o estranho se infiltre. Elementos do imaginário pernambucano surgem como ecos de uma paranoia coletiva. Há densidade, personalidade e consciência histórica. Mais do que revisitar o passado, o filme nos lembra de um período que não podemos permitir que se repita. 

Estela Renner, diretora, roteirista e cofundadora da Maria Farinha Filmes

Estela Renner, diretora, roteirista e co-fundadora da Maria Farinha Filmes e MFF & CO (Crédito: Divulgação)

(Crédito: Divulgação)

Melhor Filme: O Agente Secreto

É um filme de estrutura anti-estrutural, fragmentada e generosa, que convida o espectador a construir a própria narrativa junto com a experiência de assistir. Ao mesmo tempo, revela um Brasil profundo e expõe o que está em jogo quando a ditadura se instala. A produção reúne ainda um conjunto extraordinário de elementos: um elenco sincrético, de atuações robustas, direção de arte surpreendente, direção de atores impecável. Kleber Mendonça fez um filme que foge completamente dos padrões e propõe uma nova forma de contar uma história. Para mim, é uma obra-prima, um divisor de águas, algo realmente sem precedentes. É o Brasil deixando mais uma vez uma marca de legado.

Melhor Ator: Wagner Moura

Ele entregou a melhor atuação entre os indicados e construiu uma performance precisa, original e magnética. Vale lembrar uma observação da Fernanda Montenegro quando perdeu o merecido Oscar para Gwyneth Paltrow: ela disse que a precisavam dar um prêmio para uma americana por uma questão de segurança nacional. No cenário de hoje, dar um prêmio para um latino residente nos Estados Unidos é mais do que nunca uma questão de segurança nacional.

Melhor Atriz: Jessie Buckley (Hamnet)

Ela traz para a partitura emocional da personagem um registro extremamente difícil, que vai de uma beleza selvagem contida a uma dor aguda e lancinante, passando por uma força ao mesmo tempo inabalável e frágil. Sua atuação carrega as contradições profundas de uma mulher que resiste tanto ao próprio poder quanto às forças patriarcais. Buckley faz isso com uma destreza absurda, como uma grande musicista percorrendo as notas de seus sentimentos mais invisíveis.

Melhor Filme Internacional: Valor Sentimental

Meu voto é esse por vários motivos que deixam a trama extremamente sofisticada. O filme trabalha as camadas da relação entre duas irmãs de uma forma que eu nunca tinha visto antes, muito íntima, e que me comoveu demais. Minha irmã sabe o porquê. Também gostei muito da coragem e da construção do arco de redenção entre pai e filha. Digo coragem porque ousa um “final feliz”. E há ainda a performance brilhante da atriz americana Elle Fanning, onde seu personagem percebe as tensões e escolhas em jogo e acaba abrindo mão do papel que tanto queria, justamente por não se sentir legitimada naquele lugar. Achei esse arco dramático muito singular e bem costurado com as outras trilhas narrativas.

Giovana Grigolin, managing director da Magma

Giovana Grigolin, managing director da MAGMA (Crédito: Divulgação)

(Crédito: Divulgação)

Melhor Filme: O Agente Secreto

Vou torcer para O Agente Secreto ganhar melhor filme e filme internacional, mas não posso deixar de falar de Valor Sentimental. Essa obra me tocou de um jeito que, se não for pra ser nosso, que seja do Joachim Trier um desses prêmios. Falar de um tema universal clássico, relações entre pais e filhos e traumas familiares, dessa forma tão profunda, e fugindo dos clichês que vemos nesse tipo de assunto, me fez ter flashbacks das cenas, diálogos, pausas, espaços desse filme por muitos dias depois que assisti. A direção sofisticadíssimo de Joachim Trier (eu já era fã número 1 de “A pior pessoa do mundo”), a história narrada ora pelo lugar que os personagens habitam, pela direção de arte, pelos silêncios, ou um enquadramento que dá o ritmo perfeito para a cena, é realmente digníssimo de ganhar a estatueta.

Melhor ator: Wagner Moura

Para melhor ator, voilá, Wagner Moura. Sim, porque ele é brasileiro e tem o molho. Mas, de novo, a atuação em O Agente Secreto é forte e cheia de camadas. Tem uma intensidade travestida de contenção, numa ambiguidade que segura a história conflituosa e não deixa a gente desgrudar do personagem. Além disso, Wagner vem construindo uma carreira internacional sólida, está muito na hora de subir naquele palco e trazer mais um de seus discursos maravilhosos para as casas desses brasileiros que não desistem nunca.

