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Mulheres que ajudaram O Agente Secreto a ganhar o mundo

Atrizes e produtoras refletem sobre a experiência de participar de um dos maiores projetos do cinema nacional

i 12 de março de 2026 - 9h21

Era uma noite de quarta-feira quando a atriz Alice Carvalho, que estava trabalhando nas gravações da novela Renascer (2024), o remake da história de 1993 da Globo, recebeu uma ligação de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux com um convite especial: integrar o elenco do filme O Agente Secreto. No domingo seguinte, ela já estava no set, caracterizada para viver Fátima Nascimento no longa que agora concorre ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, pela interpretação de Wagner Moura, e Melhor Seleção de Elenco.

O que realmente levou Alice a aceitar o papel foi entender a potência do filme, diz. “Desde a narrativa até o elenco e todas as pessoas envolvidas. Era um convite para mergulhar sem o tempo tradicional de preparação, confiando muito na escuta, na equipe e na força da história.”

Alice Carvalho, atriz que interpreta Fátima Nascimento em O Agente Secreto (Crédito: Divulgação/CinemasScopio)

Alice Carvalho, atriz que interpreta Fátima Nascimento em O Agente Secreto (Crédito: Divulgação/CinemaScopio)

Já Geane Albuquerque, atriz cearense que interpreta Elisângela na trama, entrou no projeto de uma forma diferente. “Fui encontrada por meio de uma pesquisa de elenco, conduzida por Gabriel Domingues, com a assistência da Carolina Martins, que atravessaram estados do Brasil para construir a cara do filme, e me acharam nas redes sociais”, conta.

O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho, acontece no Recife dos anos 1970, no período da ditadura, e conta a história de Marcelo, um professor universitário que retorna à sua cidade natal após morar em São Paulo, mas é perseguido por assassinos de aluguel contratados por um empresário devido a uma disputa sobre uma patente.

“Quando tive acesso ao roteiro, ficou evidente que não se tratava apenas de um thriller histórico. Esse seria um dos projetos mais ambiciosos do Kleber”, pontua Geane. “A escrita do filme constrói uma atmosfera onde o silêncio é político e na própria escrita o ritmo é instaurado. Os personagens são atravessados por um contexto histórico que não se anuncia o tempo inteiro, mas que se impõe”, continua a atriz.

Foi justamente a escrita e a inteligência dramaturga que atraiu Albuquerque ao projeto. “A recusa de um espetáculo fácil, de um final fácil ou de respostas prontas, e a aposta na densidade histórica me empolgaram”, revela.

Geane Albuquerque, atriz de Elisângela em O Agente Secreto (Crédito: Divulgação)

Geane Albuquerque, atriz de Elisângela em O Agente Secreto (Crédito: Divulgação)

O longa foi produzido pela CinemaScópio (Brasil) e distribuído pela Vitrine Filmes, empresa na qual Silvia Cruz é CEO. “Estamos acompanhando e distribuindo os filmes do Kleber desde a primeira obra dele, o documentário Crítico, de 2008, passando pelo Som ao Redor (2012), Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023). Então, foi um caminho bastante natural estar junto no O Agente Secreto, depois dessa trajetória de 15 anos e cinco filmes”, conta.

Dora Amorim, produtora executiva de “O Agente Secreto”, também já trabalhava com Kleber desde Aquarius (2016), pela CinemaScópio. “Esse era um filme que a gente já esperava fazer há muitos anos, porque existia a expectativa de Kleber e Wagner trabalharem juntos, e o roteiro foi escrito pensando em Wagner, então desde o começo ele também estava envolvido no projeto”, lembra.

Porém, o que mais atraiu Dora no projeto foi a ambientação no Recife dos anos 1970. “Nasci em 1990, mas escutava meus pais falarem dessa época. Os dois moravam no bairro de São José, ali perto do centro, onde havia todos aqueles cinemas, o Trianon, Cine Art-Palácio, Cine Veneza, São Luís. Então aquela região sempre foi muito viva na minha memória, a partir das histórias e dos relatos”, diz.

“Lembro de quando li o roteiro pela primeira vez, um texto super longo de 170 páginas com alguns desenhos de Kleber. Achei logo de cara um projeto super visual. Kleber traz com gentileza o resgate histórico da nossa cidade, que sem dúvida nenhuma fez Recife entrar no mapa cultural do mundo”, continua Amorim.

