EQUIDADE

O que acontece quando os pais tiram a licença-paternidade?

Executivos de Google, Natura, Diageo, Gut e Grupo Dreamers relatam suas experiências com a licença-paternidade estendida

i 12 de junho de 2026 - 13h29

Em março deste ano, a licença-paternidade foi estendida de 5 dias para 20 dias, com um plano gradual de implementação: começa por 10 dias em 2027, 15 em 2028 e 20 dias a partir de 2029. Porém, antes desta mudança de lei, algumas empresas já aplicavam uma política de licença estendida, como Google, Natura e Diageo. Agências como Gut e Grupo Dreamers também faziam parte da lista.

A licença familiar estendida da Diageo começou em 2019, com seis meses (180 dias) disponíveis para todos, independentemente do gênero. “Quando incentivamos a divisão das responsabilidades domésticas, removemos o ‘viés da maternidade’ que historicamente trava carreiras femininas. É uma mensagem clara: o cuidado é compartilhado, e o crescimento profissional da mulher não deve ser penalizado pela vida familiar”, reforça Paula Lindenberg, presidente da Diageo Brasil.

Paula Lindenberg, CEO da Diageo no Brasil, Uruguai e Paraguai (Crédito: Arthur Nobre)

Paula Lindenberg, CEO da Diageo no Brasil, Uruguai e Paraguai(Crédito: Arthur Nobre)

Assim que o benefício foi implementado, Guilherme Martins, vice-presidente de marketing da Diageo no Brasil, foi um dos primeiros da empresa a adotar a licença estendida no nascimento de seu segundo filho. Isso quer dizer que o executivo chegou a experienciar o benefício de duas maneiras. Com o primeiro filho, tirou cinco dias. Já no segundo, seis meses. Sua esposa tirou uma licença de quatro meses e retornou antes ao trabalho, mas uma dúvida pairava sobre ele: qual seria o impacto disso sobre sua carreira?

Logo, o líder compreendeu na pele o que muitas mulheres sentem quando saem e retornam de licença-maternidade. “Muitos amigos e conhecidos me questionavam: ‘Mas para quê? O que você vai fazer durante esse tempo? Aproveita para fazer um curso, viajar, treinar para um triatlo, praticar algum esporte’”, conta Martins. À época, Guilherme já fazia parte do comitê executivo e, se não tirasse a licença como exemplo para a companhia, outros homens não se sentiriam confortáveis de tirar.

A Natura implementou o benefício em 2018 com 40 dias de licença-paternidade remunerada. Do ano passado até o momento, a empresa registrou 138 pedidos de licença. “Essa decisão fala muito sobre a essência da empresa e sobre o que a gente entende como o ‘Bem Estar Bem’. Fizemos isso porque acreditamos que o princípio de ‘cuidar de mim, para cuidar do outro e do mundo’ começa dentro de casa, nas nossas relações mais íntimas”, destaca Patricia Bobbato, diretora de cultura, desenvolvimento, DE&I e bem-estar da Natura.

Relações mais fortes

Suleiman Walid Abdalah Oweis, analista sênior de finanças e varejo na Natura, é um dos profissionais que usou o benefício no início do ano passado. O tempo foi essencial para o recém-pai, que precisou lidar com a internação do filho logo após o parto. “No início, não sabíamos que o Caetano nasceria com Síndrome de Down. Soubemos logo depois do nascimento dele, o que foi um choque para nós, ainda mais porque ele nasceu com alguns problemas cardíacos e pulmonares e ficou internado na UTI por 10 dias”, conta.

“Esses dias foram muito intensos, tivemos que alugar um quarto perto do hospital, para poder dar o suporte necessário a ele. Nesse período, crescemos muito como família, ficamos unidos e buscamos entender juntos sobre a síndrome e o que ela iria acarretar para o Caetano. Se eu não tivesse a possibilidade da licença-paternidade, não conseguiria ter dado esse suporte, ter passado por tudo junto e ter facilitado para a minha esposa, que não precisou estar sozinha nessa situação”, relata Suleiman.