Melhor Atriz: Jessie Buckley (Hamnet)

Para melhor atriz, sem dúvida Jessie Buckley, em “Hamnet”. Há muito tempo não me emocionava tanto com um filme, chorei até o cinema esvaziar. A atuação visceral para falar de maternidade, luto, amor, dor, desespero, e em alguns momentos seguidos de um rompante de aceitação, faz a gente viver com ela cada uma dessas emoções, conforme vão surgindo em seu rosto e nos movimentos do seu corpo. É absolutamente impressionante.

Melhor Filme Internacional: O Agente Secreto

Claro que vou torcer para “O Agente Secreto” levar todas as categorias em que está concorrendo, como imagino que a grande maioria dos brasileiros que gostam e torcem pelo cinema nacional. Mas falando tecnicamente, sem por o coração brasuca em primeiro lugar, achei o filme realmente incrível. A estrutura de thriller para falar de assuntos políticos, amor, violência e resistência, a narrativa super sofisticada e excêntrica com um tom de humor, faz a gente assistir as 2h40 de filme sem perceber o tempo passar, pelo contrário, ficar vidrado na tela querendo que não acabe. E a escolha desse elenco é sem dúvida a cereja do bolo, um personagem melhor que o outro, atuações maravilhosas. Duvido que tenha uma pessoa que assistiu a esse filme e não saiu apaixonada pela Dona Sebastiana.

Juliana Capelini, diretora executiva da Conspiração

Juliana Capelini, diretora executiva da Conspiração (Crédito: Divulgação)

(Crédito: Divulgação)

Melhor Filme: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

A disputa para o Oscar de Melhor Filme deste ano está muito acirrada e bem difícil de prever. Felizmente, as indicações são muito boas. Minha aposta para melhor filme, incluindo melhor direção e roteiro, é Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. O filme é uma aula de dramaturgia, com roteiro, elenco e fotografia impecáveis. Emociona profundamente pela verdade de cada momento da história. O trabalho de Chloé Zhao, que já admirava muito desde Nomandland, impressiona pela sensibilidade única. Os personagens ficam na nossa mente como se fosse possível sentir cada momento junto com eles.

Melhor Ator: Wagner Moura

Outra escolha difícil para a Academia. Timothée Chalamet é realmente impressionante em Marty Supreme, com muito preparo e entrega na construção de um personagem complexo e ambíguo em cenas nada simples. Odiamos e amamos Marty a cada cena, é impressionante. Já Michael B. Jordan em Pecadores também faz uma interpretação de tirar o fôlego. É uma explosão, que ator incrível. Mas, sem sombra de dúvidas, Wagner Moura tem uma performance arrebatadora em O Agente Secreto e o Oscar de Melhor Ator será dele. É impressionante a verdade que ele consegue trazer em cada cena, as pequenas nuances de olhar e intensidade de sentimentos. Conseguimos entrar na alma do Marcelo, respirar (e parar de respirar) com ele. Wagner nos leva para o universo do filme nos primeiros minutos e ficamos totalmente absorvidos, querendo viver cada segundo da história com ele.

Meelhor Atriz: Jessie Buckley (Hamnet)

Renate Reinsve brilha em Valor Sentimental, mas acredito que o Oscar vai para a Jessie Buckley. Com uma interpretação para ser lembrada por muitos anos, a personagem de Jessie nos cativa, nos leva a um lugar profundo e belo. Um trabalho estarrecedor, brilhante pela simplicidade e pela verdade em todos os momentos.

Melhor Filme Internacional: O Agente Secreto

Nosso cinema está arrebentando e O Agente Secreto tem tudo para ser o Melhor Filme Internacional, pela qualidade da produção, do elenco e da originalidade da história. O filme nos tira de um lugar comum do cinema e leva o público para dentro da época e do lugar, com uma linguagem absolutamente original. Um thriller político e social público com produção impecável e de tirar o fôlego. Também fiquei muito impressionada com o sueco Valor Sentimental, um filme lindo, emocionante, verdadeiro e contemporâneo. Um forte concorrente de O Agente Secreto.