Mariana Jacob, também por meio da CinemaScópio, atuou na produção de locação e depois como diretora de produção no filme. Ela conta que desde o início sabia que este seria um dos projetos mais ousados de Kleber. “Ambicioso artisticamente e complexo na execução. Gosto de desafios, e sabia que seria um trabalho exigente, que demandaria agilidade, articulação em várias esferas da cidade e diálogo com diferentes órgãos e instituições. Era um projeto enorme, e justamente por isso tão estimulante”, conta.

1, 2, 3, ação

Como Alice teve pouco tempo de preparação para o papel, ela partiu de sua intuição e do apoio do próprio diretor e de Wagner Moura para construir sua personagem. “Entendi que, naquele contexto, a melhor preparação possível era estar inteira no set. Compreender a força dela, a firmeza, a elegância e a consciência política que carrega, e deixar que isso atravessasse meu corpo em cena. O encontro com o Wagner foi fundamental. Foi muito na parceria que ela foi ganhando contorno”, afirma a atriz.

Para Geane, a presença e a orientação do diretor foram essenciais na construção de Elisângela. “O Kleber dirige com uma escuta muito afiada, sabe exatamente o que quer, tem clareza na sua visão e isso cria espaço para o ator existir dentro da cena. Para quem vem do teatro, isso é muito estimulante: você sente que está participando de uma construção autoral, e não apenas executando uma função”, destaca Albuquerque.

Mas foi a partir de sua observação e entendimento do humor que a personagem tomou corpo. “No teatro e no cinema, a gente entende que o riso não vem da piada explícita, mas da escuta, do tempo certo, do detalhe. Personagens como ela existem em muitos lugares, e o desafio foi não a transformar em tipo, mas mantê-la viva, contraditória, humana. O humor aparece quase como consequência da situação, nunca como objetivo”, continua a atriz.

A caracterização do filme, por sua vez, foi construída por meio de uma exploração daquele tempo e da cidade, encabeçada por Marisa Amenta. “Meu processo começou com uma pesquisa profunda sobre a época e o perfil psicológico de cada personagem. Trabalhei em estreita colaboração com a direção e o figurino para garantir que a caracterização (cabelo, maquiagem e efeitos) fosse coerente com a narrativa. Desenvolvi o trabalho buscando detalhes que transmitissem a tensão e o mistério que o filme pede”, relata.

Já o papel de Dora Amorim era garantir que o roteiro e todos os desejos criativos fossem feitos de acordo com a vontade do diretor e roteirista, além de ser responsável pelo orçamento e pelo dia a dia das gravações. “Em todos os momentos, a gente só queria o melhor para o filme. Não necessariamente o mais fácil ou o mais simples, mas, sem dúvida, o melhor”, reflete a produtora.

Para encarar o tamanho do projeto, Dora se apoiou em sua experiência e na parceria de anos com o diretor. “Quando li o roteiro e entendi o tamanho que o filme teria, compreendi que a obra poderia ser o filme da minha vida, no sentido da experiência. Acho que a minha grande preparação foram os filmes que eu fiz até O Agente Secreto.”

Mariana Jacob, mesmo com 20 anos de experiência em produção audiovisual, reforça como cada projeto é uma escola que ensina algo novo. “A gente nunca faz dois filmes iguais. Cada trabalho amplia nosso repertório e fortalece nossa capacidade de lidar com situações complexas. Com o tempo, vamos reunindo aprendizados e, quando surge um projeto desse porte, colocamos tudo para funcionar”, afirma.

Mariana Jacob, produção de locação e diretora de produção de O Agente Secreto (Crédito: Divulgação)

Mariana Jacob, produção de locação e diretora de produção de O Agente Secreto (Crédito: Divulgação)

Somado à experiência, o trabalho de equipe foi fundamental nas diferentes frentes da obra. ”Trabalho com a mesma equipe há mais de 10 anos. São pessoas de confiança, comprometidas, que já conhecem meu ritmo e minha forma de trabalhar. Em um projeto desta escala, essa sintonia faz toda a diferença”, continua Mariana.

“Era o maior filme já realizado no Recife, o que trazia uma responsabilidade enorme e, ao mesmo tempo, muito entusiasmo. Sabíamos que precisaríamos de agilidade nas decisões, articulação em várias frentes da cidade e diálogo constante com órgãos e parceiros institucionais, além da logística habitual de um filme enorme e o equilíbrio para fazer funcionar essa grande engrenagem”, completa.