Suleiman Walid Abdalah Oweis, analista sênior de finanças e varejo na Natura (Crédito: Arquivo pessoal)

Suleiman Walid Abdalah Oweis, analista sênior de finanças e varejo na Natura (Crédito: Arquivo pessoal)

A política de apoio às famílias se estende para além das licenças na Natura, e inclui também um espaço de berçário dentro da empresa, o que trouxe maior tranquilidade para Suleiman retornar ao trabalho. “Saber que eu poderia ir lá e ver meu filho quando quisesse foi muito tranquilizante e serviu como um respaldo fundamental para que eu pudesse focar nas minhas responsabilidades, sabendo que ele estava em um ambiente de total aceitação e cuidado”, continua.

Para a diretora da Natura, Patrícia Bobbato, tais benefícios, incluindo a licença estendida, berçário e programas de apoio e suporte psicológico, não apenas reforçam o pilar de marca empregadora, mas também criam um ambiente de acolhimento e segurança psicológica.

“Olhando de forma estratégica, esse conjunto de ações impacta diretamente a nossa cultura de inovação e a nossa jornada de equidade”, reflete Patrícia. “Tudo isso vem da nossa convicção profunda de que cuidar do equilíbrio entre a carreira e a família não é um custo, mas um dos investimentos de mais alto retorno que podemos fazer no nosso negócio”, pontua a diretora da Natura.

Patrícia Bobbato, diretora de cultura, desenvolvimento, DE&I e bem-estar da Natura (Crédito: Divulgação)

Patrícia Bobbato, diretora de cultura, desenvolvimento, DE&I e bem-estar da Natura (Crédito: Divulgação)

O papel do homem

Na experiência de Guilherme Martins, existe uma grande diferença entre os períodos de uma licença. “Quando você tem apenas cinco dias, não existe uma divisão real de responsabilidades. Nesse período, você consegue ajudar em algumas coisas, dar um banho na criança, mas para por aí. Já em seis meses, você realmente participa. Você consegue dividir as responsabilidades e fazer parte da rotina”, avalia.

Para o executivo, dois grandes benefícios da política é a possibilidade de criação de vínculo com o bebê e a família no período, e a segunda é a divisão de responsabilidades entre o casal. “Para todos nós, independentemente de ser homem ou mulher, conseguirmos ocupar os espaços que queremos ocupar, essa divisão precisa existir”, pontua Martins.

Guilherme Martins, VP de marketing da Diageo no Brasil (Crédito: Divulgação)

Guilherme Martins, VP de marketing da Diageo no Brasil (Crédito: Divulgação)

Como o executivo já tirou o benefício da licença de seis meses duas vezes desde então, isso impactou diretamente sua visão de performance profissional e liderança. “Existe uma associação muito forte entre sucesso e a posição que você ocupa profissionalmente. A paternidade costuma ocupar um lugar muito coadjuvante”, reflete.

“Essa experiência me ajudou a entender que, para mim, a paternidade ocupa um papel protagonista. É muito importante que minhas decisões profissionais não afetem as decisões da carreira da minha esposa. É crucial que nós dois possamos atravessar esse processo com tranquilidade, entendendo que existe um tempo de dedicação à família e às crianças, e que isso não deveria comprometer o desenvolvimento profissional de nenhum dos dois”, complementa o executivo.

Além disso, segundo Guilherme, a experiência também mudou sua forma de liderar. Ele diz ter adotado uma postura mais acolhedora, de segurança, conforto e tranquilidade, principalmente para os profissionais, homens e mulheres, que ainda sentem receio de tirar uma licença estendida.

Impacto na cultura

Na Gut São Paulo, a licença-paternidade estendida foi implementada em 2021, dois anos após a fundação da agência. Em 2024, Paulo Ottaviani, diretor de arte sênior, usufruiu do tempo de um mês com o filho após o nascimento, mesmo com um tempo de casa de aproximadamente um mês.

“Construir essas primeiras memórias juntos, participar da rotina desde o começo, aprender a cuidar, entender os horários, as dificuldades, os pequenos momentos. Tudo isso cria uma conexão muito forte, e eu confesso que no começo fiquei com um pouco de medo de sair de licença com tão pouco tempo de empresa. Mas todo mundo foi extremamente carinhoso comigo o tempo inteiro, sempre me lembrando que a prioridade naquele momento era eu viver aquilo com a minha família”, conta Paulo.