Lucia Murat, cineasta

Lucia Murat, cineasta (Crédito: Dudu Miranda)

(Crédito: Dudu Miranda)

Melhor Filme: O Agente Secreto

Minha escolha não é só por ser uma cineasta brasileira. Acho que é realmente importante que o Oscar possa se diversificar e sair do cinema anglo-saxão. É fundamental para valorizar a diversificação do cinema mundial.

Melhor Ator: Wagner Moura

Pelo mesmo motivo e não só por ser uma cineasta brasileira que está aqui torcendo pelos nossos atores, mas também porque é importante diversificar. Não é possível só os atores anglo-saxões ganharem essa categoria.

Melhor Atriz: Jessie Buckley (Hamnet)

É um filme muito bonito. Ela está em um papel maravilhoso, que representa a força da mulher e de uma atriz que trabalha sobre questões femininas. 

Melhor Filme Internacional: O Agente Secreto

É realmente importante que a gente tenha essa dobradinha. Mostra a força do cinema brasileiro. Esse filme é muito bom, porque mostra a ditadura de uma maneira muito especial e diferente. É uma ditadura que se espalha na sociedade inteira, não está restrita a uma vítima.

Mel Chapaval, sócia-fundadora da Ginga Pictures

Mel Chapaval, sócia-fundadora da Ginga Pictures (Crédito: Divulgação)

(Crédito: Divulgação)

Melhor Filme e Melhor Filme Internacional: O Agente Secreto

Minhas apostas vão todas para O Agente Secreto. Seria incrível ver um filme brasileiro levar Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, especialmente um projeto tão autoral, com identidade forte e feito com um orçamento muito menor que o de muitos concorrentes. De verdade, não deixa nada a desejar. Acho que esse reconhecimento todo só evidencia ainda mais a potência do nosso cinema e dos nossos artistas. É muito emocionante ver o audiovisual brasileiro indo cada vez mais longe.

Melhor Ator: Wagner Moura

Minha torcida é para ele. A performance dele no filme é incrível. E seria histórico ver um brasileiro levar essa estatueta.

Melhor Atriz: Kate Hudson (Song Sung Blue)

É um papel que revelou uma nova camada do talento dela.

Sabrina Nudeliman Wagon, CEO da Elo Studios

Sabrina Nudeliman Wagon, CEO da ELO STUDIOS (Crédito: Lucas Ramos)

(Crédito: Lucas Ramos)

Melhor Filme: O Agente Secreto

Gostaria muito de ver O Agente Secreto reconhecido, não apenas pela qualidade cinematográfica, mas pela força simbólica de um filme brasileiro ocupar esse espaço. Ao mesmo tempo, obras como Uma Batalha Após a Outra ajudam a organizar o debate contemporâneo sobre os extremismos que atravessam tanto a direita quanto a esquerda. O Oscar tem a oportunidade de premiar filmes que vão além do entretenimento e contribuem para a reflexão pública com complexidade.

Melhor Ator: Wagner Moura

Wagner Moura seria uma escolha potente. É um ator que atravessou fronteiras sem perder identidade, combinando intensidade dramática com alcance internacional. Reconhecê-lo é também afirmar que o talento brasileiro deixou de ser exceção e passou a ocupar lugar estruturante no cinema global.

Melhor Atriz: Emma Stone (Bugonia)

Emma Stone merece o reconhecimento pela ousadia e pela extraordinária capacidade de comunicação com o público, mesmo em um papel completamente fora do convencional. Sua performance assume riscos narrativos e físicos, ampliando os limites do protagonismo feminino sem perder a conexão emocional.

Melhor Filme Internacional: O Agente Secreto

O Agente Secreto sintetiza um cinema brasileiro autoral, sofisticado e ao mesmo tempo comunicativo. Um prêmio nessa categoria reforçaria algo maior: a necessidade de uma política previsível e estruturada para o audiovisual brasileiro, capaz de sustentar a continuidade e a competitividade internacional. O cinema é uma ferramenta poderosa de soft power, projeta cultura, valores e imagem-país. Além disso, é também uma plataforma estratégica para marcas, que encontram em obras como O Agente Secreto um território de posicionamento sofisticado e global, associando-se a narrativas de impacto cultural real.