O legado de O Agente Secreto

“Esse trabalho reafirmou algo em que acredito: não existe papel pequeno”, afirma Alice. “Cada personagem tem uma função dentro da engrenagem da história e, também, na nossa trajetória como atores. Me sinto extremamente honrada em fazer parte desse projeto e muito feliz por ver o caminho que o filme está trilhando para todos nós, para o cinema brasileiro e para as histórias que nascem aqui”, continua a atriz.

Para Silvia Cruz, ver o filme pronto e com a dimensão que ganhou é um grande orgulho, principalmente para quem acompanhou sua criação desde o começo. “O roteiro dele foi feito no período da pandemia na França, onde Kleber e Emilie moravam. Na época, eu morava na Espanha e fui visitá-los para conhecer o projeto. Acompanhei o processo do nascimento da história, filmagem e estreia em Cannes e nos cinemas do Brasil. Toda essa trajetória incrível foi sem dúvida a de maior sucesso da Vitrine e da CinemaScópio em todos os sentidos, de premiação, de público e de orçamento”, celebra a CEO.

Silvia Cruz, CEO da Vitrine Filmes (Crédito: Divulgação)

Silvia Cruz, CEO da Vitrine Filmes (Crédito: Divulgação)

Mariana Jacob se orgulha de ter participado do projeto e do nível de excelência que foi alcançado, principalmente devido à dimensão do desafio que foi desenvolvê-lo. “Foram cerca de dez meses de envolvimento, desde a preparação até a execução, vivendo o filme de forma muito próxima. Havia um sentimento constante de responsabilidade, o que elevava o nosso compromisso, nossas expectativas. Foi um processo muito marcante, um projeto para a vida. Com certeza saí dele mais experiente, mais confiante e ainda mais motivada para os próximos desafios”, reflete a diretora de produção.

Na caracterização, Marisa comemora o trabalho em equipe que definiu a execução. “Essa produção me marcou pela troca artística incrível entre os departamentos. Ver o resultado final da caracterização, que ajudou os atores a entrarem no personagem, é muito recompensador. Sinto um grande orgulho de ter contribuído para a atmosfera visual de um projeto tão potente e profissional”, destaca.

Para além do resultado final em termos de produção, a equipe reforça como o filme se tornou uma homenagem ao cinema brasileiro e como colocou um holofote sobre o Nordeste e seus talentos nativos. “Sou uma atriz cearense e formada em instituições públicas. Estar nesse filme junto a um elenco tão diverso e preciso reforça a ideia de que o cinema é um organismo vivo, feito de muitas presenças que se sustentam mutuamente”, reforça Geane.

“Ele me marca por aquilo que representa simbolicamente. Ampliar o eixo da narrativa histórica do nosso país para o Nordeste é um gesto político. É afirmar nossa memória e nossa existência, atravessar o território e colocar o Nordeste no centro”, continua a atriz.

Para Dora Amorim, que já acompanhou outras produções em que Kleber retratou Recife, O Agente Secreto colocou essa simbologia em outro patamar. “Seja com a camisa da Pitombeira, com as Donas Sebastianas e os Marcelos pelo Carnaval ou com as fotos de orelhão, o filme mobilizou o país nos últimos meses e arrancou muitas emoções dos brasileiros. Então, o que mais me marca é ter feito parte de algo que, de fato, teve um alcance tão importante e significativo para a sociedade brasileira contemporânea”, afirma.

Dora Amorim, produtora executiva de O Agente Secreto (Crédito: Divulgação)

Dora Amorim, produtora executiva de O Agente Secreto (Crédito: Divulgação)

É o simbolismo, a experiência e o orgulho coletivo que fazem O Agente Secreto ser um projeto especial para as mulheres envolvidas. “Claro que há um impacto concreto na carreira, de visibilidade e reconhecimento. Mas o que mais me atravessa é perceber que esses marcos históricos que o filme vem conquistando para o Brasil não são individuais. O filme dialoga com uma formação coletiva, com posicionamento político, com uma produção artística que insiste em existir mesmo em contextos adversos”, ressalta Geane.

“Ser parte do Ceará nesse projeto, junto com tantos sotaques, é a afirmação de que nossos corpos, nossas vozes e nossas histórias pertencem a esse espaço de visibilidade e de orgulho nacional”, continua a atriz.

“A obra fala de um momento difícil, de pirraça, como o Kleber bem coloca no começo do filme, e mesmo assim é muito sensível e precioso. Realmente fico imensamente feliz de ter meu nome vinculado a esse projeto, e acredito que ainda vai dar muitas outras felicidades para a equipe e para os brasileiros que estão torcendo”, finaliza Dora.