Paulo Ottaviani, diretor de arte sênior da GUT São Paulo (Crédito: Divulgação)

Paulo Ottaviani, diretor de arte sênior da Gut São Paulo (Crédito: Divulgação)

O retorno foi mais estável do que ele imaginava. “Justamente por ter conseguido viver aquele período de forma completa, voltei tranquilo, feliz e com a cabeça boa. Lembro claramente de pensar: ‘Cara, a Gut é um lugar em que poderia ficar um bom tempo’”, relata. Para o diretor de arte, um dos principais benefícios da licença é participar da adaptação da nova rotina desde o início. “Não ser alguém que ‘chega depois’, mas participar de verdade da adaptação da casa inteira a essa nova fase”, pontua.

A implementação do benefício em tão pouco tempo de criação da empresa reflete os valores que a agência busca cultivar. “A parentalidade é responsabilidade compartilhada, e a empresa tem papel ativo nisso. Estender a licença-paternidade é uma forma concreta de caminhar para um lugar de equidade de gênero. Na Gut, acreditamos que um pai presente em casa contribui para times mais equilibrados e uma cultura mais justa”, reforça Débora Fernanda, head de RH, diversidade e inclusão da agência.

Debora Fernanda, head de RH, diversidade e inclusão da Gut (Crédito: Divulgação)

Debora Fernanda, head de RH, diversidade e inclusão da Gut (Crédito: Divulgação)

Na visão da líder, tal benefício tem impactos transformadores para a cultura interna e para a agenda de equidade de gênero dentro das empresas. “Quando um homem se afasta para cuidar do filho sem constrangimento, isso manda uma mensagem poderosa para toda a organização, de que cuidado não é coisa de mulher, promovendo um tempo maior com a criança e que a empresa respeita as diferentes fases da vida das pessoas”, destaca Débora.

Engajamento e pertencimento

Como Paulo relatou, este tipo de política também contribui para o engajamento, pertencimento, retenção e atração de talentos, e é considerada uma vantagem tanto para a head da Gut quanto para o Google e o Grupo Dreamers. “Foi uma decisão estratégica que impactou diretamente na nossa cultura, no desempenho e na retenção. Desde o recrutamento e seleção de novos talentos, esse é um ponto que aparece como um diferencial”, afirma Débora Moura, head de atração e D&I do Grupo Dreamers.

Débora Moura, head de atração e D&I do Grupo Dreamers (Crédito: Divulgação)

Débora Moura, head de atração e D&I do Grupo Dreamers (Crédito: Divulgação)

No grupo, a licença para não gestantes foi ampliada para 30 dias em 2022, e pode ser usufruída por qualquer profissional independentemente do gênero. Rodrigo Genazio, diretor executivo de operações da Convert, que compartilha o aniversário com sua filha, no dia 15 de março, também se beneficiou da política. Porém, para o diretor, além de poder conectar-se com o bebê, o tempo é fundamental para fornecer apoio à esposa.

“Nos primeiros meses, o apoio do pai para o neném é pequeno se comparado à mãe, então o papel é de fato dar todo o suporte, afeto e acolhimento para a mãe que estava passando por diversas transformações. Então estar em casa, acolhendo minha esposa e de sobra curtindo as primeiras descobertas da minha filha foi um presente importante”, conta o diretor.

Rodrigo Genazio, diretor executivo de operações da Convert (Crédito: Divulgação)

Rodrigo Genazio, diretor executivo de operações da Convert (Crédito: Divulgação)

Novas perspectivas

A política também é uma grande ferramenta para a promoção da equidade de gênero. No Google, o benefício está atrelado à estratégia de ESG e também abrange as diferentes configurações familiares, além de benefícios complementares como o “baby bonding cash”, auxílio financeiro para despesas logísticas referentes ao nascimento da criança, e a “ramp-back policy”, que permite um retorno gradual ao trabalho com carga horária reduzida e salário integral nas primeiras semanas.

“A decisão de estender esse período fundamenta-se no conceito que chamamos internamente de ‘Baby Bonding’. Nosso objetivo central é proporcionar o tempo e a segurança necessários para o fortalecimento do vínculo familiar e a promoção da equidade de gênero no lar. Entendemos que, ao garantir que a responsabilidade pelo cuidado com o recém-nascido seja dividida de forma justa, contribuímos para uma mudança cultural necessária”, afirma Juliana Alves, gerente de benefícios do Google para a América Latina e Canadá.

Juliana Alves, gerente de benefícios do Google para a América Latina e Canadá (Crédito: Divulgação)

Juliana Alves, gerente de benefícios do Google para a América Latina e Canadá (Crédito: Divulgação)

A atualização da licença ocorreu em 2017, estabelecendo 12 semanas de licença para pais não gestantes. Em 2022, a empresa expandiu para 18 semanas, entre 4 e 5 meses de licença remunerada. Luiz Fernando Moncau, gerente de relações governamentais e políticas públicas do Google, tirou a licença de forma fracionada, a primeira quando o filho nasceu, e a segunda quando sua esposa voltou ao trabalho.

“Além dos benefícios óbvios de tornar as divisões de tarefas mais igualitárias em casa e de permitir a vivência desse momento, a licença ajuda a colocar as coisas em perspectiva, equilibrando a importância da vida e presença familiar em relação ao trabalho, com efeitos positivos em termos de bem estar ao longo do tempo”, relata Luiz.

Luiz Fernando Moncau, gerente de relações governamentais e políticas públicas do Google (Crédito: Divulgação)

Luiz Fernando Moncau, gerente de relações governamentais e políticas públicas do Google (Crédito: Divulgação)

“Quando diretores e gerentes usam o benefício integralmente, eles validam para todo o time que a dedicação à família é um valor respeitado e que não prejudica o crescimento profissional”, complementa Juliana.

Equidade de gênero

Paulo Ottaviani, da Gut, pode comparar a diferença que uma licença estendida tem para os pais. Em sua antiga empresa, ele só teve 5 dias previstos por lei quando seu primeiro filho nasceu. “É muito difícil ter que largar o bebê pra voltar à rotina de trabalho com tão pouco tempo. A diferença não tem comparação: 5 dias que eram previstos na lei é quase desumano. Precisamos de uma licença-paternidade estendida para sermos melhores pais, melhores funcionários e, principalmente, para poder apoiar as mulheres em todos os sentidos nesse momento”, reforça.

“Por isso, trazer os pais para esse lugar de paternidade ativa e de corresponsabilidade diminui muito a carga materna, e é um trabalho em que fortalecemos o tecido social. Para a gente regenerar e prosperar como organização, o bem-estar, o afeto e a vida pessoal precisam caminhar junto com a evolução profissional”, complementa Patrícia Bobbato.

Mesmo tirando a licença estendida de seis meses duas vezes, Guilherme Martins ainda percebeu que a carreira de sua esposa foi mais impactada do que a sua. “Com três filhos, passamos quase oito anos em um ciclo contínuo em que ela estava grávida, em licença-maternidade ou retornando desse período. Foi uma jornada longa. Enquanto isso, minha carreira continuou avançando. Fui promovido pelo menos quatro vezes, e ela, não. Você consegue enxergar esse impacto de forma muito concreta”, conta.

Seu exemplo se tornou um modelo para toda a empresa e para outras companhias, em que ele já esteve para falar sobre os benefícios da licença-paternidade estendida.

Para o executivo, o primeiro passo é entender que a licença estendida serve para que os homens realmente pratiquem a paternidade. “Ainda existe muito julgamento sobre qual é a responsabilidade do homem e por que ele deveria tirar esse tempo. Qual é, de fato, o papel do pai? Você ajuda ou você divide? Você participa integralmente ou fica com aqueles 10% das tarefas que a mulher ainda precisa planejar, lembrar, pedir ajuda e garantir que sejam feitas?”, questiona.

Além disso, para homens que desejam ser aliados da pauta de equidade de gênero, exercer este papel também é uma forma de impactar outros homens ao seu redor e propagar um exemplo positivo do que seria masculinidade e paternidade. Quando Guilherme tirou pela primeira vez a licença, ele foi um dos pioneiros, mas, hoje, o executivo comemora a alta adesão de funcionários homens que já passaram pelo período.

“As pessoas que desejam desenvolver suas carreiras e continuar crescendo profissionalmente não deveriam chegar a determinados momentos da vida sob a obrigação de fazer reflexões condicionadas pela falta de apoio ou pela ausência de políticas adequadas. Quando você coloca todo mundo no mesmo jogo, sob as mesmas regras e com as mesmas condições, cria um ambiente em que cada pessoa pode construir a trajetória que deseja seguir. As escolhas passam a ser individuais, e não consequência de oportunidades desiguais”, conclui.